domingo, 26 de dezembro de 2010

Contos do Rio

Filhos do Mondego: Contos do Rio

No tempo em que o tempo não era tempo, havia um rapaz e uma rapariga. Ao longe, Deus pregava partidas. Entre o rapaz e a rapariga existia um rio. As mesmas águas molhavam os pés de ambos. Ao longe, eles amavam sem se tocar. Ironicamente, o mesmo rio que os unia, também os separava. Mas nunca ninguém lhes disse que o amor era fácil.
Um dia, farto de esperar, o rapaz nadou até à outra margem do rio. Ela esperou por ele, na margem do rio. O tempo corria ao contrário, na terra onde o tempo não era tempo. Eis que ele se ergueu da água, os cabelos longos, encaracolados, ainda escorriam as águas do rio, como se chorassem de alegria por encontrar a rapariga. Ela abraçou-o. Os cabelos lisos e pele morena, queimada pelo sol, olhos grandes e escuros como a noite, imensos como o universo… Tudo como o rapaz vira ao longe, da outra margem do rio. Tudo o que ele pensava, várias vezes, ser uma miragem. Mas que desejava do fundo do seu âmago que fosse real. Neste momento, tudo isso era palpável, visível, real… Aquele abraço durou uma pequena eternidade. Embora não o suficiente.
Na terra onde o tempo não era tempo, o tempo tornou-se tempo, depois do abraço. O problema dos contos de fadas é mesmo esse: eles acabam. Os dias de bonança tornaram-se curtos e as tempestades teimavam em não cessar. O rio deixou de correr ao contrário. Corria agora para o mar. No mundo real, o amor não chega. No mundo real, os amores estão separados por oceanos. Ela sabia que ele era o homem da sua vida. Aquele que lhe olha nos olhos e lhe consegue ver a alma. Que entende os desejos e medos pelo volume de um sorriso. Mas nunca ninguém lhe disse que isso era suficiente. Até as estrelas caem do céu.
Roma ardeu. Nem as águas do rio conseguiram apagar o fogo. Ficaram as cinzas. O rapaz confrontou a rapariga. O amor tem destas coisas. Todos nós erramos, na vida real. A discussão foi tão acesa como o fogo que queimou Roma. No final, a rapariga, de lágrimas nos olhos e voz trémula, respondeu:
- Roma ardeu, mas a culpa não foi minha…
Ela debatia-se consigo mesma. Mesmo sabendo que o cerne da questão era ela. Ele conseguia ver-lhe a alma pelos olhos. Embora cada olhar fosse mais um golpe no seu coração. Ele sabia que a faísca que começara o fogo era ela. Eis a raiz de todos os males: o amor.
Então, depois da tempestade, sentaram-se ambos nas margens do rio. Molhando os pés nas mesmas águas que os separavam, no tempo em que o tempo não era tempo. Ela deu-lhe a mão e ele olhou-a nos olhos. O seu tempo tinha passado. Assim ficaram até ao pôr do sol. Nesse momento, veio o frio na espinha. Eis Deus e as suas partidas. Acordaram. Os pés já enrugados de passar horas submersos nas águas do rio. O rio corria para o mar, mas eles desejavam que assim não fosse. Cada momento era menos um momento para estarem juntos. Na terra onde o tempo não era tempo, o tempo corria ao contrário. Ali, as rugas também eram marcas do passar do tempo. A felicidade não era eterna e também envelhecia. Eles sonhavam, mas sabiam do seu destino. Ele não tirava os olhos dela. Ela não largava a mão dele. Como se tivessem medo de deixar partir um ao outro. Quanto tempo ainda lhes restava?
Devagar, mudou o vento. Os pés já não tocavam o rio. Ele já não olhava para ela. Não por falta de encanto: ela será sempre ela. Mas, infelizmente, o tempo é assim mesmo. Roma ardeu até ás cinzas. Ela compreendeu. Embora ainda acreditasse que havia volta a dar. A mão dela continuava agarrada a ele. De forma ténue, com medo de largar. O medo do abismo era grande. Nunca sabemos o que vamos encontrar no fundo do abismo. Na terra onde o tempo não era tempo, não existiam abismos. Nunca ninguém lhes disse que a vida tinha um rumo certo.
O tempo passou. O rio continuou a correr para o mar. O rapaz partiu para a sua margem do rio. A rapariga chorou um oceano de lágrimas. O amor também é isto: a perda. Em lados opostos do rio, o tempo parecia não ser tempo. Mas agora o tempo custava a passar. Agora, cada ruga era uma chaga, cada chaga uma marca do amor que cada um sentia pelo outro. Roma ardeu. Nem os grandes impérios conseguem erguer-se das cinzas, imponentes como antes. O rapaz e a rapariga ainda se sentam em margens opostas do rio. O mesmo rio que os une, também os separa. Nunca ninguém lhes disse que os contos de fadas têm sempre um final feliz.




PedRodrigues


3 comentários:

  1. Amei, tava ansiosa para ler o final. Se bem que não foi o fim,ele pode sempre nadar para a outra margem, e fazerem arder roma outra vez. Todo amor é eterno até ao dia que acaba. E enquanto não acabar, há sempre volta a dar. ;)
    Rita Fernandes

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  2. sim senhor, parabens sr. Cinzento

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  3. wooooooooooo
    ta magnífico....
    ta esplêndido... oh meu deus não existem adjetivos para descrever tal beleza *.*

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