segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Filhos do Mondego: O Romance


Capítulo I

Detesto as manhãs. A luz na cara não me traz felicidade, especialmente nos dias de ressaca. Levanto-me e desligo o alarme do telemóvel. De olhos ainda adormecidos sigo em direcção à janela e levanto o estore. A manhã está amena, algo que não é natural visto estarmos em Outubro. Ao olhar a cidade pela janela, vem-me à memória o sonho que tive durante a noite. Não acredito em sinais, mas este sonho foi demasiado real.
No quarto ao lado dorme o Rui Pedro, - Juca como lhe chamamos devido ao nome da mãe, a minha querida amiga, Dona Júlia Carolina - o meu melhor amigo. O mais próximo que tenho de um irmão, visto ser filho único. Apetece-me deitar tudo para fora – não só o sonho, mas também o excesso de álcool que tenho no corpo – entro no quarto, mas não está ninguém. Melhor sorte para a próxima.
As horas passam e o sonho não me sai da cabeça: morro sozinho à beira de um abismo, enquanto ao longe uma rapariga assiste ao espectáculo. Reconheço-a. O seu nome é Maria João e temos uma história em comum, algures na vida real.
Quando o Juca chega a casa o meu primeiro instinto é levantar-me e contar-lhe tudo de uma vez. Mas, a preguiça e a ressaca prendem-me o corpo à cama. Eventualmente ele virá ter comigo e aí terei tempo suficiente para o meter a par de tudo.
 A minha intuição estava certa. Minutos após o bater da porta da entrada eis que ele entra no meu quarto “Então pá? Que estás a fazer?” pergunta ele. “Nada… Estou com uma ressaca horrível, nem me consigo mexer” respondo eu, com voz de quem passou o dia cara a cara com a sanita, a meter as tripas de fora. “Pá tive um sonho estranho esta noite…” continuo eu. “Sonhei com a Maria João…” Os olhos dele crescem de forma exponencial, após este meu desabafo. Não preciso de contar o resto do sonho. O resumo chega perfeitamente para uma gargalhada da parte dele, seguida de alguns momentos de gozação, terminando com as eventuais palavras sábias em tom mais sério sobre o assunto em questão. “Puto é assim: eu acho que ela é a mulher perfeita para ti. Sempre te disse isto e hei-de continuar a dizer” é verdade. Desde que lhe contei que tinha andado a trocar fluidos com ela, há mais de um ano, que ele me vem dizendo isto. Eu aceno com a cabeça em sinal de conformidade com tais palavras, sabendo porém, que a história não é tão simples como parece.
O Juca saiu do quarto. Foi-se equipar para o que penso ser um jantar seguido de um café e digestivos. Que levará eventualmente a umas horas de engate. Não estou em condições de o acompanhar. O meu corpo é meu inimigo neste momento e não me sinto capaz de vencer a batalha. Deixo-me ficar de cabeça na almofada a pensar no maldito sonho. Olho de relance para o computador. Vejo a luz laranja do Messenger a piscar. Sinal de que está alguém a falar para mim. Espero que seja uma rapariga, ou este enorme esforço de me levantar para chegar ao computador será em vão.
Valeu a pena o esforço. Uma das minhas amigas queria falar comigo. Está notoriamente interessada em mim e pelos teores das conversas sinto um ligeiro aumento da humidade relativa para os lados dela. Deste lado não são precisas grandes conversas para me deixar com a sensação de que as calças estão a ficar cada vez mais apertadas. Olá senhora libido. Ainda bem que apareceu. Acabo rapidamente a conversa, sem um final feliz, tragicamente. Mas, não sou grande fã do sexo interactivo. Chamem-me antiquado, mas prefiro a fricção entre os corpos. Digo-lhe que temos de marcar uma sessão para breve e despeço-me. Há mais marés que marinheiros.
Recebo uma mensagem no telemóvel. É o Juca. Pelos vistos a noite está agradável. Pergunto-lhe se viu a Maria João por lá. Responde-me que não. Decido então mandar uma mensagem à mulher dos meus sonhos.
Não sei que escrever na mensagem...
A última vez que estive com ela, havia problemas no paraíso. Que é o mesmo que dizer: problemas entre ela e o namorado. Usando a minha melhor versão de terapeuta de casais aprontei-me em ir dar uma volta pela praia com ela e conversar sobre o assunto. Incrível a facilidade com que conseguia comunicar com ela. Mais incrível ainda: como era possível o namorado a ter trocado por uma bimba qualquer e ela ainda pensar em voltar para ele? A conversa deu uma volta de 180 graus acabando por me calhar a batata quente. A MJ parecia excessivamente interessada no meu relacionamento da altura -uma rapariga com quem andava enrolado: morena e com um corpo que, de tão perfeito, era capaz de acabar com o celibato do Papa. Mas, que não passava de uma atracção física – o que me elevou o ego e me deixou a pensar que ela não me tinha esquecido na realidade e me faz cometer o erro de lhe perguntar, no final do passeio “Mas tu gostas realmente dele?” Ao que ela responde, de forma natural, embora evasiva ”Sim, gosto”. Adeus senhor ego, até um dia. Não era o final que estava à espera depois duma tarde tão perfeita.
Após momentos de luta com as palavras e de viagens insistentes ao baú das recordações, decido não enviar nenhuma mensagem. O silêncio vale ouro e o momento certo aparecerá certamente. Volto a enterrar a cabeça na almofada, esperando não sonhar com ela novamente. Desligo a luz e adormeço.

To be continued...


PedRodrigues

1 comentário:

  1. Muito bonito! Partilhei através de Goretty Santos.

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