sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

As escadas

A garrafa de vinho sorria para mim - estranha a devoção que às vezes lhe tenho. No jantar lá em casa as gargalhadas ouviam-se na rua e as confissões nas casas dos vizinhos. As paredes ecoavam o falatório dos romances, ou aventuras pelo mundo das mulheres. Cada um ao seu jeito tinha a palavra. Ás vezes, as histórias de uns misturavam-se nas aventuras de outros. O vinho fluía as palavras, mas toldava o julgamento.
Podia alegar falta de sobriedade após o erro que tinha cometido na tarde anterior ao jantar. Infelizmente para mim, tinha sido avistado na baixa ás compras, quando supostamente deveria estar pela Figueira debaixo da saia da minha mãe. As notícias correm rápido por estas bandas e antes do primeiro gole já tinha sido alertado de que estava na lista negra da Ana.
O fim da garrafa de whisky ditou o final do jantar. De espírito leve e corpo dormente seguimos em direcção ao resto da noite.
Felizmente para mim, as rotações do meu cérebro aumentam após a ingestão de bebidas alcoólicas. Não conseguia parar de pensar no que iria dizer para tentar remediar o facto de ter mentido à rapariga por quem estava apaixonado.
Chegado ao convívio que havia nas Químicas nessa noite,  respirei fundo.

"Vou ao convívio de Farmácia"

O estrabismo dos olhares foi substituído por um certo tom de apreensão

"Não vás"

Mas eu tinha de ir

"Ela está chateada contigo, que vais fazer?"

Levar um estalo, enquanto me tento desculpar, quem sabe?

"Vou tentar a minha sorte"

Fiz a caminhada mais longa da minha vida: desde o sítio onde estava com os meus amigos, até ao sítio onde, no meio da multidão, vi os caracóis loiros que a distinguiam do mar negro em que estava mergulhada.
Peguei-a pela mão

"Vem comigo"

Soltou-se

"Não quero"

Insisti

"Dá-me dez minutos para me explicar. Depois disso, se não me quiseres ver mais, vou-me embora"

Desejo concedido.
Ela

"Leva-me a casa"

segurava-me a mão com medo que fugisse sem lhe dar explicações.

"Desculpa"

A minha boca lenta demais para a velocidade dos meus pensamentos.

"Se eu te disser que tenho medo, acreditas?"

Pobre bêbedo que não sabe o que diz. Um misto de raiva e surpresa no rosto dela.

"Medo de quê?"

A velocidade dos meus pensamentos não ajudava. O vento que me batia na cara não ajudava. A noite chuvosa não ajudava. Não conseguia responder.

"Chegámos... É aqui que vivo"

Continuava à espera duma resposta e eu não me lembrava das perguntas.

"Importas-te de te sentar ali, naquelas escadas, comigo?"

Esperei pelo sim, que ela me deu ao guiar-me pela mão até à escadaria em frente à casa dela. Sentámo-nos os dois, lado a lado,  aninhados um no outro de forma a proteger os nossos corpos do frio e da chuva que se faziam sentir. O calor humano ajudou o meu cérebro a encontrar o ritmo certo e a sincronizar-se com a minha boca.

"Tenho medo de te magoar"

Suspense no ar

"Acho que estou apaixonado por ti...Não consigo parar de pensar em ti - acho que isso até já começa a irritar os meus amigos, que já não podem ouvir o teu nome."

A cara dela espelhava as palavras. O sorriso que tanto amava deu sinais de vida.
A chuva começou a cair com maior intensidade, o que nos obrigou a juntar as capas de forma a proteger os nossos corpos dos gélidos pingos.

"Sabes? Tenho medo de errar… Tenho medo de não ser bom o suficiente para ti. Tão bom como tu mereces"

A mão dela apertou a minha. Abracei-a, mas não a beijei. Ela retribuiu o abraço, mas também não me beijou

"Nunca mais digas isso"

A conversa prolongou-se pela noite dentro. No meio da chuva, perdidos algures por Coimbra, ali era o nosso ninho: naquelas escadas, em frente à casa dela.



PedRodrigues






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