domingo, 26 de dezembro de 2010

Reflexões a quente

Detesto as pessoas que pregam a originalidade. A falta de originalidade está aí, algures. Todas as grandes ideias já têm patente registada. Todas as outras são o reflexo delas. Gostava de ter descoberto a roda. Pensando bem: quem se lembra do inventor da roda? Que coisa banal. Todos querem ser originais. Ninguém quer ser mais uma gota no oceano. Mas, na verdade, não há oceano sem gotas. Eu não sou original. Sou uma gota. No entanto, não sou igual a ninguém. Tenho pena de não ter nascido mais cedo. Hoje, sinto-me um plagiador. Sinto-me um reflexo de tudo o que leio. Tudo me atormenta. Nunca fiz um risco de coca. Não fumo. Bebo álcool socialmente, fora isso só água. Nisto sinto-me original. Normalmente as palavras matam. A palavra certa pode começar guerras. A alma é escrava das palavras. Sempre ouvi dizer que as palavras ferem. Cada palavra é uma seta apontada ao coração. Apetece-me bater com a cabeça na parede. A alma é escrava das palavras e o corpo é o seu reflexo. Cada grama de coca corresponde a um quilo de palavras, para alguns. Nisso, sinto-me original. Mas, sou uma gota no oceano. Já não há génios. Hoje a sabedoria está ao alcance duma palavra. Agradeçam à internet.. Hoje os génios são como as gotas de água. Devia ter nascido mais cedo. Que tormento. Ainda ontem era Natal e estava feliz. Nem o Natal é original. Dois mil e dez Natais... Quem me dera ter descoberto a alavanca. Quem me dera mover o mundo. Génios? Só nas lâmpadas. Mas não há direito a três desejos. Tenho pena de mim, que nada sei. Tenho pena de não ser original, embora seja original. Detesto quem prega ao mundo a originalidade. Detesto ainda mais quem prega a originalidade com frases feitas por outros. Com ideias alheias. Não há oceano sem gotas. Não há palavras pouco importantes. Quem me dera ter nascido mais cedo... Ainda vinha a tempo de ver nascer o sol. Quem me dera escrever com a alma. Também eu sou escravo das palavras...

PedRodrigues

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