domingo, 6 de março de 2011

Reflexões a quente

Ali na rua, a dias da Primavera, a brisa é tão gelada como nos primeiros dias de Inverno. As folhas nas árvores ainda lutam para não cair. As pessoas nos passeios, apressadas, escondem a garganta atrás do tecido dos casacos. Sigo na minha mão, abafando as palavras no tecido do meu casaco, desculpando-me com o frio.

"É assim a vida"

Se não fosse assim não tinha piada. Se fosse mais fácil não tinha piada, se fosse mais difícil eu pedia para ser mais fácil e acabava por perder a piada. As folhas nas árvores continuam a lutar contra a brisa, que devagar se transforma em vento. Em cada esquina vejo uma mulher a olhar-me. Sou comido pelos olhos. Não lhes consigo ver a alma, e a minha há muito que a vendi.
Ao passar a porta da entrada o contraste é claro. Os casacos estão guardados e os corpos despidos. Uma floresta de seios e pernas desnudas aparece do nada. O cheiro a desespero faz-se sentir. Aqui não há folhas. A luta é outra. A minha líbido arde-me nas extremidades do corpo a cada olhar na minha direcção. Os pavões de peito inchado perdem a noção do ridículo. Confundem a ingenuidade com beleza e sorriem de forma clara ao sentir o cheiro a desespero.

"Está mortinha"

O tédio também mata - pena a burrice não matar. Perco-me a imaginar que não há olhares na minha direcção. Perco-me a olhar o tecto e o chão. A contar copos vazios. Imagino isto e aquilo. Peço que venha rápido o Verão, estou farto de casacos. Estou farto de falar atrás do tecido. Quero que as folhas fiquem nas árvores e que os seios me encham os olhos. Quero ver as pernas queimadas do sol e as peles morenas a desfilar orgulhosas. Estou farto de ser olhado e não ser comido como o ícone sexual que sou. Estou farto de ter frio, enquanto sonho com o calor.


PedRodrigues

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