sábado, 29 de janeiro de 2011

As coisas que nunca te farei...

A banda toca no palco a um ritmo frenético. Cá em baixo a multidão: dança, canta, empurra... Ela olha para mim com cara de quem deseja algo. Cada olhar é uma bala e o meu corpo não é uma armadura.
A multidão empurra, canta, dança e nós seguimos-lhe o ritmo. Não tenho como fugir aos disparos. Não tenho como me proteger. A cara dela não engana, mas é uma das minhas melhores amigas. O meu corpo não é armadura, mas a minha vontade parece de ferro. Tem "desejo possuir-te" escrito na cara. Evito o contacto visual a todo o custo. Fecho os olhos. Bebo o conteúdo do copo que tenho na mão a uma velocidade vertiginosa. O ritmo da banda, no palco, ajuda. Fujo dali. Renego o campo de batalha em troca de outro copo. Ela segue-me. Não sei que fazer...
Pago-lhe um fino como cavalheiro que sou. Ela agradece-me e dá-me novamente aquele olhar de quem está a ver para além de mim. De quem está a imaginar coisas.
Olho para o céu, avanço em direcção ao palco: ela segue-me. Agarra-se a mim e pede para tirar uma foto comigo. Desejo concedido - se fosse a foto o único desejo dela... Abraça-se a mim. O meu corpo reage de forma natural. O sangue nas veias começa a ferver. Afasto-me. O olhar dela muda de tom.

"Não gostas de mim?"

Se o problema fosse esse. Eu gosto demasiado de ti, esse é o problema. Quero levar-te para casa. Quero beijar-te lentamente e despir-te ao ritmo de cada beijo. Enrolar-me contigo nos lençóis e perder-me nas curvas do teu corpo. Se o problema fosse não gostar de ti. Como eu gosto de ti. Como tenho vontade de te beijar. Mas, infelizmente, és uma das minhas melhores amigas. Não quero que isto dure só uma noite, mas a verdade é que sou um desastre com as mulheres e tu sabes. Eventualmente irei magoar-te: é a minha natureza.
Desvio o olhar. Não abro a boca. Os nervos fazem-me sorrir.

"Não gostas de mim?"

Não insistas por favor. O problema não é esse. O problema é gostar tanto, que já te imagino despida no crepúsculo do meu quarto. Imagino como será o sabor do teu corpo, ou a intensidade dos teus gemidos; se gostas que te morda docemente o lóbulo da orelha ou te beije a nuca. O problema é querer engarrafar o suor da nossa luxúria para mais tarde recordar. Mas és uma das minhas melhores amigas, não quero estragar isso numa noite.
Fecho os olhos e sinto o ritmo da música. Ela encosta-se a mim e abraça-me. A temperatura sobe novamente.

"Não te atraio?"

Como podes dizer isso? Quando os teus seios me olham dessa forma tão eloquente. Quando as tuas pernas me convidam a ter sonhos eróticos. Quando me sorris dessa maneira que me deixa desarmado. Não digas disparates. Não inventes desculpas. Como gostava que não fosses quem és, neste momento.
A banda no palco acalma o ritmo. Preparam-se para tocar um slow. Ela agarra-se a mim, pronta para dançar com a cabeça encostada à minha. O momento do beijo aproxima-se. O cenário está montado. Ela investe de forma abrupta em direcção à minha boca. Os meus lábios respondem, não com um beijo, mas com um cliché.

"O problema não és tu, sou eu"




PedRodrigues

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