terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Ninguém é de ninguém

Aposto que nunca deste o primeiro passo, fizeste a primeira investida, ou deste o primeiro olhar. Aposto que se alguma vez o fizeste, te deparaste com uma queda vertiginosa de trinta andares. Aposto que não quiseste cair, mas deste o passo, às escuras, na mesma. A queda foi longa e o choque com a realidade terrível. Ainda hoje te lembras do instante em que o pé te escapou para o nada; ou das imagens que te passaram pela cabeça enquanto caías algures em lado nenhum. Os trapézios sem rede têm destas coisas. Alguém disse que te devias atirar de cabeça. Acabaste por te atirar de pés e ficaste sem pernas para continuar. Infelizmente para ti, os braços também se cansam.
Hoje pensas duas vezes antes de te atirar. Os olhos já não fecham e continuam alerta. A história é outra e os tapetes mágicos não são mágicos por acaso. A primeira investida não é tua. Nunca foi, nem devia ser. Às vezes tropeçamos na fogosidade das decisões. Deixamos o corpo à mercê das hormonas. O hipotálamo é o capitão dos maus costumes e o coração é o homem do lixo. No final da festa, quem limpa as nódoas da vergonha?
No dia depois de ontem, a realidade cai sobre as nossas cabeças. O amor volta a ser descartável, mas ninguém quer falar disso. Ninguém parece querer ver que, nos países desenvolvidos, as pessoas amam de ano a ano - isto se conseguirem ficar juntas tanto tempo. Os amores eternos são feitos para quem está no elevador, a subir para o trigésimo andar. No auge do declive a vertigem é grande. A queda é longa e dura. Lá em cima pensamos duas vezes: valerá a pena cair? Na realidade, o amor é o tal ramo de rosas vermelhas que são oferecidas de ano a ano. Nos intervalos fechamos os olhos e andamos às cegas a tropeçar uns nos outros. Ninguém é de ninguém.
Hoje encontro-me cá em cima, a olhar para o chão. A queda é enorme e eu sofro de vertigens. Talvez me atire de cabeça. O meu coração já se habituou a limpar a merda depois das festas.


PedRodrigues

1 comentário:

  1. O coração pode habituar-se a limpar a merda no fim, mas quantas vezes mais é possivel ter a capacidade de andar de festa em festa sem cair numa embriaguez constante? O pior e o melhor está sempre naquilo que as hormonas ditam: o melhor delas e o pior de nós.
    ***

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