domingo, 23 de janeiro de 2011

Carta ao senhor Presidente, ou: o relato da hipocrisia geral

Senhor Presidente da República eu não gosto muito de si. Não o conheço, é um facto. Não tenho vontade de o conhecer, é uma verdade. Mas, neste paraíso à beira mar plantado a que chamo de país, há muita gente a chorar, muita gente a mamar, pouca gente a agir.
Lembro-me das minhas aulas de história. Já lá vão uns bons anos, mas lembro-me do sorriso nas caras das senhoras professoras sempre que falávamos da história de Portugal. Um dia fomos grandes. Os maiores do mundo, talvez. Expulsámos exércitos de dimensões e capacidades militares superiores às nossas, descobrimos a Índia e tratávamos a África por tu. Hoje esse povo é uma página de história. Hoje essa grande nação foi ao fundo.
Vejo os cavaleiros da desgraça. Todos pregam aos sete ventos os defeitos dos outros. Os seus defeitos, senhor presidente, não são excepção. Não sei se são todos seus. Alguns acredito que sim, pois todos somos humanos. Outros talvez sejam fruto da imaginação de pessoas que nada mais têm para fazer que meter o nariz na vida dos outros.
Hoje cuspimos no olho do Camões, damos as mãos ao Adamastor e rasgamos as páginas d'Os Lusíadas. Hoje a padeira de Aljubarrota é a meretriz ali da esquina. Hoje este país que tanto amo e que um dia lutou, sangrou e triunfou é uma nau condenada a afundar. Hoje esperamos por D. Sebastião, mesmo sabendo que ele não virá.
Todos somos parte do problema, senhor presidente. Onde está o Portugal dos livros de história? O povo que dominou o mundo? Esse sangue ainda me corre nas veias. Ainda corre nas veias de todos… Embora ninguém tenha vontade de o usar. Hoje vejo os meus amigos a passarem a batata quente. Vejo os meus amigos a dizerem mal. A meterem o bedelho em tudo, não fazendo nada melhor que criticar. Eu não sou excepção. Também digo mal, ou pelo menos, penso mal. Mas não ando a pregar o fim do mundo aos sete ventos. É bonito dizer que isto não está bom. Que a vida está difícil. Mas onde está o povo que venceu os espanhóis? Onde está o povo para quem o Zeca Afonso cantou? Onde está o povo que Camões descreveu? Esse povo ainda somos nós! Nós somos Portugal, devíamos agir como tal!
Senhor presidente, hoje o senhor voltou a ser eleito pelo país. Precisamos dum capitão com capacidade para nos levar a bom porto. Inspire-se nos livros de história - mas sacuda primeiro o pó. Hoje precisamos dum Eusébio na presidência, a marcar golos pelo país. Duma Amália a encantar o mundo e a mostrar-lhe o povo que lava no rio. Hoje precisamos que seja tudo isto. Tudo isto e muito mais. Precisamos que não seja só mais um a dizer mal, só mais um a mamar, só mais um a esperar pelo D. Sebastião. Se a esperança e a coragem lhe faltarem, senhor presidente, lembre-se: somos o mesmo povo que dobrou o Cabo das Tormentas pela primeira vez.
Seja Vasco da Gama que nós teremos todo o gosto em navegar ao seu lado.




PedRodrigues

2 comentários:

  1. ora nem +, eu tou contigo Pedrito (Álvares Cabral)

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  2. mas que bem, Pedro!!!!!
    És muito bom a palavrear! Gostei muito do texto!
    Continua a falar com eles...pode ser que te ouçam! I hope...
    beijito

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