terça-feira, 29 de março de 2011

Coragem: o caminho para a felicidade

Não é fácil.
Nunca foi fácil vencer o tédio que me acompanha os ossos. Nunca foi fácil amar - se pelo menos eu soubesse o que isso é. Sorte com Deus a cada passo. Que o tédio não me vença na escolha do melhor caminho - seja ele qual for. Encontro-me a dois passos do cruzamento, a dez minutos do fim do mundo. A sul do Paraíso já provei o fruto proibido. Se eu fosse o melhor que posso ser em todos os momentos. Não é fácil. Nunca foi fácil escolher. O sol põe-se atrás do cruzamento. A luz gasta-se com os minutos. Nunca fui fã de escolher às escuras. Devia apressar a escolha, mas o tédio que me acompanha os ossos comprime-me a carne; trava-me os pés e não me deixa seguir o que a minha vontade parece não querer saber: a escolha.
Eventualmente na vida todos temos de escolher. A vida é isto mesmo: uma série de cruzamentos ao pôr do sol, a dez minutos do fim do mundo. Por vezes fechamos os olhos e entregamo-nos ao acaso. Não é fácil. Mas nunca ninguém nos disse que a vida era um mar de rosas. Não era uma vez quando queremos - se é que alguma vez o é. O sol não brilha sempre, e bons são aqueles que enfrentam os dias de chuva sem recorrer aos impermeáveis. Os que seguem o caminho e não olham para trás. Convenhamos: o difícil nunca foi escolher. Difícil é saber abraçar as escolhas que fazemos. Lidar com a roupa molhada no corpo, mesmo que isso signifique que eventualmente vamos ficar doentes. Não é fácil. Nunca foi. Mas a chuva não cai para sempre, e no final dos pingos o sol parece brilhar. Às vezes o arco íris espreita por entre os pingos desdenhosos que beijam a luz do sol. No final do arco íris há um pote de ouro - dizem. A vida é esta série de cruzamentos. É uma sucessão de chuva e de sol. De dias de tédio e dias frenéticos. Não é fácil viver. Nunca foi. Não é fácil amar. Dizem por aí. Não é fácil escolher. Mas é. Não é fácil abraçar a escolha. Nunca foi. Dos fracos não reza a história. Verdade.






PedRodrigues

quarta-feira, 23 de março de 2011

Um brinde às mulheres

Chegou a Primavera. Chegaram os primeiros dias de calor. Com eles vieram as primeiras aparições dos decotes à luz do sol. Como ficam belos os seios banhados pela luz da estrela mãe. Adoro sentar-me na esplanada de copo na mão. A cerveja fresca arrefece-me o corpo e acalma-me as hormonas - ainda que por breves instantes. Elas desfilam pela calçada. As mais belas criaturas que Deus criou. Como adoro aquelas pernas: macias, tentadoras, problemáticas... Como adoro as mulheres. A elegância de cada gesto e a inocência - ou falta dela - em cada palavra. A tentação veio ao mundo com duas pernas, dois seios e um aglomerado de problemas no seu interior - algo que torna a indiferença impossível. Adoro os cabelos delas a esvoaçar ao sabor do vento, e a forma como reagem quando isso acontece: quando acham que perderam o encanto por terem um fio de cabelo fora do lugar. Como ficam belas quando são apanhadas de surpresa. Adoro os lábios pintados com batom. Adoro a variedade de cores e de brilhos. Adoro não saber se trazem na boca o Chanel, o Maybelline, ou outra coisa qualquer. Adoro quando me beijam e me deixam a marca na cara para mais tarde recordar - e tenho pena quando essa marca desaparece. Mulheres, vocês são belas. Adoro os vossos olhares predadores. O desprezo quando nos aproximamos. Convenhamos que vocês têm o poder, e sabem. Mas o tango dança-se a dois. A idade não vos assenta mal, por vezes até vos dá outra classe, outro encanto. As rugas na cara não são sinal de velhice, são sinal de experiência. É um prazer descobrir as histórias que têm para contar. Obrigado mulheres. Obrigado pelos sonhos eróticos que tinha, que tenho e que hei-de continuar a ter. Obrigado por me deixarem descobrir um pouco de vocês. Obrigado pelos seios - adoro os seios. Desculpem. Obrigado pelos sorrisos: de felicidade, de surpresa, de escárnio, de piedade, de prazer... Obrigado pelo desfile de pernas. Obrigado pelos cabelos ao vento. Obrigado pelos olhares - e pelos óculos de sol que escondem esses olhares e nos deixam ainda mais excitados. Obrigado por nos ensinarem que o caminho da felicidade não tem só uma porta de saída, mas também uma de entrada. Vocês são lindas. Obrigado!



PedRodrigues

domingo, 20 de março de 2011

Crónica com um final feliz

Sentado no peitoril da janela sentia a faca do ciúme apontada na minha direcção. No olhar dela morava a tristeza; a raiva era sua vizinha. Eu, por outro lado, encontrava-me perdido no corpo de outra mulher. Trocava sorrisos. Trocava carícias. E ela ali... Abandonada. Desculpa se tenho tanto amor para dar. Desculpa se ando de mãos dadas com a bigamia.

"Vou-me embora. Dói-me a cabeça" disse ela

Das curvas do corpo alheio o discernimento deu sinais de vida. Guardei os sorrisos e as carícias no bolso. Dei o beijo de despedida. Ela fugia pela calçada, mas eu sempre fui adepto de uma boa perseguição. Os cabelos lisos dela escapavam-me entre os dedos. O cheiro dela perdia-se no ar. Não me fujas, que eu não penso largar-te - largava primeiro a bigamia.

Eu

"Espera... Onde vais?"

Ela olhou para trás. Vi-lhe o decote. Perdi alguns segundos a imaginar onde levaria aquele declive vertiginoso. Qual camaleão, de olhos trocados, um para cada lado, reparei também na safadez do sorriso dela. Sabia que estava em vantagem. Pisou o ciúme. Pisou a minha virilidade. Naquele momento ela soube que eu estava nas mãos dela - não só nas mãos, nos seios, nas nádegas, na língua... Parou. Esbarrei contra o corpo dela. Tracei os meus braços pela cintura dela. Ela correspondeu. Traçou-me a nuca. E ali estávamos: entrelaçados um no outro. Olhei-lhe nos olhos. Ela nunca resistiu aos meus olhares. Eu nunca lhe resisti a ela. Do pico do calor da ligação simbiótica de nossos corpos nasceu um beijo.

"Vamos sair daqui..."

Ela seguiu-me como se eu fosse o timoneiro da felicidade. Eu tentei levá-la a bom porto - embora nos tenhamos perdido um par de vezes nos becos da cidade.
Parámos na praia algures entre as dunas. No céu a lua brilhava e iluminava os nossos corpos duma forma romântica - a fazer lembrar uma cena de um filme em que no final o rapaz fica com a rapariga. Os beijos perdiam-se no grãos de areia. Os grãos de areia perdiam-se nos nossos corpos. Despidos de pudor e de incertezas entregámo-nos um ao outro. Em plena harmonia com o mar, a areia, as estrelas e a lua os nossos corpos transpiravam o suor da lúxuria e os nossos corações bombeavam rios de amor. Gememos em sintonia

"Adoro-te"


PedRodrigues



sexta-feira, 18 de março de 2011

Reflexões a quente: as mulheres e os saltos-altos

Os homens não se medem aos palmos, mas as mulheres distinguem-se pelos saltos dos sapatos. A confiança delas nota-se pela forma como andam. Algumas deslizam pela calçada: altivas e soberanas. Como se mandassem no mundo e todos nós lhes devêssemos beijar os pés. Outras são mais atabalhoadas. Tropeçam no auge da falta de delicadeza. Não as censuro.
Uma mulher confiante usa sapatos de saltos finos e longos. Isso demonstra a sua confiança. Não tem medo de cair. Sabe que a sua beleza é a sua arma, e o seu carisma sexual é imenso. O seu andar é rápido, mas com classe. Como se o mundo fosse uma banalidade e o centro de todas as atenções fosse ela. Conheço-lhes os passos, mesmo quando não as vejo. O som agudo do salto a bater no solo acorda-me da minha ignorância. Aposto - mesmo sem ver - que traz um vestido justo no corpo. Aposto que é um pedaço de mau caminho - e um ponto de encontro para uma mão cheia de problemas. Todos as adoram. Todos as querem. Não pelos segredos que guardam atrás dos saltos. Não pelos desgostos amorosos que já tiveram. Não pela fragilidade que escondem em cada passo. Não pela genialidade de cada frase - muitas vezes sem sentido, para mim - que proferem quando as deixamos abrir o peito. Todos as querem pelos vestidos justos que as denunciam - noventa por cento das vezes erradamente - ou os saltos altos que fazem imaginar todo o tipo de cenários eróticos. (A falta de romantismo é ridícula. Se eu pudesse mandava cortar a cabeça a todos esses abutres das histórias de amor que se apoderam dos despojos da carne alheia. Sinceramente: metem-me nojo.)
Por outro lado, as mulheres que usam saltos rasos, ou saltos mais grossos, são mulheres frágeis. Mulheres que têm medo dos tombos. De cair na calçada e serem gozadas. Mulheres que não têm medo de mostrar que têm um segredo; que alguém as magoou. Cuja vida já lhes ensinou - e elas aprenderam - que o mundo é cão e nos obriga a sofrer. As rosas são belas, mas têm espinhos. Estas mulheres já se picaram, ou têm medo de se picar. Escondem o corpo atrás da roupa, mas mostram a todos que ali mora a tristeza, a desconfiança pelo sexo oposto e a dor de estarem sozinhas. Também são belas tais mulheres. Não há mulheres feias. Todas têm as suas virtudes, embora nem sempre venham aos pares.
Há sempre algo que as torna superiores. Trazem o poder na ponta dos cabelos e uma espada no olhar. Os sorrisos são portas para a imaginação funcionar. E o corpo? Ai o corpo... As intrigas, os enredos, as novelas, os segredos, os amores, os desamores... As mulheres são mapas de tesouros. São puzzles de milhões de peças. São a saúde na doença. São jogos psicológicos. São faca e queijo. São deusas entre os homens... São a minha perdição. Obrigado ao absinto, obrigado ao amor, obrigado às mulheres. Adoro mulheres, mesmo - sobretudo - quando estão descalças.


PedRodrigues

sábado, 12 de março de 2011

Para a minha Mãe

Desde que me cresceram os pêlos da barba que te tenho dito com menos frequência: "Amo-te". Lembro-me de quando era miúdo e te dizia várias vezes que és a melhor mãe do mundo. Continuas a ser. Nunca deixarás de o ser. Deste-me a este mundo, como pessoa altruísta que és, quando estava tão protegido no teu ventre. Obrigado mãe. Desculpa não te dizer isto todos os dias. És linda mãe. Mesmo com o passar dos anos, com todas as rugas – algumas, muitas são cortesia deste teu filho – apesar dos cabelos brancos e de todos os sinais do tempo: continuas linda. Esse brilho no olhar não esmorece; esse teu sorriso continua cativante; a tua pele continua tão macia…Como consegues? A tua pele é feita de seda? Às vezes penso que sim. Ás vezes penso que não fazes parte deste mundo. Que és especial. A verdade é que és especial. A verdade é que me passas a mão no cabelo

“Gostava tanto quando usavas fita”

E eu derreto com esse toque.

“Tens uma cara tão bonita. Devias cortar este cabelo”

Mesmo quando eu me acho a pessoa mais feia do mundo. Quando me acho o elo mais fraco. A tua mão no meu cabelo. Ou

“Gosto tanto de estar aqui ao pé de ti meu filho”

As tuas palavras de conforto. A forma como te enroscas nas mantas, deitada no sofá a roubar-me o espaço - que tenho todo o prazer de partilhar contigo. Adoro. Mesmo quando te digo para mudares de sítio que me quero esticar. Ou que gozo contigo por saber que vais adormecer e ressonar. Sim mãe, tu ressonas. Mas eu adoro. Para mim o teu ressonar no sofá já se confunde com uma sinfonia. Já entra bem no ouvido. Fascina-me ver a tua cara, de olhos fechados, serena, a descansar. Até nisso és especial. Adoro tapar-te melhor com as mantas para não teres frio. Tu ali deitada, tão serena. Tão bela. Obrigado por partilhares o sofá comigo.

“Lembras-te de quando eras pequenino?”

Adoro o orgulho nos teus olhos e na tua voz cada vez que contas as histórias de quando eu era o menino do bibe amarelo, do vermelho ou do azul. O mesmo orgulho com que falas de mim agora. Mesmo sabendo que eu às vezes falho. Mesmo sabendo que eu te desiludo – desculpa mãe, não é por mal. Custa crescer quando nunca errámos. Cada pedra no caminho parece uma montanha. Desculpa – o orgulho na voz não se perde no ar. Para ti hei-de ser sempre este menino, vestido de marinheiro, da foto que está na mesinha de cabeceira: pequenino e cheio de caracóis no cabelo. Para mim hás-de ser sempre a mulher que me cantava as músicas do Carlos Paião para eu adormecer. A mesma mulher que me deu a este mundo. A mesma que me abriu o lábio por mentir. A mesma que me faz ganhar o dia, todos os dias, quando me diz

“Olá meu filho”

Obrigado por estes vinte e quatro anos. Obrigado por partilhares tudo comigo: sangue, suor e lágrimas. És a melhor mãe do mundo e é difícil encaixar-te num texto. Não há livros que cheguem para ti. Obrigado por seres o meu mundo. Amo-te mãe.



PedRodrigues

quinta-feira, 10 de março de 2011

Amor próprio, ou: cinco maneiras de gostar de mim por instantes

Perguntei: "Que fazes?"
Respondeu: "Acaricio-te"
Uma sensação estranha percorria-me o corpo. A dificuldade em controlar-me era imensa. O toque dela era suave e delicado. Naquela zona em especial sentia-lhe com maior clareza a suavidade da pele. Cada movimento me fazia vibrar. Primeiro devagar, com calma, lentamente até aquecer. Levando o tempo necessário para que todos os músculos se sintonizassem; para que todos os pêlos fossem avisados do choque que os faria levantar em breve. Sem pressa de cruzar a meta, porque convenhamos a pressa é inimiga da perfeição. Nada de movimentos bruscos no início. Devagar para lhe sentir o calor - que naquela zona parecia dez vezes superior. Para lhe sentir cada milímetro de pele que me comprimia o... O corpo começou a contrair-se com a forma abrupta com que se passava de um regime de movimentos lentos para um regime de movimentos uniformemente acelerados. Os dedos dos pés começaram a dobrar-se. Os movimentos eram cada vez mais acelerados, cada vez mais intensos. O corpo respondia com uma cascata de suor. A respiração era cada vez mais ofegante. O coração acelerava na autoestrada do extase. A meta estava próxima. Os olhos começavam a cerrar-se devido à explosão que estava eminente. Um, dois, três: chegámos ao destino. Um arrepio - não de frio, ou de medo, algo diferente - percorria-me o corpo. Uma sensação de alívio em cada músculo. Os olhos abriram-se e os dedos dos pés já não estavam comprimidos. Os pêlos que se levantaram com a explosão - eu bem que os tinha avisado - deitaram-se novamente. Uma sensação de leveza emanava de cada poro. A cabeça tinha voltado ao activo, após momentos de pouca clareza - algo que é normal quando o sangue tem sítios mais importantes para visitar que o nosso cérebro. A repulsa voltou-me ao corpo e à mente. No entanto, eu felicitei os bons minutos que passámos juntos: "Obrigado!"
Respondeu: "Estou sempre aqui para te fazer feliz. Nem que seja por instantes..."


PedRodrigues

terça-feira, 8 de março de 2011

Reflexões a quente

É Carnaval ninguém leva a mal. Eu não levo, certamente. Adorei a forma como elas me tocavam e metiam conversa comigo. Nunca um bigode meu fez tanto furor.

"Corta isso"

Sempre me disseram. Diziam-me que não fico bem de bigode. Hoje provei que isso é mentira. Abracei marinheiras, dancei com Mimos e Brancas de Neve. Perdi-me no desfile de máscaras. Se elas soubessem que o Carnaval é quando o homem quer... Bebi ás custas de mulheres mais velhas. Não me vendi, tão pouco me ofereci. Dei a cara e o bigode. Elas assumiram que oferecia algo mais. Tenho pena delas.
Vi como olhavam para mim. Com vontade de me mostrar algo que eu não sei, mas que gostaria de saber. Vi como me possuíam com o olhar. E eu ali, no meio da pista a pensar na próxima abordagem. O gin acelerou-me o ritmo dos passos. Soltou-me o bicho inibido que trago, todos os dias, dentro de mim. Gosto de ser o mais secreto dos homens, o mais misterioso protótipo do sexo masculino. Gosto de as deixar na dúvida. De as perder com certezas - na cabeça delas, claro. Gosto que me controlem. De me achar mais esperto, embora saiba que elas têm a faca e o queijo na mão. Adoro ser complicado e de as deixar fora do controlo da situação.

"Que giro"

Realmente a minha mãe sempre me disse o mesmo. Nunca a apanhei numa mentira. Uma vez, quando tinha três anos, abriu-me o lábio com uma estalada por eu ter mentido. Aprendi a minha lição. Gosto que me digam a verdade: nua e crua. Prefiro que me magoem, que me enganem. Não gosto de rendilhados com a verdade. Ser ou não ser... Não há questão. Não há meios termos, nem nada que se pareça. A zona cinzenta é o pasto dos mentirosos. Penso que não minto.
Gostava de lhe ter perguntado o nome. Ela estava de chapéu e falou comigo por mímica. Sorriu para mim, dançou para mim, olhou para mim e rendeu-me aos seus passos. Tiro-lhe o meu chapéu. Gostava de lhe tirar o chapéu e algo mais. Um dia gostava de te ver nua, sem máscara. Esquece o pudor ou o sadismo das minhas palavras. Ás vezes nem eu me entendo. Tinhas uns olhos lindos. O sorriso não lhes devia nada. Será que consegues viver sem essa máscara? Será que tens o mesmo encanto? Todos nós somos máscaras. O latim é testemunha. É Carnaval ninguém leva a mal, mas o Carnaval é quando o homem quer... E agora?


PedRodrigues

domingo, 6 de março de 2011

Reflexões a quente

Ali na rua, a dias da Primavera, a brisa é tão gelada como nos primeiros dias de Inverno. As folhas nas árvores ainda lutam para não cair. As pessoas nos passeios, apressadas, escondem a garganta atrás do tecido dos casacos. Sigo na minha mão, abafando as palavras no tecido do meu casaco, desculpando-me com o frio.

"É assim a vida"

Se não fosse assim não tinha piada. Se fosse mais fácil não tinha piada, se fosse mais difícil eu pedia para ser mais fácil e acabava por perder a piada. As folhas nas árvores continuam a lutar contra a brisa, que devagar se transforma em vento. Em cada esquina vejo uma mulher a olhar-me. Sou comido pelos olhos. Não lhes consigo ver a alma, e a minha há muito que a vendi.
Ao passar a porta da entrada o contraste é claro. Os casacos estão guardados e os corpos despidos. Uma floresta de seios e pernas desnudas aparece do nada. O cheiro a desespero faz-se sentir. Aqui não há folhas. A luta é outra. A minha líbido arde-me nas extremidades do corpo a cada olhar na minha direcção. Os pavões de peito inchado perdem a noção do ridículo. Confundem a ingenuidade com beleza e sorriem de forma clara ao sentir o cheiro a desespero.

"Está mortinha"

O tédio também mata - pena a burrice não matar. Perco-me a imaginar que não há olhares na minha direcção. Perco-me a olhar o tecto e o chão. A contar copos vazios. Imagino isto e aquilo. Peço que venha rápido o Verão, estou farto de casacos. Estou farto de falar atrás do tecido. Quero que as folhas fiquem nas árvores e que os seios me encham os olhos. Quero ver as pernas queimadas do sol e as peles morenas a desfilar orgulhosas. Estou farto de ser olhado e não ser comido como o ícone sexual que sou. Estou farto de ter frio, enquanto sonho com o calor.


PedRodrigues

sábado, 5 de março de 2011

Caminhos

A história é esta: um homem que se reinventa a cada mudança de direcção. Um homem perdido, em busca do amor. Tomando sempre as escolhas erradas, por que convenhamos: só há uma escolha certa e infinitas possibilidades de errar. Uma pessoa, uma máscara que usa para cada ocasião. Um homem que não ama, embora tudo o que faça, faça por amor. Um homem de fato preto e camisa branca a fazer lembrar os actores do cinema noir. Com charme em dose e meia - e mais alguns truques na manga do casaco preto, do fato. Um homem derrotado pelas sucessivas mudanças de direcção. Esbatido pela erosão do tempo. A história é um musical. Uma panóplia de mulheres e um desfile de estrogénio capaz de levar qualquer um à loucura. A busca pela felicidade e a vitória da beleza. Um baile de máscaras e sorrisos falsos. De danças de salão e corpos enrolados ao sabor dos ritmos quentes. De caminhos tortuosos, olhares indiscretos e setas erradas. Direcções trocadas e musas em todas elas. Mulheres em pedestais a sucumbirem ao charme do homem de fato preto, camisa branca e olhos verdes. A história é uma cidade, um rio, duas margens. Caminhos que não se cruzam, se lhe faltar a vontade. É uma mulher, um caminho, uma musa, sofrimento, paixão, glamour... A história é norte, sul, este e oeste. Se pelo menos o homem soubesse por onde seguir. A história é uma mulher e uma centena de mulheres. Dividir e conquistar, quando juntos somos mais fortes. É este o problema das histórias dos homens charmosos de fato preto, camisa branca, olhos verdes e barba de dois dias: todos os caminhos vão dar a Roma, por mais longa que seja a jornada. E quando se chega demasiado tarde?


PedRodrigues

sexta-feira, 4 de março de 2011

As escadas II

"Nunca hei-de ter nada contigo"

O coração no peito martelava de forma cruel. No momento em que as palavras lhe saíram da boca não lhes dei o devido valor. A minha cabeça viajava por outros horizontes, perdida num mar de vinho que me afogava as portas da percepção. O corpo dela tremia devido ao frio que se fazia sentir. Abracei-a. Quebrei a barreira invisível que nos devia separar. Beijei-lhe a cabeça. Queria dar-lhe um pouco do meu calor, mas ela lutava para que o fogo que existia entre nós parasse de arder. Nem as lágrimas dela, nem as minhas o conseguiam fazer.
A minha cabeça inundada em pensamentos desviava-me a atenção das palavras que ela proferira. Aquelas escadas sempre me acalmaram. O oasis no meio do deserto de ilusões em que me vejo metido. O corpo dela continuava a tremer. Apertei-a contra mim cada vez com mais força. Senti-lhe o calor da respiração. A vontade do beijo a sair-lhe pela boca. O sorriso dela acenava-me a cada frase que me saía da boca. O corpo dela aninhava-se no meu com visível aquiescência. Se pelo menos ela não me tivesse dito aquilo.

"Se eu fosse outra, se calhar usava-te. Pelos vistos não era a primeira"

Esta frase cravou-me o peito como um espinho. Entendi aquilo que significo para esta sociedade. Ou pelo menos o que esta sociedade pensa de mim. Vêem-me como este boneco de plástico que pode ser usado e depois deitado fora. Na boca dela as palavras eram veneno. Veneno cura, mas não neste caso. Apeteceu-me fugir de onde me encontrava. Corri para o meu oasis. Ela seguiu-me os passos. Tentei ignorar. Tentei que me abandonasse. Precisava de um momento para mim. De me deitar a olhar as estrelas. A pensar se elas brilham da mesma maneira do outro lado do mundo. Como gostava de tocar no horizonte. Ela acompanhou-me. Ela ouviu-me. Ela disse que nunca me há-de querer. Não a censuro. Não a critico. A solidão sempre foi minha amiga... Não a quero trair.



PedRodrigues

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Reflexões a quente

Opá vão-se foder! Estou farto de chorar. De correr para as escadas. A procura da felicidade é utopia. Onde estás? Não te quero encontrar. Não mereço ninguém. Não mereço prendas nem presentes, nem ausentes. Ela não me ama. Eu nunca amei. A partilha é a mesma. Estou farto de distâncias de segurança. De lágrimas de ouro, ou de prata. A vida nunca me deu nada daquilo que sonhei. Em vinte e quatro anos nunca fui verdadeiramente feliz. Nasci com dores no peito e orgulho em dose e meia. Apetece-me correr sozinho para o sítio onde fui feliz desde que a minha avó morreu. O meu amor vale ouro, mas nas mãos delas é lata. Mulheres: o mundo gira à volta delas. Se pelo menos me dessem uma pistola para o fazer parar. Detesto este cheiro a vinho que trago na boca. Detesto esta falta de beijos que trago na boca. Esta noite sonhei que não sabia beijar. Onde estão elas que me querem como sou? Apetece-me sair daqui. Tirar fotos das escadas para mais tarde recordar. Apetece-me chorar. Vacilo em todos os momentos que as quero. Sofro em todos os momentos que não as tenho. Corre! Ao voltar da esquina ouço-a a dizer:
"Espera!"
Não me mandes esperar, se não me queres. Não chores por mim se o teu coração não me pertence. Não me dês as gotas da vida, se me queres ver morto. Deixem-me ser quem sou. O cancro que sou. Que vos cresce no peito e que querem remover. Sempre fui assim. Cresço no interior de quem me conhece. Mas no final todos me querem fora do corpo. Nunca hei-de ser feliz. Sou de ferro. As balas não me matam.
"Magoam!"
Obrigado pelas dores. Obrigado por vos defender. Sempre! Sou triste, só e mal acompanhado. A minha vida não me sorri. Apetece-me fugir e estar sozinho.Escrever para o mundo sobre o que trago cá dentro. A dor, o fado, a morte e algo mais que não sei dizer o quê. Hei-de ser eucalipto na vida das pessoas. Secando-lhes a percepção da realidade. A minha vida é nula e sem graça. Não me queiram: nem hoje, nem ontem, nem depois. Obrigado mãe. Há vinte e quatro anos fiz-te feliz. Hoje ainda faço. Obrigado a ti que me amas. Ninguém te quer ocupar o lugar. Tragam-me a pistola, a faca, ou as palavras. Matem-me de alguma maneira. Hoje eu choro por mim. De resto? Obrigado, mas vocês são uns merdas! Nunca hei-de amar ninguém, hoje entendi isso. Hoje entendi que não me posso dar sem me quererem como sou: pleno e cheio de falhas. O amor é a melhor droga, mas eu fico-me pelo genérico.



PedRodrigues