segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Este fumo miudinho de que sou feito

Sempre pensei que quando passasse dos sessenta os dias iriam tornar-se mais curtos. Que o relógio se  esqueceria dos segundos e dos minutos, de forma que as sete da manhã se confundiriam com as sete da tarde e os dias passariam por mim a uma velocidade de carro de corrida. Reformei-me por volta dos sessenta e cinco anos e os dias continuaram iguais. Nada de novo a não ser mais umas dores nos joelhos, mais uma ou duas rugas na cara, um aumento considerável de idas à casa de banho, os óculos – que tive de trocar, visto que as letras do jornal me começavam a fugir, novamente – e pouco mais. A minha mulher continuava na mesma. As pessoas na rua diziam que os anos não passavam por ela. Eu achava que passavam, mas esqueciam-se de lhe levar a juventude. Estávamos juntos há quarenta e oito anos e ela continuava tão bonita como no dia em que a conheci. Casámo-nos jovens e aos vinte anos já tínhamos dois filhos. Nunca amei mais ninguém na minha vida. Reparti o meu amor pelos três e nunca desperdicei um pingo que fosse fora de casa.
Amei a minha mulher até ao dia em que partiu. Tinha setenta e seis anos quando ela me foi roubada. Lembro-me desse dia todos os dias - quando me levanto da cama e rumo ao cemitério para visitar a campa onde ela jaz. Lembro-me dos beijos dela de todas as vezes que beijo a fotografia que está na lápide. Uma lágrima desdenhosa acaba sempre por aparecer. Uma lágrima que não sei de onde vem. Talvez venha deste fumo miudinho de que sou feito. Deste resto de fogo que, hoje, aos oitenta e dois anos, arde cada vez com menos fulgor. Roubaram-me a minha chama e todos os dias me pergunto onde arranjo forças para me levantar da cama. A verdade é que me levanto e ela não está. E as horas, que deveriam passar por mim a uma velocidade de carro de corrida, continuam a passar ao mesmo ritmo penoso, tornando cada vez mais densa a solidão.
Os meus filhos ligam-me todos os dias. Costumam aparecer de vez em quando cá por casa com as mulheres e os miúdos. Lá me vão dizendo

-O pai não quer vir viver connosco?

Eu finjo-me de desentendido e mudo logo de assunto. Prefiro ficar por aqui. A dormir na mesma cama onde, outrora, dormia a única mulher que amei. E no entretanto entre o sono e a solidão vou-me entretendo a limpar a casa, a tratar do jardim, a ler uns livros e as notícias no jornal. A dedilhar as páginas à procura de algo interessante no meio do habitual amontoado de sensacionalismo. Algo interessante como estes anúncios nos classificados onde aparecem raparigas nuas. Onde cada imagem se torna uma tentação. Cada anúncio torna essa tentação maior. Fui homem de uma só mulher. Nunca estive com mais ninguém. Nunca desejei estar com mais ninguém. Mas a solidão tem-me consumido o corpo e a alma. Sinto falta do aroma de uma mulher. Das curvas suculentas e da suavidade das carícias. Talvez sejam os delírios de um velho viúvo a falar mais alto, mas preciso de me sentir amado uma última vez.

(Pego no telefone e marco o número de um anúncio aleatório)

-Estou sim?

Uma voz de seda vai-me respondendo do outro lado. A certa altura eu

- Se nos pudéssemos encontrar para conversar. Só para conversar.

A voz de seda a responder-me do outro lado

-Só para conversar?

Eu já não tenho idade para muito mais. Não tenho idade para aquilo que está a pensar. Além disso, fui homem de uma só mulher e a minha chama morreu com ela. Só preciso de me sentir amado uma última vez.

-Se me puder dar a mão, agradecia. E se me puder acariciar a cara ficaria eternamente grato.

Marquei o meu último encontro para as quatro da tarde num café perto de casa. São três da tarde e o relógio teima em não apressar as horas. Visto-me a rigor e faço-me ao caminho. No cruzamento entre o café e o cemitério volto para onde me leva o coração. São quatro horas e eu estou a beijar a fotografia de quem ainda amo. Há amores que duram uma vida e o nosso ainda vive comigo. Espero que a senhora da voz de seda não fique zangada. Eu sei o que custa esperar por alguém que nunca vai aparecer.

PedRodrigues

terça-feira, 22 de novembro de 2011

A solidão cheira a maçã e canela

No outro dia comprei uma vela com aroma a maçã e canela. Queria que a casa esquecesse o teu cheiro. Queria que as paredes deixassem de sentir a tua falta. Queria que as marcas do teu corpo, no divã da sala, desaparecessem. Queria que te fosses embora das fotografias. Que parasses de me abraçar naquela em que estamos juntos a ver o pôr-do-sol. Que te levantasses e te fosses embora para sempre. Que me deixasses sozinha, como me deixaste na vida real. Deixavas-me a sorrir, como uma parva. E, pé ante pé, lá te ias afastando. Enquanto eu, feita parva, sorria para o pôr-do-sol.
Faz hoje um mês que me disseste

-Não consigo mais

Uma falta de ar, subitamente, no meu peito. Ainda me lembro daquele nó na garganta, daquele sorvedouro no estômago. Uma agonia imensa. O cheiro a cebola queimada – estava a fazer-te o jantar. Não era o teu prato favorito, mas estava a fazer-te o jantar. Entraste pela porta e nem me deixaste dar-te um sorriso. Nem um beijo me deste. De certo que seria o último, mas pelo menos ficava-me marcado nos lábios. Pelo menos ia-me ficando de lembrança, visto que não me lembro do nosso último beijo – e isso pouco importa. Deixaste-me, é um facto. Deixaste-me a mim e à casa e aos móveis. Foste-te embora sem te despedires. Pegaste nas chaves do carro e

-Não consigo mais

Foste embora. Fechaste a porta atrás de ti e aposto que nem olhaste uma última vez para mim. Eu ali, no meio dos tachos, das facas, dos condimentos, das cebolas, a chorar. Lágrima atrás de lágrima, enquanto me perguntava se a culpa teria sido minha. Se a razão de teres ido embora e não conseguires mais seria eu. Nem um último olhar me deste. Deixaste-me enquanto me afogava em mim. O pior não tinha sido ver-te partir, o pior era não saber por que razão partias. No entanto, nunca olhaste para trás. Nem uma última explicação me deste. Nem um último beijo me deixaste. Nem um último abraço onde me pudesse agarrar enquanto me deixavas. Nada.
Lembro-me tão bem de quando o telefone tocou nesse dia. Tinha estado mudo até àquela hora. Corri para ele na esperança de ouvir a tua voz

-Desculpa…

Mas a tua voz não apareceu do outro lado. Só uma voz que não era a tua. A mesma voz que me acompanhou na altura em que fui reconhecer o teu corpo encarcerado no carro. Ao que parece embateste contra um poste. A polícia disse-me que o excesso de velocidade e o piso molhado foram as causas do acidente. Mal sabem eles que a culpa não foi da velocidade ou da chuva. Eu sei que me querias abraçar uma última vez. Aposto que te deixaste levar pelo momento. Que pisaste no acelerador fervorosamente, tal era a pressa de me abraçares. E na tua cabeça abraçaste-me. Enquanto os teus braços se incrustavam entre o carro e o poste, na tua cabeça abraçavas-me. Também eu te imagino a abraçar-me

-Desculpa… Não chores. Foi um impulso, mas já passou. Vou amar-te para sempre.

Um abraço tão forte. O calor do teu peito a evaporar-me as lágrimas. Imagino-te a entrar em casa com um ramo de flores na mão. Enquanto eu te faço o jantar: o teu prato favorito.
Hoje tu não estás por cá. Comprei uma vela para te empurrar para fora de casa. As paredes sentem a tua falta. Eu sinto a tua falta. Continuas abraçado a mim no retrato, mas os teus braços não me aquecem e estamos em Novembro. Foste embora e nem levaste um agasalho. Será que não tens frio? Na minha cabeça ainda te vejo a entrar pela porta, com o tal ramo de flores. Encharcado e com frio. A dizeres-me

-Vou amar-te para sempre…

E, se era para sempre, porque me deixaste? Ainda hoje me pergunto. Hoje que tomei a caixa inteira dos anti-depressivos e a casa me começa a fugir. Um nevoeiro imenso e eu vou-te procurando, aos apalpões. Ainda hoje me pergunto: porque me deixaste? Um frio cada vez mais intenso no meu corpo. Onde estás? Abraça-me. Afinal, ninguém é para sempre. Afinal, nada é para sempre.

PedRodrigues

sábado, 12 de novembro de 2011

Croniquinha de trazer por casa

Amo-te devagarinho. Não sei como, mas amo-te. Vou-te trazendo pela casa: uns papelinhos na parede; umas calças do teu pijama pelo chão; umas folhas soltas de outros textos que te escrevi; o teu corpete numa caixa de sapatos, por baixo da televisão; o teu cheiro pela casa, desde o quarto até à porta da entrada; o teu batom na mesinha de cabeceira; e eu que te trago na minha cabeça. Que te trago nas minhas mãos, nos meus cabelos, aqui e ali pelo corpo. Uma marca mais bruta e outra mais suave. Vou-te amando devagarinho. Para quê acelerar?
Vou-te perseguindo pela casa

-És tão bonita

Vais-me sorrindo devagarinho. Os teus lábios não têm pressa. Os teus dentes não têm pressa. E eu aqui: a amar-te devagarinho pela casa. A procurar-te pelas esquinas de cada divisão. Um brinco na almofada. Umas cuecas no guarda-roupa. Eu deitado na minha cama a falar contigo ao telemóvel

-Tenho saudades tuas

Tu

-Estou quase a chegar

Mas ainda demoras e eu vou-te procurando pela casa, sem pressa. Numa calma inexplicável, enquanto vou dedilhando mais uma crónica pequenina de trazer por casa. Vou-te relendo nos meus textos. Vou-te aperfeiçoando em cada um. Nunca consigo escrever-te como tu mereces. Falta-me sempre aquela palavra. Falta-me sempre aquele bocadinho. Então vou esperando que apareças pela porta: de casaco branco com pêlo de ovelha – não sei dar o nome às coisas, como tu. Vestido verde e meias pretas. Com o cabelo solto, ou apanhado. A entrares devagarinho pelo quarto, enquanto eu te vou admirando e procurando aquela palavra que me vai faltando. Deitado na minha cama, ou sentado pelo chão. A olhar-te de alto a baixo. À procura de todos os pormenores que me permitam fazer-te melhor nos meus textos. Ou fazer os meus textos melhores para a tua pessoa. Vou-te olhando, vou-te lendo, e sempre que o faço, vou-te amando, cada vez mais, devagarinho.

-Estou a chegar. Abre a porta

O barulho do elevador a ecoar pelas escadas. Vou-te sentindo pela casa, mesmo antes de entrares. Vais-me dizendo olá pela casa. Nos papelinhos que me deixas na parede. Na roupa que deixas espalhada pelo chão do quarto. Nos cabelos que vais deixando nas almofadas. Nas crónicas que te escrevi e vou escrevendo na minha cabeça. No teu perfume que se vai passeando pela casa. Nas marcas que me vais deixando no corpo: umas mais brutas e outras mais suaves. E então eu vou-te amando devagarinho. Não sei como, nem porquê. Vou-te amando devagarinho, mas não te digo. E tu vais-me ficando pela casa. Vais-te deixando ficar pela casa. Porque também me amas devagarinho e nem quando partes me consegues largar.

PedRodrigues

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Não sei se sabes, mas...

A minha cama torna-se imensa quando não estás. Às vezes, acordo de noite e procuro-te na almofada ao meu lado. Nada. Abraço-me ao teu cheiro e aos cabelos que me deixas na cama. Tenho pena que eles não me aqueçam. Adoro que amenizem o vazio que dorme a meu lado. Sinto a tua falta no silêncio. Sinto a falta do barulho de cachoeira da tua respiração. Dos suspiros nocturnos entre sonhos. Na minha cabeça sonhas comigo. Na minha cabeça adormeço todos os dias ao teu lado: com o teu rosto no meu peito e os teus braços entrelaçados em mim. Não sei se sabes, mas tenho medo de me perder por aqui, sozinho, na escuridão.
Não sei se alguma vez te disse: não há Este, nem Oeste. Há apenas o sítio onde estás quando o sol nasce e o sítio para onde vais quando o sol se põe. Não sei como fazes. Continuo a achar que és o eixo sobre o qual a terra gira. Que as flores na Primavera desabrocham para te dizer olá. E que, a chuva no Inverno cai de veludo do céu, à tua passagem. Gostava de saber se a areia te beija os pés como me beija a mim, ou se também te trata de forma especial, como só tu mereces ser tratada. Gostava de saber como fazes para sorrir da maneira que sorris. O que fazes para me prender a ti como prendes. Não sei onde arranjaste esta corda que me prende a ti. Sinceramente, não me interessa saber. Adoro estar ancorado a ti, ou amarrado, ou incrustado, ou o que quer que seja. Adoro.
Não sei se sabes, mas tenho sono. Este desabafo é só um pequeno desabafo de mais uma noite em que vou procurar-te pelos lençóis. É só mais uma noite em que vou acordar: uma, duas, três vezes. Tu não vais estar. Vão estar os teus cabelos, mas tu não. Vai estar o teu cheiro, mas tu não. A saudade aqui ao meu lado, mas tu não. Volta depressa, no meio do silêncio. Abraça-me com força até acordar. Tenho saudades tuas.

Amor

Volta depressa

Amor


PedRodrigues

domingo, 6 de novembro de 2011

O que elas sabem sobre nós

Sabem que olhamos para as curvas dos corpos delas nos vestidos e imaginamos o que estará por baixo. Que as vamos descascando: camada a camada. Sonhando com a cor da lingerie que trazem no corpo. Se é vermelha, ou preta. Perdemos minutos a imaginar como será que o corpo se aguenta em toda aquela camisa de forças. Será que as ancas não gritam? Será que os seios não esperneiam? Assumimos que sim. Elas sabem disso. Quando as deixamos passar à nossa frente, ou lhes damos um jeitinho no meio da multidão, elas sabem que somos cavalheiros da nossa causa, à nossa maneira. Só lhes queremos sentir o perfume, ou procurar um eventual toque no corpo. Um motivo para meter conversa, ou para as apreciar noutros ângulos. Elas sabem disso. Sabem que conquistamos as amigas para as conquistar. Ninguém vence batalhas sozinho. Elas sabem disso.  Elas sabem quem são os bons e quem são os maus. (Acreditem!) Apenas optam por escolher os maus mais vezes. Só se acerta uma vez na vida. E elas gostam de gastar as fichas todas de uma vez. Sabem quando temos alguém. Desconfiam. Desdobram-se em mil. Procuram respostas. Fazem inquéritos. Até que no fim, quando têm a certeza, nos martirizam. Elas sabem quando nos têm na mão. Fazem-se de despercebidas. Fazem-nos julgar invencíveis, os reis do mundo, os sultões dos bares. No entanto, elas sabem e deixam-nos passar por parvos. Elas sabem quando olhamos para outra, enquanto estamos na esplanada a beber café. Apanham-nos no nosso jeito atabalhoado de disfarçar. No auge do excesso de testosterona que nos torna em seres desajeitados. Sabem que fantasiamos com a vizinha, e imaginam que nós a imaginamos connosco no banho, na mesa da cozinha, ou no elevador. Elas sabem, e fazem-nos sofrer por isso: uma dor de cabeça aqui, um dia cansativo ali… Ou então, obrigam-nos a suar a vizinha para fora do nosso corpo. Obrigam-nos a entender o que temos em casa - que vale mais que a vizinha, que a rapariga do café ou que a colega de trabalho. Elas sabem como nos manipular. Sim, elas sabem. Elas sabem como nos domesticar. Mas também sabem como nos mimar. Sabem quando amuamos. Quando estamos a chocar uma gripe. Ou quando só tivemos mais um dia mau. Sabem quando desesperamos por um beijo. Quando procuramos um pouco de afecto. Elas sabem lidar com os nossos amigos. Sabem como os conquistar. Sabem qual é que era bom para aquela amiga que só tem olho para trastes. Sabem fazer-nos felizes. Sabem como nos deixar à beira de um ataque de nervos. Sabem que botões apertar para despertar um ataque de ciúmes. Sabem como nos obrigar a fazerem-se sentir desejadas. Elas sabem tudo. Sabem até que eu não fiz por mal quando comecei o texto a imaginar as curvas de cada uma delas a desfilarem em lingerie, no meu quarto, ou em qualquer outro lugar. O que elas não sabem é que nós fazemos tudo para acertar. E damos tudo para nunca errar (embora errar seja humano).

PedRodrigues

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

As mulheres no cinema

No cinema, o filme é só mais um filme. A tela em branco é só mais uma tela em branco - tingida com o protótipo de vidas alheias com que todos sonhamos. Procuramos identificar-nos com as personagens principais. Vemo-nos em cada gesto. Encontramo-nos em cada beijo. Partilhamos cada lágrima. Nos momentos de alegria sorrimos, como se aquele

-Amo-te.

Fosse para nós. Nos momentos de tristeza choramos como se fosse o nosso coração que estivesse a dançar na corda bamba.
No final das contas, vou ao cinema para me sentir viva. Para fugir da monotonia dos meus dias. Para esquecer o meu trabalho no hospital. Para ser uma aventureira destemida. Para ser a mulher que o herói procura. Para saltar de aviões. Evitar o apocalipse. Para estar em Roma, Londres, Nova Iorque, Sydney, Hong Kong… Para ser beijada em Paris. Para ser eu no meio dos clichés mais românticos que possa imaginar. Para ser eu: noutro corpo, noutra vida, noutro tempo, noutro lugar. Eu que nunca viajei. Raramente tiro dias para passear. Normalmente faço turnos a seguir a turnos. Pacientes atrás de pacientes. Não consigo fugir do sangue e das lágrimas. Dos cancros, das depressões, dos hipocondríacos e daqueles velhinhos que têm

-Uma dor aqui na perna há uns dias. E depois esta pieira no peito, senhora doutora.

Saudades de um pouco de afecto. De um grama de carinho, apenas. Que não buscam por mais uma dose de insulina, mas por um abraço e um sorriso

-Até à próxima dona Lucinda. Cumprimentos aos seus.

Uma mão nas costas para saberem que vai tudo correr bem. Embora não seja bem assim. E por vezes, numa questão de meses, a ficha da dona Lucinda faça apenas parte do arquivo. Infelizmente, a vida não é como um filme, em que no final, “no matter what”, tudo acaba bem.
No outro dia, o rapaz com quem ando a sair levou-me ao cinema. Confesso que me tem vindo a conquistar. Não sei se a culpa é do olhar - tem um olhar sonhador. Ou da gentileza com que me trata. Nesse dia cumprimentou-me com um beijo no canto da boca, enquanto me dava a mão, desdenhosamente, à porta de minha casa. Arrepiei-me. Não é normal em mim. Mas senti um friozinho na espinha, literalmente. Ofereceu-me o bilhete e deixou-me escolher o filme: uma comédia romântica. Dei por mim a encostar a cabeça no ombro dele. A perder-me nele, em vez de me perder no filme. A pensar como seria se ele se levantasse naquele momento e se fosse embora. Foi nesse momento que entendi que, por muito bom que seja o filme, sem ele não teria o mesmo sentido. Foi nesse momento que deixei de me perder a imaginar como seria se eu fosse a personagem principal: a saltar, a beijar, a chorar, a viajar… Nesse momento a tela em branco eclipsou-se nela mesma. E eu ali, perdida no ombro dele. A cheirar-lhe o colarinho e a guardar a fragrância num frasco, algures na minha cabeça. A respirar contra o pescoço dele enquanto lhe sentia os pêlos da barba e os cabelos na minha cara. Nesse momento senti uma pequena saudade. Se ele se levantasse e se fosse embora, era só o que me restava. Saudade. Saudade daquele momento em que deixei de ser uma personagem num filme e me senti uma pessoa real. A tentar procurar um

-Amo-te.

Nos olhos dele. Enquanto ele, tímido, olhava para o filme. Inquietava-me não saber em que estava a pensar. Se estava a sentir a minha respiração ansiosa no pescoço dele.

-Claro que sim. Não sejas tonta.

Pensava eu para mim. Enquanto imaginava os lábios dele a dizerem-me isso mesmo.

-Não sejas tonta.

E eu não sou tonta nenhuma. Quero apenas que ele se vire e me abrace. Que me agarre na mão e me diga

-Nunca mais a vou largar.

Eu a sorrir. Como quem sorri no filme. Ele a abraçar-me, tímido. A virar-se para mim. E é então que, tal como no filme, atingimos o clímax. Um beijo. Aquele beijo com que tenho sonhado uma vida inteira. Aquele beijo que me tem sido adiado devido às gripes alheias. É nesse momento que o imagino deitado numa maca, de peito aberto e coração de fora. O meu nome lá no meio. Gravado, como uma tatuagem. Quem me dera saber o que lhe vai na cabeça. Se realmente me quer para sempre, ou se, por outro lado, se vai levantar a meio do filme para nunca mais voltar.

PedRodrigues