segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Reflexões a quente

Nasci na altura errada. Vim atrasado e já não vi a Janis a cantar em Woodstock. O Jim não me deu o prazer de partilhar LSD comigo e as minhas portas da percepção continuam entreabertas. Nasci no tempo das ideias formatadas e da cultura às colheradas. São poucos os que me entendem quando falo em Andy Warhol e menos ainda aqueles que já ouviram os Velvet Underground. Vejo uma sociedade amorfa. Os livros na estante são planícies para os ácaros se reproduzirem e viverem felizes para sempre - quem agradece são as traças, que ficam obesas às custas da nossa ignorância. Hoje a sociedade não tem opinião própria. Vive moldada pelo que vê na televisão. Alguém matou o espírito crítico, mas não vi ninguém ir preso, no noticiário das oito. Às vezes apetece-me sair à rua um bocado menos bem vestido, sou logo olhado de lado e marginalizado. Bonitos são aqueles que seguem as modas dos Morangos com Açúcar, ou dos jogadores de futebol. Aqueles que são fotocópias uns dos outros. Umas a cores, outras a preto e branco. Todos iguais e sem opinião ou estilo próprio. Que se sentem indignados "Um casaco igual ao meu, que chatice". Pois amigo: que chatice. Que chatice não ter nascido nos anos 50. De não me ter entregado às drogas só para poder meditar um pouco e entrar no Nirvana, nos anos 70. De não ter partilhado ideias com uma sociedade que, essa sim, tinha uma palavra a dizer. Onde em cada esquina havia um poeta ou um visionário, contando que na mesma esquina houvesse alguém a passar LSD. Não, não sou fã das drogas, muito pelo contrário. Quem me conhece sabe que nem lhes toco. Mas imagino essa sociedade de espíritos livres, essa explosão de cultura impulsionada em grande parte pelas drogas e gostava de lá estar. Gostava de ter tocado na saia da Marilyn Monroe - para não falar no resto. Que mulher... Hoje elas gostam deles com dinheiro na carteira e com ar na cabeça, não o contrário - isso não deve ter mudado muito. Mas acredito que naquela altura as caçadoras de fortunas fossem bem menos. Adorava ter amado nos anos 60. As mulheres nessa altura tinham outro glamour. "Once upon a time I love you was almost revolutionary" era a isto que me referia. Gostava de ter sido hippie por um dia e pregar a paz o amor e a falta de pudor. Hoje sou censurado por ser um ser sexual. Hoje tenho de conter as palavras que uso para não ferir susceptibilidades.
Nasci na altura errada. Adorava beber hoje um copo com o Jim, a Janis ou o Hendrix. Talvez me tivesse ajudado, que este texto está uma grande porcaria!





PedRodrigues




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