quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Crónica(?) ao espelho: adeus dois mil e doze, olá dois mil e treze


Onde andaste tu?
Onde andas tu?
Para onde vais?
Qual é o motor que te move?

Falas de tantas coisas. Escreves que te desunhas. Mordes os lábios quando o texto teima em não se formar. Sofres. Sofres tanto.

Que dor é essa?

Acreditas no amor. Acreditas que o amor é a cura para todos os males. Amaste. Amas. Continuarás a amar. Amas mesmo. Amas mais. Lutas até caíres e, quando cais, teimas em levantar-te – sempre. Esmurras o chão, abres o peito, gritas. Gritas até que a voz te falhe, e mesmo sem voz continuas a gritar – mudo. Ouves baladas de amor durante as viagens de carro e de comboio. Olhas pelo vidro e sonhas que o amor é fácil. Iludes-te. É normal. Todos nos iludimos uma vez por outra. Todos sonhamos que os amores nascem nas árvores. Todos sonhamos que podemos plantar o amor, regar o amor, ver o amor crescer. Todos sonhamos - e tu tens tantos sonhos. Sonhas com mulheres. Sonhas com uma mulher no meio de tantas mulheres. Mulheres de lábios vibrantes cor de sangue. Mulheres de olhos hipnotizantes cor de safira. Mulheres de cabelos de seda. Tantas, tão belas.

Onde andaste tu?
Onde andas tu?
Para onde vais?

Procura-te. Encontra-te. Perde-te. Segue de cabeça erguida. Não olhes para trás. O que passou, passou. Segue em frente. Não tenhas medo. Lembra-te: cada queda é uma oportunidade para te levantares. Não tenhas vergonha: todos caímos.

Qual é o motor que te move?

Dá o teu melhor. Dá o teu pior. Dá-te. Ri mais, chora mais, crê mais, ama mais. Sê mais. Deixa que te guiem. Deixa que te digam. Deixa que te oiçam. Permite-te estar no mundo. Sê esse mundo. Sê o mundo de alguém. Permite que alguém seja o teu mundo. Ninguém é especial sozinho – digo-te e repito-te. Somos aquilo que nos permitimos ser. Somos aquilo que nos permitimos ser aos olhos dos outros. Não acredites em olhos que mentem. Não acredites em bocas que falam sem saber. Ouve-te primeiro. Ouve o teu coração primeiro. Nem sempre estamos certos – mas nem sempre estamos errados. Ouve o teu coração. Ouve o coração dos outros. Há tanta coisa que nos escapa. Tantas madrugadas líquidas que se dissipam com as horas. Tantos dias de sol que nos passam despercebidos. Teimamos em deixar a vida passar por nós. Embarca na vida. Não tenhas medo.

Para onde vais?

Vai para onde te leva o amor. Mesmo que esse amor te pareça estranho. Sabes, temos toneladas de amor entre nós. E eu acabo por pensar que o problema é mesmo esse. São estas paredes que construímos com todo esse excesso que acabam por nos separar. O amor é esta coisa estranha. Em demasia pode matar e em escassez pode levar à loucura. Mas, na quantidade certa, é capaz de te fazer mover montanhas. Vai para onde te leva o amor.

Onde andaste tu?

Atravessaste o deserto onde te deixaram. Hoje estás mais maduro. Hoje estás mais feliz. Hoje estás a caminho das estrelas.

Segue em frente. Não olhes para trás.
Permite-te
Dá-te
Transforma-te
E, quando olhares para dentro de ti, serás o melhor que podes ser.
Acredita!

PedRodrigues


sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Dez minutos para o fim do mundo


Estavam os dois sentados à beira do precipício e olhavam-se, cúmplices, como se tivessem vivido o suficiente para saberem todos os segredos um do outro. O mundo desmoronava-se a cada minuto que passava. Caía: uma pedra de cada vez, uma montanha de cada vez, uma pessoa de cada vez, um coração de cada vez. Faltavam dez minutos para o fim do mundo. Dez minutos para que tudo terminasse. Uma vida, um amor, uma jornada: em dez minutos tudo isso seria nada e todo esse nada não seria mais que esquecimento. O universo continuaria sem eles. O universo continuaria sem o amor deles. E como podia o universo continuar sem o motor que o movia? Um dia eles julgaram que o amor deles fazia continuar o universo. E talvez fosse realmente o amor deles - e o amor dos corações que amam - que continuava o universo. Naquele momento tudo o que ficou para trás sabia a pouco. Tudo o que fizeram sabia a pouco. Tudo o que ele queria

-Continuar-me

Tudo o que ela queria

-Continuar-me contigo

Tudo isso parecia pouco. Tudo isso era nada – ou viria a ser nada. Ali estavam eles: na beira do mundo, prestes a tornarem-se em esquecimento. Quem se iria lembrar deles? Quem se iria lembrar que um dia o amor deles existiu? Será que as memórias ficam gravadas nas estrelas? Seriam eles as próprias estrelas? Tantas perguntas. Tanta coisa que ficou por saber, por dizer, por descobrir, por inventar. Acabar com o mundo.

-Os amores deviam ser eternos, não deviam?

(Ela a aninhar-se no ombro dele. A sussurrar entre os cabelos.)

-Quem te garante que os amores não são eternos?

Na cabeça dele a pergunta dela não fazia sentido. Ele não acreditava na eternidade. Acreditava que tudo durava até um dia, mas acreditava também que as coisas são feitas da pequena eternidade que duram. Há eternidades nos segundos: o segundo de um beijo é eterno; o segundo de um amor é eterno. Tudo acaba um dia, mas tudo o que vale a pena, tudo o que nos faz realmente felizes, dura o tempo suficiente para nos parecer uma eternidade.

-Eras capaz de morrer por amor?

Ele

-Todos morremos por amor…

Eis a grande verdade do mundo e das coisas que existem no mundo: todos morremos por amor. Há sempre parte de nós que morre por amor - e por vezes essa parte acaba por ser um todo. O mundo rege-se pelas leis deste amor. Do amor que mata, que mutila, que estilhaça. Há corações estilhaçados por amor: mil pedaços perdidos pelo mundo. No segundo em que o mundo acabar, naquele derradeiro segundo, milhares de corações estilhaçados acabarão com ele. Todos morremos por amor. Todos morremos por amor. Todos morremos. Todos amamos. E, talvez por isso, todos tenhamos esta sensação de que somos eternos. Um segundo de amor. Basta um segundo. Somos eternos nesse segundo.

-São dez segundos de queda livre. Dez segundos para morrermos por amor.

Dez segundos separavam-nos da morte que mereciam. O amor deles acabaria ali. Depois do amor deles, acabaria o mundo. Ninguém se lembraria que um dia eles morreram por amor, mas naqueles dez segundos de queda livre, antes dos corpos se despenharem contra as rochas e se estilhaçarem como corações pelo mundo, eles seriam eternos. A memória do amor deles viveria até ao último segundo. Até ao último milésimo de segundo. Depois disso, o negro do universo encarregar-se-ia de os esquecer.

-Quanto tempo dura o amor?

(Ele apertou-lhe a mão com força, antes de se lançarem.)

-Por ti? Uma vida e dez segundos.

Acredito que, se a eternidade existisse, o amor deles seria eterno.

PedRodrigues

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

O último capítulo


Devia ter fugido de ti a sete pés quando disseste

-O amor e a felicidade compram-se

Mas naquela altura tudo o que dizias saía de veludo da tua boca e caía gentilmente dentro de mim. Nada me incomodava. Nada me importava. Podiam dizer o que quisessem sobre ti

-É complicada, mimada, bruta…

Podiam dizer o que quisessem. Para mim tu eras aquela que via e mais nenhuma. Eras aquela e só aquela. Eras um quadro que pintava. Um fogo-de-artifício que explodia de cores e me deixava estático a admirar-te. Eras linda, maravilhosa, fantástica, única. Prendias-me a ti de uma forma estranha. Ainda hoje me prendes e talvez por isso te escreva este capítulo final e te prometa que, daqui para a frente, nada: nem um parágrafo, nem uma frase, nem uma palavra. Esgotei o que tinha de mim para esgotar. Conseguiste esgotar-me. Conseguiste prender-me. Conseguiste

-Amo-te

Que dissesse isto. E no dia em que o disse também devia ter fugido de ti a sete pés. Aliás, fugi mesmo. Percorri o Bairro Alto sozinho para te fugir. Olhei duas vezes para trás, ao fazê-lo. Em nenhuma delas apareceste e na minha cabeça tudo estava confuso da bebida e da raiva daquele momento. Sentei-me à espera que passasse um táxi e nesse entretanto chegaste de rosto carregado a olhar para mim e a dar-me a mão. Resisti aos teus encantos e virei-te a cara. Mas como virar a cara a quem amamos secretamente? Como aguentar todo aquele conjunto de forças contraditórias que ditam a passagem desta coisa, a que chamamos de “Felicidade”, por nós? Não aguentamos, a verdade é essa. Assim sendo olhei-te nos olhos e perguntei-te

-O que sabes sobre mim?

Enquanto que tu, – desta vez tu – estática, olhavas para mim. Não estava em pleno domínio de todas as minhas faculdades, mas a verdade é que conseguia notar o espanto na tua expressão. Levantaste as sobrancelhas e fizeste aquela coisa que fazes com os lábios sempre que és apanhada de surpresa. Respondeste como respondem todas as pessoas que são apanhadas numa situação deste género

-Oh Pedro…

Ainda hoje me recordo de como deixaste de me olhar nos olhos e te perdeste a contemplar as pedras da calçada

-Olha para mim e diz-me o que sabes sobre mim

Tu, a medo

-Sei tantas coisas…

No meu âmago sabia que me mentias porque quem sabe não guarda, especialmente naqueles momentos. Sabia que mentias, mas sabia também que gostavas o suficiente de mim para não me deixares partir. Sei que só vieste ao meu encontro porque um dos nossos amigos te disse que eu era capaz de apanhar o primeiro comboio e deixar-te sozinha por Lisboa. Sei que nada disso importa e que logo após toda esta batalha entre amores e desamores acabaste por me jurar amor e eu segui-te os passos. Disse que te amava e não me arrependo de o ter feito. Foste a primeira a quem o disse. Continuarás a ser a primeira até ao resto da minha vida, e talvez por isso sejas aquela que me custará a esquecer - até ao resto da minha vida. Talvez o melhor seja reformular porque na realidade será impossível esquecer-te. Foste, és e serás a primeira. Serás a maior ferida de todas as batalhas. Serás o meu primeiro

-Amo-te

Gostaria de usar a palavra “gastar”, mas não acredito que gastei nada contigo. Foi bom, fomos bons, poderíamos ainda ser bons, neste momento. Não nos tiro o mérito, mas não nos meto num pedestal. Morremos. Morreste-me. Morri-te. Dói-me tanto que não imaginas. Pensar assim dói-me muito. Pior ainda porque continuo sem entender o porquê da nossa morte. Mas o facto é este: morremos. Hoje tens todas as razões para não me falar. Cometi um dos piores erros da minha vida quando me meti onde não era chamado - após a nossa morte. Não te peço que me perdoes por tê-lo feito. A ignorância nestas coisas do amor pode levar qualquer um à loucura. Tu deixaste-me na ignorância e desde o dia em que acabámos que me trataste com indiferença. Não sei se fui assim tão mau para ti, se te terei feito perder mais de um ano comigo, mas acho não ter sido esse o caso. Não entendo o porquê de me empurrares à força para fora. Não entendo o porquê dos meses de silêncio sem fim: aos meus textos, às minhas mensagens – até mesmo à de parabéns. Não entendo o porquê de correres para os braços de outros homens. Não entendo. E talvez por não entender ande aqui todo estilhaçado. Sinto-me feito de pó: o pó que sobrou da nossa luta. Talvez por isso tantas mulheres

-Esquece-a

Ou

-Segue em frente

Ou até

-Eu ajudo-te a esquecê-la

Talvez por isso se entreguem a mim, mas eu não lhes consiga dar nada em troca. Deixaste-me assim: partido, mutilado, só, depressivo. Deixaste-me na merda.
Lembras-te de quando me disseste

-Eu era cínica em relação ao amor, mas tu apareceste e mudaste isso

Às vezes tinhas destas coisas. Quando pensava que eras demasiado fria, quando me perguntava se a nossa relação fazia sentido, tinhas sempre uma maneira especial de me surpreender: desenhavas corações nas paredes, escrevias-me papelinhos com juras de amor, apimentavas as coisas durante o sexo. Surpreendias-me e eu ficava rendido. Sorria. Sorria muito. Era feliz. Era muito feliz. Apesar de tudo, apesar das diferenças, da forma como me tratavas em público, apesar das frases e dos gestos menos felizes: contigo, só contigo, fui feliz. Talvez por isso me custe tanto, hoje, três meses e alguns dias após a última vez que te falei, escrever este último capítulo sobre ti – sobre nós. Custa-me, mas preciso de o fazer. A nossa relação terminou de forma abrupta. Terminou da pior forma possível. E sempre que julgo que estamos enterrados, há um novo capítulo que salta da boca de alguém e me mata mais um bocadinho.
(Há coisas que não te perdoo e a falta de sinceridade é uma delas.)
De maneira que preciso de um final. Um final a sério. Tenho por obrigação enterrar-nos debaixo de sete palmos de entulho amoroso. Tenho por obrigação seguir em frente e ser feliz – sem ti. Vou amar-te até um dia, mas hoje, para meu bem, preciso de escrever o seguinte:

FIM

PedRodrigues

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Montanhas-russas


No outro dia enquanto mudava os lençóis da minha cama lembrei-me de ti. Lembrei-me de ti porque vi um fio dos teus cabelos que teimava em incrustar-se no tecido. Há dois meses que não mudava fosse o que fosse neste quarto. Tinha medo de mudar-te. Tinha medo de mudar-te de lugar. Tinha medo. Mesmo sabendo que já não estás. Mesmo sabendo que já não te importas. Mesmo sabendo que não sei o que é feito de ti. Tinha medo. Mudava os lençóis e o meu coração saltava uma batida. Mudava a mesinha de cabeceira e o meu coração saltava uma batida. Guardava as nossas fotografias e o resto dos destroços da nossa relação e tu teimavas em fazer o meu coração saltar uma batida.
Nesse dia, ao falar com uma amiga, confessava-lhe

-Namorar com ela era como andar numa montanha-russa

De sorriso disfarçado entre as expressões de tristeza e indiferença que todos evidenciamos nestas alturas. Ela olhava-me com ternura e repreensão. Dizia-me

-Não sabes se lhe hás-de fazer o luto, ou correr-lhe novamente para os braços

E na verdade não sabia. Continuo sem saber. Quando julgo que te esqueço, apareces-me à frente e volta tudo à estaca zero. Tens a mania de te deixar ficar no meu peito. Tens a mania de te demorar a sair. Tens a mania de me incomodar. Namorar contigo era como andar numa montanha-russa. Era excitante, eufórico, vertiginoso e apavorante. Não namorar contigo obriga-me a ressacar por ti. De maneira que não sei o que será melhor. Não sei se te faça o luto e te enterre debaixo de sete palmos de entulho amoroso, ou te corra para os braços e te peça permissão para embarcar numa nova viagem. 

-Não sei que fazer. Juro que não sei que fazer…

A minha amiga

-Consegues imaginar uma vida inteira ao lado dela?

Eu, de sobrolho em riste, a pensar nos prós e nos contras da questão

-As montanhas-russas também cansam…

Por muito que quisesse não te conseguia imaginar ao meu lado durante uma vida inteira. Todos precisamos de estabilidade. Um dia a euforia esgota-se, a excitação torna-se em cansaço e a vertigem torna-se demasiado grande para ser suportada. Todos precisamos de um pouco de estabilidade. Todos precisamos de um factor de equilíbrio. É irónico o amor. Nem sempre aquilo que desejamos é aquilo que nos faz bem. Nem sempre aquilo que nos fascina é aquilo que nos faz ficar.

-As montanhas-russas também cansam, e eu estou cansado

O coração é irónico, tem-me dado o cérebro para equilibrar. Não sei se ainda te amo, ou se tenho saudades de te amar.

PedRodrigues

 (Crónica da edição de Dezembro da revista Algarve Mais)