segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Ana Cláudia

Encontrei uma carta tua um dia destes. Andava perdida no meio dos livros e do pó. Devo tê-la escondido quando terminámos a nossa relação, naquele banco de jardim.
Trago esse dia na memória todos os dias - nunca o consegui esconder dentro de um livro, no meio do pó. Estava sol e eu tinha cortado o cabelo no fim de semana. Eu trazia vestida uma camisola verde  – a cor da esperança – e tu uma camisola cor de rosa. Lembro-me de onde te fui buscar e onde te levei. Lembro-me do último adeus
“Não chores”
E que vontade eu tinha de chorar contigo. Que vontade tinha de não ter dito adeus. Mas, infelizmente, disse. A vida é mesmo assim. Não fiques triste, não chores… A vida é mesmo assim
“Sinto a tua falta”
Também eu sinto a tua. A almofada já não tem o teu cheiro. As cartas que escreveste, ou os cabelos que deixaste espalhados pelo quarto não me preenchem o vazio que trago no peito.
“Adoro-te”
Sinto falta de te dizer isto, como sinto a falta do teu sorriso, ou da tua mania de me corrigir – mesmo sabendo que estava certo, só para me irritar.
“Gosto de ti porque…”
Como eu sorri ao ler isto. Apesar do tempo que já passou, das mulheres com quem estive depois de ti, dos amores e desamores, sorri. Aquele mesmo sorriso que fazia quando me sussurravas ao ouvido
“Pedro”
E eu não controlava os meus músculos faciais. Era uma marioneta da tua voz e das tuas palavras. Voltaste a usar a tua magia. Talvez tenha sido o recordar da tua caligrafia - as letras redondinhas e bem desenhadas – que me fez sorrir. Não sei explicar. Gostava de saber, mas não consigo, não sou capaz.
Cada palavra me fez voltar atrás no tempo até ao dia em que nos encontrámos pela primeira vez, num convívio da minha faculdade. Os teus caracóis loiros sempre me fascinaram. Eram a tua imagem de marca e sempre me ajudaram a encontrar-te no meio das multidões. Estavas de costas para mim. Reconheci-te pelos caracóis e aproximei-me.
Roubaste-me o boné que trazia na cabeça
“É de noite, não precisas de boné”
Os teus olhos brilhavam e riam para mim. Se soubesses o tempo que passei a vestir-me. A vestir uma camisola e outra; a meter o boné, a tirar o boné; a ajeitar o cabelo, a despentear o cabelo. Nada me parecia bem.
Seguraste o meu boné a noite inteira sem nunca o largar. Sem saberes - talvez sabendo - seguraste também o meu coração.
Ao final da noite entregaste-me o boné
“Gostei muito de te conhecer”
Também eu gostei de te conhecer. Gostei dos teus cabelos, dos teus olhos, dos teus lábios – carnudos e tão beijáveis  - da tua voz… Gostava de te poder beijar naquele momento, mas o sentido de oportunidade vale ouro…
Uma lágrima escapou-me do olho, ao acabar de ler a carta.
“Não chores”
O sorriso na cara não esmorece. A lágrima é de saudade e de felicidade. Espero que estejas bem e que os teus cabelos continuem únicos, após todos estes anos. O cheiro na almofada já desapareceu. Escondi novamente a carta, não nos livros, no meio do pó, mas algures numa gaveta, no meu coração.



PedRodrigues

Reflexões a quente

Nasci na altura errada. Vim atrasado e já não vi a Janis a cantar em Woodstock. O Jim não me deu o prazer de partilhar LSD comigo e as minhas portas da percepção continuam entreabertas. Nasci no tempo das ideias formatadas e da cultura às colheradas. São poucos os que me entendem quando falo em Andy Warhol e menos ainda aqueles que já ouviram os Velvet Underground. Vejo uma sociedade amorfa. Os livros na estante são planícies para os ácaros se reproduzirem e viverem felizes para sempre - quem agradece são as traças, que ficam obesas às custas da nossa ignorância. Hoje a sociedade não tem opinião própria. Vive moldada pelo que vê na televisão. Alguém matou o espírito crítico, mas não vi ninguém ir preso, no noticiário das oito. Às vezes apetece-me sair à rua um bocado menos bem vestido, sou logo olhado de lado e marginalizado. Bonitos são aqueles que seguem as modas dos Morangos com Açúcar, ou dos jogadores de futebol. Aqueles que são fotocópias uns dos outros. Umas a cores, outras a preto e branco. Todos iguais e sem opinião ou estilo próprio. Que se sentem indignados "Um casaco igual ao meu, que chatice". Pois amigo: que chatice. Que chatice não ter nascido nos anos 50. De não me ter entregado às drogas só para poder meditar um pouco e entrar no Nirvana, nos anos 70. De não ter partilhado ideias com uma sociedade que, essa sim, tinha uma palavra a dizer. Onde em cada esquina havia um poeta ou um visionário, contando que na mesma esquina houvesse alguém a passar LSD. Não, não sou fã das drogas, muito pelo contrário. Quem me conhece sabe que nem lhes toco. Mas imagino essa sociedade de espíritos livres, essa explosão de cultura impulsionada em grande parte pelas drogas e gostava de lá estar. Gostava de ter tocado na saia da Marilyn Monroe - para não falar no resto. Que mulher... Hoje elas gostam deles com dinheiro na carteira e com ar na cabeça, não o contrário - isso não deve ter mudado muito. Mas acredito que naquela altura as caçadoras de fortunas fossem bem menos. Adorava ter amado nos anos 60. As mulheres nessa altura tinham outro glamour. "Once upon a time I love you was almost revolutionary" era a isto que me referia. Gostava de ter sido hippie por um dia e pregar a paz o amor e a falta de pudor. Hoje sou censurado por ser um ser sexual. Hoje tenho de conter as palavras que uso para não ferir susceptibilidades.
Nasci na altura errada. Adorava beber hoje um copo com o Jim, a Janis ou o Hendrix. Talvez me tivesse ajudado, que este texto está uma grande porcaria!





PedRodrigues




sábado, 29 de janeiro de 2011

As coisas que nunca te farei...

A banda toca no palco a um ritmo frenético. Cá em baixo a multidão: dança, canta, empurra... Ela olha para mim com cara de quem deseja algo. Cada olhar é uma bala e o meu corpo não é uma armadura.
A multidão empurra, canta, dança e nós seguimos-lhe o ritmo. Não tenho como fugir aos disparos. Não tenho como me proteger. A cara dela não engana, mas é uma das minhas melhores amigas. O meu corpo não é armadura, mas a minha vontade parece de ferro. Tem "desejo possuir-te" escrito na cara. Evito o contacto visual a todo o custo. Fecho os olhos. Bebo o conteúdo do copo que tenho na mão a uma velocidade vertiginosa. O ritmo da banda, no palco, ajuda. Fujo dali. Renego o campo de batalha em troca de outro copo. Ela segue-me. Não sei que fazer...
Pago-lhe um fino como cavalheiro que sou. Ela agradece-me e dá-me novamente aquele olhar de quem está a ver para além de mim. De quem está a imaginar coisas.
Olho para o céu, avanço em direcção ao palco: ela segue-me. Agarra-se a mim e pede para tirar uma foto comigo. Desejo concedido - se fosse a foto o único desejo dela... Abraça-se a mim. O meu corpo reage de forma natural. O sangue nas veias começa a ferver. Afasto-me. O olhar dela muda de tom.

"Não gostas de mim?"

Se o problema fosse esse. Eu gosto demasiado de ti, esse é o problema. Quero levar-te para casa. Quero beijar-te lentamente e despir-te ao ritmo de cada beijo. Enrolar-me contigo nos lençóis e perder-me nas curvas do teu corpo. Se o problema fosse não gostar de ti. Como eu gosto de ti. Como tenho vontade de te beijar. Mas, infelizmente, és uma das minhas melhores amigas. Não quero que isto dure só uma noite, mas a verdade é que sou um desastre com as mulheres e tu sabes. Eventualmente irei magoar-te: é a minha natureza.
Desvio o olhar. Não abro a boca. Os nervos fazem-me sorrir.

"Não gostas de mim?"

Não insistas por favor. O problema não é esse. O problema é gostar tanto, que já te imagino despida no crepúsculo do meu quarto. Imagino como será o sabor do teu corpo, ou a intensidade dos teus gemidos; se gostas que te morda docemente o lóbulo da orelha ou te beije a nuca. O problema é querer engarrafar o suor da nossa luxúria para mais tarde recordar. Mas és uma das minhas melhores amigas, não quero estragar isso numa noite.
Fecho os olhos e sinto o ritmo da música. Ela encosta-se a mim e abraça-me. A temperatura sobe novamente.

"Não te atraio?"

Como podes dizer isso? Quando os teus seios me olham dessa forma tão eloquente. Quando as tuas pernas me convidam a ter sonhos eróticos. Quando me sorris dessa maneira que me deixa desarmado. Não digas disparates. Não inventes desculpas. Como gostava que não fosses quem és, neste momento.
A banda no palco acalma o ritmo. Preparam-se para tocar um slow. Ela agarra-se a mim, pronta para dançar com a cabeça encostada à minha. O momento do beijo aproxima-se. O cenário está montado. Ela investe de forma abrupta em direcção à minha boca. Os meus lábios respondem, não com um beijo, mas com um cliché.

"O problema não és tu, sou eu"




PedRodrigues

Poema número trinta, ou: o amor é o melhor remédio, mas fico-me pelo genérico

Sexo sem significado



Falha o nome, falta a chama
Só te vejo no leito da cama
Gosto de ti, apenas por instantes…
Somos pouco mais que amantes
Do sexo sem significado
Que gera um frenesim
Apenas por um bom bocado.
Mas pedes mais de mim,
Não te posso dar o que não tenho!
Não fiques agora assim
Que eu amo-te quando me venho…
Às vezes também eu me sinto
Um pouco deslocado
E procuro por ti
Para mais sexo sem significado!


PedRodrigues

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Querido avô

A avó morreu. Lembro-me como se tivesse sido ontem. Foi o meu tio que nos deu a notícia. O tempo parou, mas a minha cabeça não: "A avó morreu. Impossível. Não acredito. Mas como? A avó morreu." De repente, senti o ar a ser sugado dos pulmões. Em segundos, o vazio. A casa estava gelada. Até as paredes sentiram a perda. Lembro-me da minha mãe aos gritos. A minha tia desfeita em lágrimas. Lembro-me de fugir para a praia - o mar sempre me trouxe a calma. Se pelo menos me trouxesse a avó de volta... Lembro-me do meu primo a meter-me a mão no ombro. "Vamos para casa. A avó morreu. Estamos todos tristes" disse-me ele. Lembro-me do funeral. Das olheiras de tanto chorar. Da última vez que o corpo dela - embora morto - passou pela casa que ela tanto adorava. Lembro-me das pessoas: dos abraços, beijos, "os meus sentimentos". Lembro-me de tudo. Lembro-me daquele homem: alto, cabelo branco, literalmente, como a neve, forte como um touro, - um homem do mar à moda antiga. Daqueles que já não se fazem - me caber na palma da mão. Encolheu. Escondeu-se num canto. Pela primeira vez vi esse homem a derramar uma lágrima. O mesmo homem que me viu nascer e crescer e tornar naquilo que sou hoje. O mesmo homem que todas as sextas-feiras espera o meu regresso a casa, como se fosse o ponto alto da semana. O meu melhor amigo - apesar de todas as brigas como cão e gato. Lembro-me de o ver de cabeça para baixo a olhar o chão. "A minha rica mulher" dizia ele. Tão pequeno que ele estava. Cabia-me na palma da mão. Hoje veste-se de preto e não admite mais nenhuma cor no seu corpo. Apesar dos sorrisos por detrás das rugas, eu sei que todas as noites o coração dele também se veste da mesma cor. "A minha rica mulher" suspira ele todas as noites, depois de rezar. Hoje, faça chuva, faça sol, lá vai ele de bicicleta ao cemitério visitar a campa da sua rica mulher. Hoje de todas as vezes que a visito: choro. Hoje ele diz-se capaz de mover montanhas - se pelo menos isso a trouxesse de volta. Hoje ele tem o mesmo tamanho que tinha antes dela partir. Mas hoje falta-lhe a força de outros tempos. Hoje ele tem as cartas e as novelas. Ontem tinha a sua rica mulher. Lembro-me tão bem do dia em que ela partiu... Nunca tive oportunidade de lhe dizer adeus. Hoje tenho-o a ele e ele tem-me a mim. Todas as sextas-feiras ele espera o meu regresso. Todos os dias ele conta os minutos para me ver. Também eu ganho o dia quando lhe aperto a mão à chegada. Mesmo quando ele me trata mal - não são poucas as vezes - tomo isso como um elogio. O amor também é isto: sentir para além das palavras. Hoje as rugas e as mãos ásperas são as chagas da vida. Hoje a avó já não está por cá. Lembro-me do dia em que partiu: estava sol e céu azul. Hoje o arco-íris é preto e branco, avó. Pergunta ao teu marido. Hoje tenho saudades tuas. Nunca mais é sexta-feira, querido avô!


PedRodrigues

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Excertos - Filhos do Mondego: O Romance

"Ligo o portátil e o Messenger. Vejo que a Isa está online. A Isa tem sido a minha melhor confidente durante anos. Conto-lhe tudo o que se passa na minha vida, especialmente os amores e desamores. Conto com a sabedoria dela para me ajudar. Uma visão feminina das coisas dá outro peso às decisões. Também ela me busca por conselhos, que eu espero serem úteis - embora ache que não sou exemplo para ninguém, olho em redor e vejo milhentas pessoas bem mais fodidas que eu a falar disto e daquilo como se fossem donos da razão. Se eles podem ser conselheiros das massas, eu também tenho o direito de aconselhar uma amiga – e que a ajudem nesta batalha que ela trava com o sexo forte. Tem uma ferida no coração que não consegue sarar. E embora seja o exemplo perfeito de uma mulher com potencial de hastear as bandeiras de 80% da população masculina sexualmente activa deste paraíso à beira mar plantado, essa ferida compromete todo esse potencial. Tornando-a cínica para o sexo oposto. Acreditando no amor, mas de faca numa mão e o coração na outra."

To be continued...

PedRodrigues

Letras de Músicas: Lover's Stress ( dedicada ao meu amigo Luís "Croks" Pereira )

Lover’s Stress
                                                                              

I was looking to the sky,
Figuring out a way to fly.
My dreams were so far away
In certain point I’d rather stay.

There was fire burning in my heart
Two days ago, my head was a mess
Maybe I’m dumb, maybe I’m smart
Oh baby, it’s lover’s stress


Chorus:

I can climb a mountain, swim through the sea
If the wind whispers your name
You’ll always be with me
Even though you’re far away, I can’t love you less
You keep playing with my heart
Oh yeah baby, it’s lover’s stress.



I don’t know you, you don’t know me
But your heart is the place where I wanna be
Give me a look, I’ll return as a kiss
You’ll smile to me, I’ll sleep in peace…


Chorus



When you look everywhere, but just not to me
I feel like I’m trapped, come on set me free
I fell like I’m lost in the middle of the town
Fuck, it’s like I’m in a nervous breakdown


Chorus



Escrito por : PedRodrigues
Composto por : Luís Croks
                                                                                                                  
                                                                                                                       @ Inverno de 2006

domingo, 23 de janeiro de 2011

Carta ao senhor Presidente, ou: o relato da hipocrisia geral

Senhor Presidente da República eu não gosto muito de si. Não o conheço, é um facto. Não tenho vontade de o conhecer, é uma verdade. Mas, neste paraíso à beira mar plantado a que chamo de país, há muita gente a chorar, muita gente a mamar, pouca gente a agir.
Lembro-me das minhas aulas de história. Já lá vão uns bons anos, mas lembro-me do sorriso nas caras das senhoras professoras sempre que falávamos da história de Portugal. Um dia fomos grandes. Os maiores do mundo, talvez. Expulsámos exércitos de dimensões e capacidades militares superiores às nossas, descobrimos a Índia e tratávamos a África por tu. Hoje esse povo é uma página de história. Hoje essa grande nação foi ao fundo.
Vejo os cavaleiros da desgraça. Todos pregam aos sete ventos os defeitos dos outros. Os seus defeitos, senhor presidente, não são excepção. Não sei se são todos seus. Alguns acredito que sim, pois todos somos humanos. Outros talvez sejam fruto da imaginação de pessoas que nada mais têm para fazer que meter o nariz na vida dos outros.
Hoje cuspimos no olho do Camões, damos as mãos ao Adamastor e rasgamos as páginas d'Os Lusíadas. Hoje a padeira de Aljubarrota é a meretriz ali da esquina. Hoje este país que tanto amo e que um dia lutou, sangrou e triunfou é uma nau condenada a afundar. Hoje esperamos por D. Sebastião, mesmo sabendo que ele não virá.
Todos somos parte do problema, senhor presidente. Onde está o Portugal dos livros de história? O povo que dominou o mundo? Esse sangue ainda me corre nas veias. Ainda corre nas veias de todos… Embora ninguém tenha vontade de o usar. Hoje vejo os meus amigos a passarem a batata quente. Vejo os meus amigos a dizerem mal. A meterem o bedelho em tudo, não fazendo nada melhor que criticar. Eu não sou excepção. Também digo mal, ou pelo menos, penso mal. Mas não ando a pregar o fim do mundo aos sete ventos. É bonito dizer que isto não está bom. Que a vida está difícil. Mas onde está o povo que venceu os espanhóis? Onde está o povo para quem o Zeca Afonso cantou? Onde está o povo que Camões descreveu? Esse povo ainda somos nós! Nós somos Portugal, devíamos agir como tal!
Senhor presidente, hoje o senhor voltou a ser eleito pelo país. Precisamos dum capitão com capacidade para nos levar a bom porto. Inspire-se nos livros de história - mas sacuda primeiro o pó. Hoje precisamos dum Eusébio na presidência, a marcar golos pelo país. Duma Amália a encantar o mundo e a mostrar-lhe o povo que lava no rio. Hoje precisamos que seja tudo isto. Tudo isto e muito mais. Precisamos que não seja só mais um a dizer mal, só mais um a mamar, só mais um a esperar pelo D. Sebastião. Se a esperança e a coragem lhe faltarem, senhor presidente, lembre-se: somos o mesmo povo que dobrou o Cabo das Tormentas pela primeira vez.
Seja Vasco da Gama que nós teremos todo o gosto em navegar ao seu lado.




PedRodrigues

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

O Amor acontece na altura errada, ou: talvez a última carta de amor.

Sei que não nos falamos há ao que parece uma eternidade, principalmente porque sou uma pessoa difícil. Não quero que me interpretes mal, longe disso. Tenho tendência a não cometer o mesmo erro duas vezes. Não erres no julgamento. Eu certamente não o fiz e 'once upon a time' eu e tu fomos felizes (talvez não ao mesmo tempo, não sei). O que me sobra em jeito com as palavras, falta-me em jeito com as mulheres de quem gosto. A minha vida é a prova disso. Posso morrer a qualquer momento e este mundo é feito desses dramas, daí te estar a escrever. Há poucas mulheres que me marquem. A minha mãe é a única que me marcou para a vida, até agora. Tu, a Ana e ela são as únicas que hão-de ter sempre espaço no meu coração. Mesmo no final, quando deixar de bater e me fizerem a autópsia o vosso nome estará lá. A minha mãe por me ter dado à luz (e por ser minha mãe). A Ana por ter sido a minha primeira namorada, no verdadeiro sentido da palavra. Tu... Tu és o maior erro da minha vida. Que se foda a farmácia e a engenharia civil, os anos de enganos... Tu foste o maior erro que cometi. Não te consegui ter por medo, ou não saber amar. Não nasci formatado dessa maneira. Nunca amei. Achei-me sempre melhor que essa merda. Mas não sou. Não quero que me leves a mal. Que leias isto com duplo significado. Só te peço: lê tudo o que escrevi. Já provei muito desta vida... Não tudo, mas quase. De qualquer das formas, sinto falta, todos os dias, de algo. Detesto errar. Tu sabes. Detesto ser como sou. Tu sabes. Detesto não me sentir o melhor. Mas sinto. Há coisas na vida que não encaixam. Isto não é Tetris. Desculpa-me, que eu não consigo. Não sou melhor que ninguém. Lamento.


PedRodrigues

Reflexões a quente

Quero que a minha vida seja um livro aberto. Hoje a noite foi tumultuosa e cheia de dilemas do coração. Não sou uma pessoa fácil de amar. Mas, na verdade, não deixo de ser amado. Nasci humilde, mas não hei-de morrer hipócrita. Falsas modéstias não colam. Sou um desastre com as mulheres, não sei falar de amor, mas de tantas vezes que errei, em alguma coisa hei-de acertar. As mulheres na rua não dizem "Ui que gato" insistentemente, mas já fui para a cama com muitas, apenas com um olhar. Não se confundam, o olhar não era meu. Detesto quem prega a amizade e manda facadas nas costas. Os amigos são amigos e protegem-se. Está escrito algures no corpo de cada homem. Não traio os meus amigos, mas levo facadas deles. Não caio no campo de batalha e sigo com cara de quem está bem. Não estou! A minha vida não é fácil. Não me dêem como dado adquirido. Sofro e mostro um sorriso. Só isso. Já fui fã do Prozac, hoje a minha droga é outra. Talvez morra sem ser amado por uma mulher, mas... Quem se importa? Eu importo-me. Os meus amigos não me dão tudo...Ou então, não são meus amigos - embora tenha amigos de verdade. A esses: "obrigado!" Dou o meu corpo às balas, embora só veja pistolas. As mulheres são putas e não sabem amar. Já gostei muito e abdiquei dessa pessoa por amor. Talvez não tenha amado. O lado mais simples do quadrado é esse mesmo: nenhum. Fui à lua e vim. Não fui rei. Não quero ser rei. Adorava ser feliz, sem  Prozac. Adorei dar um soco, senti-me livre. Gostava de ter dado mais. Maldito vinho e malditos comprimidos. Fui travado por eles. Vejo mulheres interessantes, capazes de me amar. Adorava ir à lua. Mas a puta da terra é tão atractiva. É esse o problema das putas: todos as queremos foder. Adoro dizer asneiras e sentir-me livre. Adorava amar a puta que não há em mim. Amo cada mulher como se não fosse uma puta. Quero dar beijos na boca e dizer "I love you" como no cinema. Hoje eu amo-te, J. Ontem não te amei. Hoje eu amo-te, AnaCl. Ontem não te amei. Desculpa-me, V. O amor não é coisa de gente pequena. Hoje amo todas e não amei ninguém. Hoje, um soco foi o tirar da faca no coração. Quero ser palavras: substantivos, predicados e advérbios de modo. Hoje eu vi-te, J. Hoje doeu. A vida é curta, como um soco. A vida é simples como um jogo. Hoje amei e não lutei. Mentira. Nasci lutador, não amante.
"Que se foda o destino", obrigado primo.
"Que se fodam as mulheres", obrigado mulheres
"Que se foda o amor", foda-se que mentira!
Nasci puta e não sei dar beijos na boca. Obrigado por me foderes, volta mais tarde.
O relógio bate as seis e eu continuo a amar. Não nasci uma boa puta, pelos vistos.


PedRodrigues

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Filhos do Mondego: O Romance


Capítulo I

Detesto as manhãs. A luz na cara não me traz felicidade, especialmente nos dias de ressaca. Levanto-me e desligo o alarme do telemóvel. De olhos ainda adormecidos sigo em direcção à janela e levanto o estore. A manhã está amena, algo que não é natural visto estarmos em Outubro. Ao olhar a cidade pela janela, vem-me à memória o sonho que tive durante a noite. Não acredito em sinais, mas este sonho foi demasiado real.
No quarto ao lado dorme o Rui Pedro, - Juca como lhe chamamos devido ao nome da mãe, a minha querida amiga, Dona Júlia Carolina - o meu melhor amigo. O mais próximo que tenho de um irmão, visto ser filho único. Apetece-me deitar tudo para fora – não só o sonho, mas também o excesso de álcool que tenho no corpo – entro no quarto, mas não está ninguém. Melhor sorte para a próxima.
As horas passam e o sonho não me sai da cabeça: morro sozinho à beira de um abismo, enquanto ao longe uma rapariga assiste ao espectáculo. Reconheço-a. O seu nome é Maria João e temos uma história em comum, algures na vida real.
Quando o Juca chega a casa o meu primeiro instinto é levantar-me e contar-lhe tudo de uma vez. Mas, a preguiça e a ressaca prendem-me o corpo à cama. Eventualmente ele virá ter comigo e aí terei tempo suficiente para o meter a par de tudo.
 A minha intuição estava certa. Minutos após o bater da porta da entrada eis que ele entra no meu quarto “Então pá? Que estás a fazer?” pergunta ele. “Nada… Estou com uma ressaca horrível, nem me consigo mexer” respondo eu, com voz de quem passou o dia cara a cara com a sanita, a meter as tripas de fora. “Pá tive um sonho estranho esta noite…” continuo eu. “Sonhei com a Maria João…” Os olhos dele crescem de forma exponencial, após este meu desabafo. Não preciso de contar o resto do sonho. O resumo chega perfeitamente para uma gargalhada da parte dele, seguida de alguns momentos de gozação, terminando com as eventuais palavras sábias em tom mais sério sobre o assunto em questão. “Puto é assim: eu acho que ela é a mulher perfeita para ti. Sempre te disse isto e hei-de continuar a dizer” é verdade. Desde que lhe contei que tinha andado a trocar fluidos com ela, há mais de um ano, que ele me vem dizendo isto. Eu aceno com a cabeça em sinal de conformidade com tais palavras, sabendo porém, que a história não é tão simples como parece.
O Juca saiu do quarto. Foi-se equipar para o que penso ser um jantar seguido de um café e digestivos. Que levará eventualmente a umas horas de engate. Não estou em condições de o acompanhar. O meu corpo é meu inimigo neste momento e não me sinto capaz de vencer a batalha. Deixo-me ficar de cabeça na almofada a pensar no maldito sonho. Olho de relance para o computador. Vejo a luz laranja do Messenger a piscar. Sinal de que está alguém a falar para mim. Espero que seja uma rapariga, ou este enorme esforço de me levantar para chegar ao computador será em vão.
Valeu a pena o esforço. Uma das minhas amigas queria falar comigo. Está notoriamente interessada em mim e pelos teores das conversas sinto um ligeiro aumento da humidade relativa para os lados dela. Deste lado não são precisas grandes conversas para me deixar com a sensação de que as calças estão a ficar cada vez mais apertadas. Olá senhora libido. Ainda bem que apareceu. Acabo rapidamente a conversa, sem um final feliz, tragicamente. Mas, não sou grande fã do sexo interactivo. Chamem-me antiquado, mas prefiro a fricção entre os corpos. Digo-lhe que temos de marcar uma sessão para breve e despeço-me. Há mais marés que marinheiros.
Recebo uma mensagem no telemóvel. É o Juca. Pelos vistos a noite está agradável. Pergunto-lhe se viu a Maria João por lá. Responde-me que não. Decido então mandar uma mensagem à mulher dos meus sonhos.
Não sei que escrever na mensagem...
A última vez que estive com ela, havia problemas no paraíso. Que é o mesmo que dizer: problemas entre ela e o namorado. Usando a minha melhor versão de terapeuta de casais aprontei-me em ir dar uma volta pela praia com ela e conversar sobre o assunto. Incrível a facilidade com que conseguia comunicar com ela. Mais incrível ainda: como era possível o namorado a ter trocado por uma bimba qualquer e ela ainda pensar em voltar para ele? A conversa deu uma volta de 180 graus acabando por me calhar a batata quente. A MJ parecia excessivamente interessada no meu relacionamento da altura -uma rapariga com quem andava enrolado: morena e com um corpo que, de tão perfeito, era capaz de acabar com o celibato do Papa. Mas, que não passava de uma atracção física – o que me elevou o ego e me deixou a pensar que ela não me tinha esquecido na realidade e me faz cometer o erro de lhe perguntar, no final do passeio “Mas tu gostas realmente dele?” Ao que ela responde, de forma natural, embora evasiva ”Sim, gosto”. Adeus senhor ego, até um dia. Não era o final que estava à espera depois duma tarde tão perfeita.
Após momentos de luta com as palavras e de viagens insistentes ao baú das recordações, decido não enviar nenhuma mensagem. O silêncio vale ouro e o momento certo aparecerá certamente. Volto a enterrar a cabeça na almofada, esperando não sonhar com ela novamente. Desligo a luz e adormeço.

To be continued...


PedRodrigues

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Contos do Rio

Contos do Rio: Coimbra

Um dia perdi-me pelas ruas da cidade. Perdi-me neste labirinto de pessoas, casas, capas negras e tradição. Senti-lhe o cheiro. O suor dos comerciantes e a angústia dos estudantes. A luxúria dos primeiros romances e a nostalgia dos beijos no banco do jardim. O Sol também se perde nas ruas da cidade. É de negro que se veste. Não por tristeza, mas por tradição. Traz nela os sonhos e esperanças de milhares de jovens, tal como eu. Somos moldados pelos seus rituais e costumes. Eis o meu casulo. Nesta cidade entrei menino e irei sair homem.
Sentei-me para descansar. Vejo o ritmo frenético das pessoas. Impacientes, deslocando-se do ponto zero, para o ponto um, de movimentos coordenados, mas de espírito atormentado. A cidade não nos traz apenas alegrias... Olho para o céu. O dia está quente e o sol queima-me a cara. Adormeço de olhos abertos. Lembro-me do primeiro dia que meti pé nesta cidade. Detestei o meu primeiro dia, o meu primeiro mês, o meu primeiro ano... Mas de uma forma estranha, sempre me senti orgulhoso de cá estar. Talvez fosse o cheiro a tradição. A história a entranhar-se no corpo e a apoderar-se de mim. Esta cidade é uma mulher e como tal: encantou-me.
Acordo por instantes com o barulho das praxes. A palavra que se ouve:
- Caloiro!
Nunca uma palavra teve tanto impacto nas nossas vidas. É um misto de medo e alegria, difícil de explicar. As capas negras detêm o poder por estas bandas. Ditam a elite: os filhos da cidade. É a capa que nos muda. Meninos tornam-se homens e meninas tornam-se mulheres. Os dados estão lançados...
Levanto-me e lanço-me ao caminho. Continuo perdido. Vejo uma rapariga: cabelos loiros aos caracóis, de sorriso nos lábios... Lembro-me dela. Do meu primeiro amor de capa negra. Bate-me a saudade no peito. Sinto um aperto, um vazio. Também o meu coração se veste de preto. Não por tradição, mas por tristeza. O banco do jardim ainda lá está. As escadas da primeira conversa sincera – sem as manhices dos engates – também continuam no mesmo sítio. Lembro-me do primeiro beijo: numa Latada. A saudade aperta, mas a cidade abraça-me. Como uma segunda mãe, que só nos quer ver feliz. Continua a traçar o caminho para os meus amores. Sinto-me obrigado a amar as mulheres que ela me apresenta. Nunca se sabe qual terá a chave para este coração...
Chego ao pé do rio. Olho para cima e vejo uma torre com um relógio. As casas dispostas a toda a volta parecem degraus. Eis outra das coisas que me fascina nesta cidade: as metáforas que ela nos apresenta... As águas do rio são as lágrimas da cidade. Cada gota de água é uma lágrima de alegria que ela chorou e continua a chorar pelos seus filhos. Também eu anseio pela minha lágrima. Sonho com o rasgar do traje e da pele de menino. Sonho ficar despido, como homem. Hoje continuo perdido em ti - e continuo a perder-me por ti.
Obrigado Coimbra !



PedRodrigues

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Poema número vinte e nove

Naturalmente



Que ardor agreste é este, amor
Que me deste, ao fulminar com um olhar
Fulminante de fogo em esplendor
Que arde no peito sem queimar
Aurora boreal a céu rasgado
Rasgando-me a carne em cada gesto
Com os pés no areal pelo mar beijado
Gesticulando ao longe enquanto eu peço
Que me poupes o peito com espinhos cravado
Sentindo o vento que nos beija aos dois:
Carícia nos lábios, travo a mel
Tocando-me antes, agora e depois
Do cheiro a maresia se incrustar na pele
Do mar que nos separa, eu sinto ciúme
(Deste mesmo mar que os continentes une)
Fazendo de mim náufrago de nosso amor
Abraça-me vento, não me largues por favor
Que a solidão hoje não me mata, mas mói
E o coração que outrora batia com fulgor
Hoje é a sombra do que um dia foi
Não me fujas vento, que hoje sou filho da solidão
Abraça-me vento, que sou refém de meu coração...

PedRodrigues