domingo, 12 de dezembro de 2010

Reflexões a quente

Gostava de saber falar de mim. Não sei como o fazer. Pareço tudo, menos modesto, quando falo de mim. Vou tomar um shot de água benta. Gosto de ver as pessoas da janela do meu quarto. Cabem-me na palma da mão. Gosto de as ver apressadas. Gosto de ver o amor do meu quarto. Os casais apaixonados. No meu quarto ninguém me magoa. Posso pensar. Posso meter-me no lugar desses casais. Da janela do meu quarto a vida parece um filme. Gostava de ver o mundo. Da janela do meu quarto não vejo o mundo. A vida parece um filme. No meu filme, quem manda sou eu. Sou actor principal, realizador, guionista, produtor... Só me falta a actriz principal. Já conheci muitas actrizes secundárias. Não encontro a actriz principal. A menina do feliz para sempre. Gostava de a conhecer. Não sei mesmo falar de mim. Pedro e o mundo das mulheres. Devia ser o título da minha vida. Cada mulher é um mundo. Demoramos a conhecer o mundo de cada mulher. Adorava conhecer o mundo. Perco-me tantas vezes. Já conheci vários mundos. Da janela do meu quarto é impossível ver o mundo. Da janela do meu quarto a vida parece um filme. Da janela do meu quarto o meu filme está parado. Não consigo ver a actriz principal da janela do meu quarto. Gostava de conhecer o mundo. Não consigo falar de mim. Não me conheço. Não conheço o meu mundo. O meu mundo é um universo de mundos. Pareço tão presunçoso a falar de mim. Detesto falar de mim. Hoje sinto-me o Pedro. Amanhã talvez me sinta o Miguel. Há um Pedro que escreve, dentro de mim. Há um Pedro que detesta as mulheres. Há um Pedro que ama as mulheres. Mas, o Pedro, o universo que une esses mundos, não consegue viver sem as mulheres. Talvez as mulheres não sejam mundos. Talvez as mulheres sejam estrelas. Há um sol em cada mundo. Quem me dera encontrar o meu sol. Detesto falar de mim. Perco-me sempre a meio. É o problema dos mundos. Cada mundo parece infinito. É fácil nos perdermos no infinito. Hoje sou o Pedro, o escritor. Hoje amo as mulheres. Gostava de as ver a acenarem-me da rua. Estou à janela. É difícil falar de mim, quando os outros me cabem na palma da mão.


PedRodrigues

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