segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Contos do Rio

Contos do Rio: Coimbra

Um dia perdi-me pelas ruas da cidade. Perdi-me neste labirinto de pessoas, casas, capas negras e tradição. Senti-lhe o cheiro. O suor dos comerciantes e a angústia dos estudantes. A luxúria dos primeiros romances e a nostalgia dos beijos no banco do jardim. O Sol também se perde nas ruas da cidade. É de negro que se veste. Não por tristeza, mas por tradição. Traz nela os sonhos e esperanças de milhares de jovens, tal como eu. Somos moldados pelos seus rituais e costumes. Eis o meu casulo. Nesta cidade entrei menino e irei sair homem.
Sentei-me para descansar. Vejo o ritmo frenético das pessoas. Impacientes, deslocando-se do ponto zero, para o ponto um, de movimentos coordenados, mas de espírito atormentado. A cidade não nos traz apenas alegrias... Olho para o céu. O dia está quente e o sol queima-me a cara. Adormeço de olhos abertos. Lembro-me do primeiro dia que meti pé nesta cidade. Detestei o meu primeiro dia, o meu primeiro mês, o meu primeiro ano... Mas de uma forma estranha, sempre me senti orgulhoso de cá estar. Talvez fosse o cheiro a tradição. A história a entranhar-se no corpo e a apoderar-se de mim. Esta cidade é uma mulher e como tal: encantou-me.
Acordo por instantes com o barulho das praxes. A palavra que se ouve:
- Caloiro!
Nunca uma palavra teve tanto impacto nas nossas vidas. É um misto de medo e alegria, difícil de explicar. As capas negras detêm o poder por estas bandas. Ditam a elite: os filhos da cidade. É a capa que nos muda. Meninos tornam-se homens e meninas tornam-se mulheres. Os dados estão lançados...
Levanto-me e lanço-me ao caminho. Continuo perdido. Vejo uma rapariga: cabelos loiros aos caracóis, de sorriso nos lábios... Lembro-me dela. Do meu primeiro amor de capa negra. Bate-me a saudade no peito. Sinto um aperto, um vazio. Também o meu coração se veste de preto. Não por tradição, mas por tristeza. O banco do jardim ainda lá está. As escadas da primeira conversa sincera – sem as manhices dos engates – também continuam no mesmo sítio. Lembro-me do primeiro beijo: numa Latada. A saudade aperta, mas a cidade abraça-me. Como uma segunda mãe, que só nos quer ver feliz. Continua a traçar o caminho para os meus amores. Sinto-me obrigado a amar as mulheres que ela me apresenta. Nunca se sabe qual terá a chave para este coração...
Chego ao pé do rio. Olho para cima e vejo uma torre com um relógio. As casas dispostas a toda a volta parecem degraus. Eis outra das coisas que me fascina nesta cidade: as metáforas que ela nos apresenta... As águas do rio são as lágrimas da cidade. Cada gota de água é uma lágrima de alegria que ela chorou e continua a chorar pelos seus filhos. Também eu anseio pela minha lágrima. Sonho com o rasgar do traje e da pele de menino. Sonho ficar despido, como homem. Hoje continuo perdido em ti - e continuo a perder-me por ti.
Obrigado Coimbra !



PedRodrigues

2 comentários:

  1. Tá bom, e se tu achas que " this is the one " força aí, já sabes que "nós" estamos por cá, tal como Coimbra te fascina nós tb queremos continuar a estar fascinados com o que tens escrito e vais escrever daqui para a frente.
    Abraço.

    ResponderEliminar