quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Não estás, meu amor?

Há seis meses que estamos juntos. Seis meses que contados em dias, em horas, em minutos, em segundos parecem uma eternidade. Olhamos para trás e tudo parece tão distante: o primeiro olhar, o primeiro beijo, o primeiro sorriso, o primeiro toque. Tudo isso se multiplicou. Repetimos mil vezes os mesmos gestos. Mil e uma, mil e duas, mil e três: não nos cansamos de os repetir. E isso é tão bom.
Trago-te nos meus dias, assim como tu me trazes nos teus. Trago-te porque me fazes bem. Porque, neste momento, por mais que quisesse imaginar-me sem ti, não conseguiria. Os dias que passo contigo, são dias de felicidade. Ver-te sorrir faz-me bem. Às vezes – e isto tu não sabes – invento textos enquanto olho para ti. Invento-os e guardo-os para mim. É um acto egoísta da minha parte, mas não gosto de te partilhar. Sei que, ao leres isto, vais achar que esta é uma daquelas liberdades que às vezes tomo nos textos, mas não é. Na minha cabeça escrevo histórias paralelas à nossa história. Depois sorrio baixinho, por dentro, para que ninguém saiba, nem mesmo tu, que nos estou a escrever de mãos dadas ao longo do tempo.
Agora que estou aqui sozinho a escrever sobre nós, a saudade resolveu aparecer. Olhei para o teu lado da cama e lembrei-me que ainda ontem acordaste junto a mim. Sorri. Foi um sorriso de saudade. Como se te conseguisse materializar aqui, encostada ao meu peito. Não consigo. Mas posso pensar em ti. E isso reconforta-me e deixa-me feliz. Porque sei que, desse lado, ao leres este texto, também estás a pensar em mim. Não estás, meu amor?


PedRodrigues

domingo, 20 de outubro de 2013

Para bom amor, meio coração não basta

Pede um amor por encomenda. Mete no correio uma carta. Espera que te respondam. Procura o amor pelas ruas. No canto dos pássaros. Nas folhas castanhas caídas no chão. Procura o amor nas entrelinhas. Nos pontos finais. Nas vírgulas. Nas reticências. Escolhe as letras certas para soletrar o amor

-A-m-o-r

Repete novamente, sílaba a sílaba

-A-mor

Escolhe o nome de quem amas e junta-lhe amor. Cria frases, cria histórias, tranforma-te, reiventa-te. Sê feliz. Procura essa felicidade nos mais pequenos gestos. Nos delírios do dia a dia. Sê feliz. Mesmo que tudo pareça uma merda. Mesmo que te digam que é impossível, que a vida é uma desilusão, que as coisas são sempre iguais e que já não há volta a dar. Sê a diferença. Pensa para ti: incógnita ou constante? Reflecte bem. Diz

-Incógnita.

Repete

-Incógnita.

Com convicção, bem alto, repete

-Incógnita!

Agora que és a diferença, procura o amor. Se não o encontrares, pede um pelo correio. Pede um coração pelo correio. Um que venha inteiro. Não procures metades. Não queiras metades, porque tu mereces tudo. Lembra-te: para bom amor, meio coração não basta. Para bom amor, coração inteiro. E tu tens um coração inteiro. Mesmo que tenha uma ou outra chaga. Mesmo que esteja maltratado. Mesmo que te leve a cometer loucuras. Sê louco. Dá-te ao amor. Dá-te ao amor inteiro, de coração inteiro. Escreve uma frase com o nome de quem amas e a palavra amor. Mete-te nessa frase. Ri com essa frase. Mesmo que um dia voltes a chorar. Ri com essa frase. Mesmo que te digam para não rires, porque o amor é uma merda. Ri com essa frase. Mereces. Finta os obstáculos que aparecem no teu caminho. Grita-te bem alto ao mundo. Para que te oiçam. Para que não te esqueçam. Tens muito para dizer. Tens muito para fazer. Dá a mão a quem amas. Olha bem no fundo dos olhos dessa pessoa. Decora-lhe os traços. Fixa o momento. Espera pela luz certa. Aperta-lhe a mão gentilmente. Espera pelo

-Diz

E nesse momento, só nesse momento, avança

-Que queres que diga se só posso dizer que gosto de ti?

Espera pelo sorriso. Decora esse sorriso. Guarda-o para ti como se fosse a coisa mais preciosa do mundo – porque no fundo é mesmo. Dá-lhe um beijo. Dá-lhe um abraço. Sente o tamborilar dos corações. Aí tens o teu amor por encomenda. De coração inteiro. Feito à tua medida. A vida é feita de instantes – nunca te esqueças. Quando os profetas da desgraça te quiserem desanimar, lembra-os que estão a um instante de serem felizes. Não custa nada: basta acreditarem e darem o primeiro passo.

PedRodrigues


quarta-feira, 16 de outubro de 2013

A Serenata

Lembro-me da mão do meu padrinho poisada no meu ombro. À minha volta um mar de capas negras. Sentia-me perdido. Naquele momento não entendia nada. Tinha acabado de chegar. Tinha acabado de entrar numa realidade à qual, até ali, não pertencia. Então os primeiros acordes das guitarras fizeram-se sentir. O meu estômago contraiu-se, os meus olhos ganharam vida própria, o meu coração saltou umas quantas batidas. Deixei-me levar pelas vozes que cantavam o teu nome ao vento. Entendi, ali, que há um tempo que ficará comigo para vida, mas que não voltará. Comecei a olhar-te, Coimbra, como mais que uma simples cidade. Havia – aliás, há - algo mais em ti: mistério, aventura, amores, desamores, derrotas, vitórias. Ali, naquele momento, entendi verdadeiramente o que é sentir-te nas veias. És, de facto, mais que uma simples cidade. Agradeço todos os dias os caminhos que me trouxeram até ti. Apesar de todos os passos em falso e das lágrimas choradas, é com enorme alegria que te olho vestida com as cores da lua. Sei que sou apenas mais um dos teus filhos, mas sei, também, que nos amas de igual modo. Hoje receberás mais alguns no teu regaço. Espero que, tal como eu, eles percebam que hoje começa o resto das suas vidas. Recebe-os com carinho. Dá-lhes tempo. Ensina-os. Amadurece-os. Deixa-os viver. Deixa-os sentir. Deixa-os sentir-te. E ao olharem para ti, no momento da partida, eles perceberão: Coimbra não se explica, sente-se.

"Capa negra de saudade
No momento da partida
Segredos desta cidade
Levo comigo p'rá vida"

PedRodrigues



quarta-feira, 9 de outubro de 2013

A consequência das escovas de dentes

Gosto de pensar que o mundo não é apenas o que acontece à nossa volta. Que há um sentido romântico em vários acontecimentos. Que, se realmente vivermos atentos, há pormenores que definem vários substantivos – sem que seja necessário abrirmos um dicionário para procurar o seu significado. Tenho para mim que a atenção ao detalhe faz de nós pessoas melhores. Que entender é melhor que não entender. Olhar com atenção é uma forma de mostrar amor por quem se ama. Querer perceber os vários significados de um sorriso, ou os trejeitos de um olhar, ou os tiques mais discretos é mostrar amor pela pessoa amada. São as pequenas coisas que definem os casais. A partilha das situações mais triviais do dia-a-dia define o nosso nível de compromisso. É talvez por isso que sorrio baixinho sempre que vejo a escova de dentes dela misturada com a minha. Sinto que, esse namoro das escovas de dentes, define o nosso namoro. Gosto de pensar que há, realmente, um sentido romântico neste pequeno pormenor. Que o simples facto dela ter deixado a escova por aqui, me fez perceber que sonha acordar amanhã ao meu lado - e depois de amanhã, e depois de depois de amanhã, e assim sucessivamente até ao fim dos nossos dias. Todos os actos têm consequências e, neste caso, gosto de pensar que a consequência das escovas de dentes é um amor para vida. O ponto de partida para uma longa jornada. O primeiro grande acto – num pormenor tão pequeno. É que isto dos amores é uma coisa simples que nós tornamos complicada. Numa relação para a vida não basta querermos adormecer juntos, também temos de querer acordar juntos. Partilhar as olheiras, o mau-hálito matinal, as ramelas, os bocejos. Partilharmo-nos no nosso estado mais vulnerável. O amor é mesmo isso: partilharmo-nos no nosso estado mais vulnerável. Não é?


PedRodrigues