quarta-feira, 22 de junho de 2011

Dez passos nos sapatos certos


Há dias em que me apetece ficar trancada em casa. Não tenho vontade de ver ninguém: nem as minhas amigas; nem os professores; nem o senhor João do bar – que me dá sempre um sorriso e me cumprimenta pelo nome – nem os borrachos que se passeiam pela calçada, como se a calçada fosse montra para alguma coisa; nada. Não tenho vontade de fazer nada. Apetece-me ficar em casa, deitada na cama a comer porcarias, a ler um livro lamechas com um título ridículo (Como ser feliz em dez passos), ou a mudar de canal de forma compulsiva como se esperasse encontrar a resposta, ou talvez os dez passos que faltam para ser feliz.
Pergunto
“Mas alguém sabe como ser feliz em dez passos?”
Na minha cabeça mil respostas: todas elas incompletas, erradas, ou simplesmente
“Devo ter tropeçado a meio do caminho”
Pensamentos absurdos, como este que agora me passa pela cabeça de mudar a cor dos meus cabelos. Eu que gosto tanto dos meus cabelos loiros. Tudo por causa de mais um traste. Um sacana que aposto que anda a trair a namorada. Ou que então deve ter a mania que é sultão: com um harém de mulheres, uma para cada dia da semana. Esse crápula que, como tantos outros, me ignorou na calçada que liga a minha casa ao café da praça. (Ou outros tantos que me ignoraram noutros momentos, noutras calçadas.) Uma tentação de homem: alto e bem aparentado – não são os piores todos assim? Mais um que me traiu com o olhar. Trocando os meus belos cabelos loiros, por uma qualquer de cabelos castanhos. Uma flausina que, aposto estes brincos que trago nas orelhas – herança de outro cabrão que me trocou – anda-se a fazer a meio mundo. Uma oferecida qualquer que me roubou o olhar - eu que precisava tanto daquele olhar – e o protagonismo. Cortesia dos seus saltos de agulha, pernas ao léu e de um vestido que podia, muito bem, fazer parte do guarda-roupa de um filme. O batom dela também não me facilitou a vida, e os brincos… Aposto que os dela também foram herança de um cabrão qualquer – pelo menos o dela tinha bom gosto. Como podia eu competir com aquilo? Eu que me visto de qualquer maneira para ir ao café, ou até mesmo à faculdade. Umas calças de ganga, um top, nada de extravagante, nem na maquilhagem exagero: um batom discreto e pouco mais. Naquele dia até trazia os meus sapatos azuis, muito giros. Nem nisso aquele desgraçado reparou. Lançou o olhar para as pernas da outra e só parou quando se perdeu a imaginar um filme pornográfico naquela cabeça distorcida. Homens…
“Como ser feliz em dez passos…”
Este título na minha cabeça. Na televisão um anúncio de um perfume novo para mulher. Uma rapariga lindíssima com uns sapatos de salto alto vermelhos, agarrada a um modelo de capa de revista. Um homem daqueles que todas queríamos, nem que fosse por umas horas. Não para umas horas de sexo escaldante – embora não descartasse essa ideia. Para algo melhor: para passear pela calçada. Para ser objecto da inveja de todas as outras flausinas que se passeiam por lá a roubar olhares.
Neste momento sou eu que tenho inveja da rapariga do anúncio. Já não quero mudar a cor do meu cabelo, agora quero uns sapatos de salto alto vermelhos e um vestido preto. Acho que tenho ali um no armário. Só me faltam os sapatos. Só falta a vontade de me levantar, vestir o meu vestido preto e comprar os sapatos. Depois sim, posso ir desfilar para a calçada a roubar olhares a mim mesma, quando me passeio com os meus sapatos azuis giríssimos. Só falta parar de me lamentar.
Como ser feliz em dez passos?
Calçando uns sapatos de salto alto vermelhos e indo para a calçada passear: o meu vestido preto; o meu batom novo; o meu perfume novo; os brincos que foram presente de um cabrão qualquer; o relógio da moda que andava perdido pelo quarto; a minha mala da Chanel, que encontrei enquanto procurava o vestido; os óculos de sol da Prada que nunca saíram da caixa; o anel que é herança de família e que só costumo usar em ocasiões especiais; os meus belos e longos cabelos loiros. É óptimo mudar de jogo, de vez em quando. Dez passos certeiros a caminho da felicidade: entre os saltos e a calçada só piso corações.

PedRodrigues

1 comentário:

  1. Eu que tenho cabelos loiros e longos e já pensei em cortá-lo curto numa fase semidepressiva, não podia ter-me identificado mais.
    Obrigada por me proporcionares grandes momentos de leitura. E parabéns.

    PS: entendes as mulheres como nenhum outro homem

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