terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Reflexões a quente

Desde miúdo que a minha mãe me diz que sou filho da noite. Gosto da noite. Gosto do silêncio. Gosto de ter tempo para mim. Gosto de me ouvir. Que silêncio. Sou um sonhador. Desde miúdo que via coisas onde mais ninguém via. Que fazia naves com os Legos. Robôs que se montavam e desmontavam. Mais ninguém os via. Só eu. Ainda hoje vejo coisas que mais ninguém vê. Perco-me a imaginar. Já me chegaram a dizer que o meu mal é pensar muito. Não penso muito. Penso o suficiente. Devem ser daquelas coisas que mais ninguém vê. Só eu. Adoro este silêncio. Devo ser mesmo filho da noite. Pobre mãe, a minha. Ter que me dividir com a noite. Não devemos dividir quem amamos. Desculpa mãe. Mas, gosto mesmo da noite. Todos os gatos são pardos, de noite. Não acredito muito nisso. Mas, eu vejo coisas que mais ninguém vê. Vejo-me a ter um futuro brilhante. Sol, livros, mar, amigos... Sem preocupações. Já ganhei mais de mil vezes o Euromilhões, na minha cabeça. Já visitei o mundo. Sou um escritor publicado. Todos me conhecem. Amado por uns, odiado por outros. Na minha cabeça sou isto tudo. Adoro este silêncio. Dá-me vontade de escrever. Já devia estar a dormir. Amanhã não tenho aulas, mas devia estudar. Não estou preocupado. O Euromilhões está a um pensamento de distância. Gostava de encontrar esta menina que trago na cabeça. Tem um bocadinho desta, um bocadinho daquela, o feitio desta, o estilo da outra... Deve ser mais fácil ganhar o Euromilhões. Se as mulheres fossem como os Legos. Sempre fui fã dos Legos. Montar, desmontar. O meu passatempo favorito. Se as mulheres fossem assim. Uma peça duma, uma peça doutra... Já está ! Adorava montar a mulher perfeita. A perfeição não existe. Não existem mulheres ás peças. Ainda bem que sou filho da noite. Adoro este silêncio. Ajuda-me a perceber que a mulher perfeita está a um pensamento de distância.


PedRodrigues

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