domingo, 20 de março de 2011

Crónica com um final feliz

Sentado no peitoril da janela sentia a faca do ciúme apontada na minha direcção. No olhar dela morava a tristeza; a raiva era sua vizinha. Eu, por outro lado, encontrava-me perdido no corpo de outra mulher. Trocava sorrisos. Trocava carícias. E ela ali... Abandonada. Desculpa se tenho tanto amor para dar. Desculpa se ando de mãos dadas com a bigamia.

"Vou-me embora. Dói-me a cabeça" disse ela

Das curvas do corpo alheio o discernimento deu sinais de vida. Guardei os sorrisos e as carícias no bolso. Dei o beijo de despedida. Ela fugia pela calçada, mas eu sempre fui adepto de uma boa perseguição. Os cabelos lisos dela escapavam-me entre os dedos. O cheiro dela perdia-se no ar. Não me fujas, que eu não penso largar-te - largava primeiro a bigamia.

Eu

"Espera... Onde vais?"

Ela olhou para trás. Vi-lhe o decote. Perdi alguns segundos a imaginar onde levaria aquele declive vertiginoso. Qual camaleão, de olhos trocados, um para cada lado, reparei também na safadez do sorriso dela. Sabia que estava em vantagem. Pisou o ciúme. Pisou a minha virilidade. Naquele momento ela soube que eu estava nas mãos dela - não só nas mãos, nos seios, nas nádegas, na língua... Parou. Esbarrei contra o corpo dela. Tracei os meus braços pela cintura dela. Ela correspondeu. Traçou-me a nuca. E ali estávamos: entrelaçados um no outro. Olhei-lhe nos olhos. Ela nunca resistiu aos meus olhares. Eu nunca lhe resisti a ela. Do pico do calor da ligação simbiótica de nossos corpos nasceu um beijo.

"Vamos sair daqui..."

Ela seguiu-me como se eu fosse o timoneiro da felicidade. Eu tentei levá-la a bom porto - embora nos tenhamos perdido um par de vezes nos becos da cidade.
Parámos na praia algures entre as dunas. No céu a lua brilhava e iluminava os nossos corpos duma forma romântica - a fazer lembrar uma cena de um filme em que no final o rapaz fica com a rapariga. Os beijos perdiam-se no grãos de areia. Os grãos de areia perdiam-se nos nossos corpos. Despidos de pudor e de incertezas entregámo-nos um ao outro. Em plena harmonia com o mar, a areia, as estrelas e a lua os nossos corpos transpiravam o suor da lúxuria e os nossos corações bombeavam rios de amor. Gememos em sintonia

"Adoro-te"


PedRodrigues



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