sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Não sei amar em inglês (Reflexão a quente)

É meia-noite. O último autocarro acabou de passar. Consigo ver a paragem, da janela do meu quarto.

(Hoje não a consigo ver.)

Tenho a minha namorada sentada no parapeito a olhar para o abismo. Ou à procura de uma vertigem que tarda em aparecer do asfalto que limita o final desse abismo. Lá vai fumando o seu cigarro, enquanto eu aqui estou: deitado na minha cama a imaginar as linhas deste texto. Sinto o cheiro dela nas almofadas - adoro. Juro que adoro. O cigarro continua a arder, lentamente. Ela continua a olhar para um sítio qualquer. Está a dormir de olhos abertos no parapeito da minha janela. Eu aqui, a olhar para ela. A observar cada gesto. A forma como leva o cigarro à boca. A forma como expira o fumo.  A forma como contrai as pernas devido ao desconforto causado pela pedra do parapeito. Ali está ela: a minha namorada. Nem sempre as coisas foram assim.
Lembro-me de quando não tinha namorada. Lembro-me da busca incessante pela mulher certa – a que se sentasse no parapeito da minha janela, a fumar um cigarro, enquanto eu a observo da minha cama, a tentar avaliar o grau de loucura que me leva à loucura. Lembro-me das muitas noites que passei sozinho. Aquelas a que ninguém dá valor - visto que fazem de mim uma puta. Lembro-me de algumas outras, não menos solitárias. Alegres, com um final triste. Ou apenas um final, já que todos os finais são tristes. Elas a fugirem-me entre os dedos. Ou eu a abrir a mão para as deixar fugir. Não tenho pena delas. Não tenho pena de mim. Viver é isto: aprender a cada passo. Viver é isto: desdenhar cada passo como se fosse o último. Devia ser assim.
Sempre me senti como o centro de um campo magnético a que algumas pessoas estão sujeitas. Sempre me senti assim. Não me lembro quem me fez pensar que as coisas funcionam desta maneira. No entanto, na minha cabeça – e na cabeça de muita gente – a minha vida é este jogo de damas, em que eu ganho a cada peça que colecciono . Lembro-me de

-Gosto de ti

Ser o centro de algumas galáxias nas quais falta um sol. Não sou um sol. Nunca fui um sol. Não tenciono ser um sol. Não sei amar. Seja em que língua for. Sinto-me a aprender. Hoje.
Elas

-Há algo em ti

Enquanto eu não me entendo. Enquanto eu nunca me entendo. Enquanto eu nunca me entendia.  Eu a ser um centro de algo que ainda não sei. Hoje.

-Desculpa. Não sei amar em inglês.

Enquanto elas me iam falando em línguas que não entendo. Ainda hoje não entendo. Todas elas lindas. Todas elas mulheres. É preciso dizer mais? Mulheres. O verdadeiro mistério da raça humana. O “ser ou não ser?” do Shakespeare, em cada curva, em cada gesto, em cada palavra. Elas. Mas eu

-Não sei amar em inglês.

Nunca soube. Elas que atravessavam oceanos. Faziam-me juras de amor. Entregavam-se. Ainda hoje não as mereço. Não as quero merecer. Olho para a janela. Ela. Sim, ela. Linda. No crepúsculo entre a aurora e as luzes dos candeeiros. Ela na janela. O último autocarro. Eu a ler as linhas deste texto nela. Nas curvas dela.

-Não sei amar em inglês.

Tu sabes? Não me interessa se sabes, realmente. Eu não sei. Não quero amar em inglês. Não há nostalgia nesse canto do amor. Há? Não acredito. Sou demasiado céptico. Ainda continuo a descobrir o amor. No entanto

-Não sei amar em inglês.

Todas as mulheres são lindas. Cada uma na sua língua. Desculpem-me. Não sei amar dessa forma. Na vossa língua. Amo cada uma à minha maneira. Desculpem

-Não quero amar em inglês.

Digam-me coisas. Sussurrem-me palavras. Digam que me amam. Digam que sou importante – mesmo que agora esteja aqui, sozinho, a escrever. Não me digam. Não preciso.

-Não sei amar

(-Em inglês?)

Ela ali na janela

(-Sim)

Eu a olhar para ela.
O último autocarro a fazer o barulho de um motor gasto. Eu sorrio enquanto ela me devolve o sorriso.

-És linda

Ela

-Sabes amar em inglês?

Eu

-Não. Nunca aprendi. Nunca quis aprender.

(Ela atira o cigarro pela janela.)

Uma perna entra pelo quarto enquanto ela me sorri. Eu a devolver o sorriso. Paralisado. Barulhos na rua. As outras a chorarem por algo que nunca entendi. Nunca hei-de entender. Tenho para mim que cada um sabe o que dizer, como dizer, quando dizer. Não há um amor de modas.

-Não sei

Eu

-Juro que não sei

O quê?

-Amar em inglês.

Elas passeiam os vestidos, os sorrisos, as falas nessa língua dos filmes de cinema. Infelizmente para elas, não sei amar em inglês.
Hoje deito-me aqui sozinho a imaginar a minha namorada: na janela, a fumar um cigarro, enquanto o último autocarro teima em não passar.
Felizmente para nós, não precisamos de falar. Felizmente para nós

-Eu sei-te amar

As barreiras linguísticas apanharam o último autocarro, que teimava em não passar na paragem que, hoje, não consigo ver da janela do meu quarto.

PedRodrigues

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Acerca de segundos encontros, livros e dedicatórias

Aquele segundo encontro parecia o primeiro. Ali estava eu, no ponto de encontro, à espera dela. Quando, de repente, a vejo. Trazia um vestido roxo com padrões, umas sandálias douradas, um ligeiro toque de maquilhagem - nada de extravagante - e o cabelo ainda húmido. Lembro-me de pensar para mim: "É ela! Estou apaixonado". Deu-me um beijo impetuoso na face. E eu parei por momentos. Ou o tempo parou por momentos. Não sei. Eu trazia o meu pólo cor-de-rosa vestido. Tinha passado uma pequena eternidade a tentar escolher o melhor conjunto para a impressionar da forma mais casual possível. Mas, no momento em que os meus olhos se perderam nela, senti-me nu. Senti-me insuficiente. Ali estava ela. Ali estava ela a brilhar. Ou eu a perder-me num universo alternativo em que ela era uma estrela. Não sei.
Tinha acabado de chover, mas o calor era imenso. Ela

-Não entendo este tempo

Rogava pragas ao tempo. Eu perdia-me na inércia que a imagem dela me provocava. Estava estático. Perdido entre a realidade e a ficção. Acordei, por momentos

-Tenho de ir à feira do livro. Vamos?

Tínhamos como destino as docas. O mesmo destino do nosso primeiro encontro. Mas, desta vez, trocámos a vontade de correr pela vontade de passear. Caminhámos. E, durante a caminhada, todo o tipo de conversas surgiram. Algumas sem nexo. Ela ria, esperneava, gritava. Eu tentava acompanhar toda aquela loucura. Não queria ser deixado de fora da tempestade. Impossível. Ela cada vez mais bonita. Ela cada vez mais interessante. A cada sorriso: mais bonita. A cada frase sem nexo: mais interessante. Ela. Eu a sentir-me cada vez mais pequeno naquele universo. A querer crescer e levar o mundo dela às costas, qual Atlas da Grécia Antiga. De facto, era ela. Estava apaixonado.
Procurámos, por todas as bancas, o livro perfeito. Cada um falava dos seus livros favoritos. Os que sonhava ler e os que já tinha lido. Cada um divagava à sua maneira. E no meio do sorvedouro de críticas, pensamentos e citações a minha atracção por ela era cada vez maior. Escrevia livros na minha cabeça. Imaginava-os ali, naquelas bancas: livros sobre ela, livros para ela. Uma vida em milhares de páginas. Eu e ela em cada palavra. Um pedaço de mim para ela. Ali estava eu a escrever histórias. Enquanto a imaginava naquela luz das cinco da tarde: sentada numa esplanada à beira-mar, de livro na mão, a ler as minhas páginas. A ler-se nas minhas páginas. A sorrir. Aquele sorriso secreto. O “Secret Smile” - como o da música - que eu sabia esconder-se atrás da máscara de indiferença que ela usava. Ela a ler-se nas minhas páginas. Eu a imaginar. Uma dedicatória na minha cabeça

“Para ti, que me deste o prazer de partilhar cada página da tua vida comigo “

Calei-me. Guardei a dedicatória no baú de dedicatórias que tinha acabado de criar.

(O livro perfeito a olhar para mim. A pedir-me que o levasse)

Ela

-Vamos beber um mojito

Eu

-Só pagar isto e já vou

Sentámo-nos na esplanada a ver o sol espelhado no Mondego. Ela olhava para o rio. Eu olhava para ela. A luz: perfeita. O clima: perfeito. Eu perdido, cada vez mais, a imaginar. O cabelo dela já tinha secado, mas continuava lindo. O sol a beijar-lhe a face e eu a invejar-lhe cada raio. Sonhava beijar-lhe a face. Sonhava beijar-lhe a boca, o lóbulo da orelha, o pescoço…

(Um gole na água que tinha pedido)

Ela cruzava as pernas e eu perdia-me no horizonte entre os dedos dos pés e o limite do vestido. Que mulher. Ela inspeccionava a minha compra à procura de um defeito que não encontrou. Dava pequenos goles no mojito e olhava para mim. Eu continuava a olhá-la. Continuava a imaginar-me num pôr-do-sol, de mãos dadas com ela, a passear junto ao mar. Ela mordia a hortelã. Eu mordia os lábios a imaginar a textura dos lábios dela. Uma brisa ligeira abanava-lhe os cabelos e trazia, generosamente, a essência dela até mim. Como cheirava bem. Um arrepio no estômago. Ela nos meus livros: a ler-se.
O encontro acabou no sítio onde tinha começado. Olhei para ela uma última vez, naquele dia. Continuava com o mesmo brilho. O tempo parou novamente - ou eu parei novamente, não sei. Fiquei a imaginar dedicatórias para meter no baú. No meio da minha inércia senti a impetuosidade de um novo beijo na face.

-Adeus Pedro

E enquanto ela desaparecia na paisagem, eu escrevia-lhe livros, na minha cabeça. Em todos eles uma dedicatória tirada do baú

“Para ti, que me inspiras todos os dias a ser mais e melhor”

PedRodrigues