quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Querido avô

A avó morreu. Lembro-me como se tivesse sido ontem. Foi o meu tio que nos deu a notícia. O tempo parou, mas a minha cabeça não: "A avó morreu. Impossível. Não acredito. Mas como? A avó morreu." De repente, senti o ar a ser sugado dos pulmões. Em segundos, o vazio. A casa estava gelada. Até as paredes sentiram a perda. Lembro-me da minha mãe aos gritos. A minha tia desfeita em lágrimas. Lembro-me de fugir para a praia - o mar sempre me trouxe a calma. Se pelo menos me trouxesse a avó de volta... Lembro-me do meu primo a meter-me a mão no ombro. "Vamos para casa. A avó morreu. Estamos todos tristes" disse-me ele. Lembro-me do funeral. Das olheiras de tanto chorar. Da última vez que o corpo dela - embora morto - passou pela casa que ela tanto adorava. Lembro-me das pessoas: dos abraços, beijos, "os meus sentimentos". Lembro-me de tudo. Lembro-me daquele homem: alto, cabelo branco, literalmente, como a neve, forte como um touro, - um homem do mar à moda antiga. Daqueles que já não se fazem - me caber na palma da mão. Encolheu. Escondeu-se num canto. Pela primeira vez vi esse homem a derramar uma lágrima. O mesmo homem que me viu nascer e crescer e tornar naquilo que sou hoje. O mesmo homem que todas as sextas-feiras espera o meu regresso a casa, como se fosse o ponto alto da semana. O meu melhor amigo - apesar de todas as brigas como cão e gato. Lembro-me de o ver de cabeça para baixo a olhar o chão. "A minha rica mulher" dizia ele. Tão pequeno que ele estava. Cabia-me na palma da mão. Hoje veste-se de preto e não admite mais nenhuma cor no seu corpo. Apesar dos sorrisos por detrás das rugas, eu sei que todas as noites o coração dele também se veste da mesma cor. "A minha rica mulher" suspira ele todas as noites, depois de rezar. Hoje, faça chuva, faça sol, lá vai ele de bicicleta ao cemitério visitar a campa da sua rica mulher. Hoje de todas as vezes que a visito: choro. Hoje ele diz-se capaz de mover montanhas - se pelo menos isso a trouxesse de volta. Hoje ele tem o mesmo tamanho que tinha antes dela partir. Mas hoje falta-lhe a força de outros tempos. Hoje ele tem as cartas e as novelas. Ontem tinha a sua rica mulher. Lembro-me tão bem do dia em que ela partiu... Nunca tive oportunidade de lhe dizer adeus. Hoje tenho-o a ele e ele tem-me a mim. Todas as sextas-feiras ele espera o meu regresso. Todos os dias ele conta os minutos para me ver. Também eu ganho o dia quando lhe aperto a mão à chegada. Mesmo quando ele me trata mal - não são poucas as vezes - tomo isso como um elogio. O amor também é isto: sentir para além das palavras. Hoje as rugas e as mãos ásperas são as chagas da vida. Hoje a avó já não está por cá. Lembro-me do dia em que partiu: estava sol e céu azul. Hoje o arco-íris é preto e branco, avó. Pergunta ao teu marido. Hoje tenho saudades tuas. Nunca mais é sexta-feira, querido avô!


PedRodrigues

10 comentários:

  1. E são eles o melhor que temos da vida. Como diz a avó farola, são nossos pais, duas vezes.

    Patrícia Ferreira

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  2. Muito Bom Puto;) Vim aqui parar pelo facebook do Pedro.. Por causa das fotos...Mas acredita que depois de ler o texto ele nao precisava de imagens;)Melhor elogio na posso fazer;)
    Marco MR

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  3. Miúdo, não, hoje vou tratar-te por HOMEM, depois do li. Só quem não sabe o que é perder alguém de quem se gosta MUITO, e as quais são uma referência para nós, não chora, como eu, a ler o que escreveste. Não consigo escrever mais.
    Abraço

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  4. Caro Pedro, fantástica forma de perpetuar um amor maior.
    Fantástica forma de recordar e viver essa vida que te marcou e que deu vida às vossas vidas.

    Sei o que é perder uma referência familiar. O meu pai é e será sempre o grande herói da minha vida. Também não pude despedir-me dele. Partiu subitamente. Guardo essa mágoa.

    Mas revisito-o todos os dias, quando olho para as estrelas. Sei que precisamente a essa hora, ele olha para mim.
    Será isto uma parvoeira? Não sei.
    Mas sei que faz-me bem conversar com ele.
    Faz-me bem o regresso diário a ele e ao que me deu.

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  5. Pedrinho... o meu coracao derreteu ao ler este blog! Nao tenho palavras para descrever aquilo que senti! Lindo... o amor e tudo! Nunca o deixes de o transmitir!!!!Beijinhos cheios de saudades.
    Liliana D.

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  6. Pedro, mesmo a sumir que o meu Portugues esta um bocado fraco... as tuas palavras cheias de amor e "Emotion" dos teus queridos avos e os meus queridos tios encheu-me com gratitude de o que e mais importante no mundo "FAMILIA"! As lagrimas correram e o meu coracao fica triste porque estou tao longe de familia que adorou e amo e que tenho muitas saudades! Nunca podemos esquecer os momentos que passamos com os "nossos"... Um grande beijo e abraco.
    Oliana xoxo

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  7. Simplesmente lindo!!
    Adoro xD
    Quando comecer a ler não apetecia parar...
    Continua com a escrita tens muito jeito

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  8. Tb me lembro desse dia entrei na tua casa nessa altura, ia a passar na rua. Tb eu ja passei por essa perda e sei bem o que custa dá te por feliz por teres ainda o teu avô porque o meu nunca o conheci(paterno)...Adoro aquilo que fazes, conseguir passar no papel o que se sente.... fantástico.....bjx Rita enxuga

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  9. Como sentimentos vividos por outros...têm tanto a ver conosco...
    Ao ler este brilhante texto...pergunto a mim mesmo...
    Qundo volta a bater a porta de casa com a chegada do meu pai?
    Quando volto a sintir do segundo andar a minha mãe a dar "raspanete" ao meu pai...
    Pois é...assim já não posso mais descer as escadas e ir lá meter água na fervura...
    Mas afinal onde estão vocês?
    Não vos sinto...
    mas persinto...

    Obrigado PedRodrigues

    (cnc)

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  10. Perdi o Avô em Agosto... E este texto encaixa em tanto :(
    Parabéns pelo seu trabalho!

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