segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Ana Cláudia

Encontrei uma carta tua um dia destes. Andava perdida no meio dos livros e do pó. Devo tê-la escondido quando terminámos a nossa relação, naquele banco de jardim.
Trago esse dia na memória todos os dias - nunca o consegui esconder dentro de um livro, no meio do pó. Estava sol e eu tinha cortado o cabelo no fim de semana. Eu trazia vestida uma camisola verde  – a cor da esperança – e tu uma camisola cor de rosa. Lembro-me de onde te fui buscar e onde te levei. Lembro-me do último adeus
“Não chores”
E que vontade eu tinha de chorar contigo. Que vontade tinha de não ter dito adeus. Mas, infelizmente, disse. A vida é mesmo assim. Não fiques triste, não chores… A vida é mesmo assim
“Sinto a tua falta”
Também eu sinto a tua. A almofada já não tem o teu cheiro. As cartas que escreveste, ou os cabelos que deixaste espalhados pelo quarto não me preenchem o vazio que trago no peito.
“Adoro-te”
Sinto falta de te dizer isto, como sinto a falta do teu sorriso, ou da tua mania de me corrigir – mesmo sabendo que estava certo, só para me irritar.
“Gosto de ti porque…”
Como eu sorri ao ler isto. Apesar do tempo que já passou, das mulheres com quem estive depois de ti, dos amores e desamores, sorri. Aquele mesmo sorriso que fazia quando me sussurravas ao ouvido
“Pedro”
E eu não controlava os meus músculos faciais. Era uma marioneta da tua voz e das tuas palavras. Voltaste a usar a tua magia. Talvez tenha sido o recordar da tua caligrafia - as letras redondinhas e bem desenhadas – que me fez sorrir. Não sei explicar. Gostava de saber, mas não consigo, não sou capaz.
Cada palavra me fez voltar atrás no tempo até ao dia em que nos encontrámos pela primeira vez, num convívio da minha faculdade. Os teus caracóis loiros sempre me fascinaram. Eram a tua imagem de marca e sempre me ajudaram a encontrar-te no meio das multidões. Estavas de costas para mim. Reconheci-te pelos caracóis e aproximei-me.
Roubaste-me o boné que trazia na cabeça
“É de noite, não precisas de boné”
Os teus olhos brilhavam e riam para mim. Se soubesses o tempo que passei a vestir-me. A vestir uma camisola e outra; a meter o boné, a tirar o boné; a ajeitar o cabelo, a despentear o cabelo. Nada me parecia bem.
Seguraste o meu boné a noite inteira sem nunca o largar. Sem saberes - talvez sabendo - seguraste também o meu coração.
Ao final da noite entregaste-me o boné
“Gostei muito de te conhecer”
Também eu gostei de te conhecer. Gostei dos teus cabelos, dos teus olhos, dos teus lábios – carnudos e tão beijáveis  - da tua voz… Gostava de te poder beijar naquele momento, mas o sentido de oportunidade vale ouro…
Uma lágrima escapou-me do olho, ao acabar de ler a carta.
“Não chores”
O sorriso na cara não esmorece. A lágrima é de saudade e de felicidade. Espero que estejas bem e que os teus cabelos continuem únicos, após todos estes anos. O cheiro na almofada já desapareceu. Escondi novamente a carta, não nos livros, no meio do pó, mas algures numa gaveta, no meu coração.



PedRodrigues

2 comentários:

  1. Gostei muitíssimo!
    Cheio de intensidade, e texto tem um ritmo e um movimento fantástico, já não falando na intensidade/paixão que emana!
    Parabéns, continua
    Um beijinho
    Mená

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