quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Física Quântica

Amor, 

Lembrei-me de ti no outro dia, enquanto folheava um dos meus livros de física e o título “Entrelaçamento Quântico” me fez parar um pouco, respirar, e perder-me em concepções românticas de textos e frases. Segundo o que li, o entrelaçamento quântico é um fenómeno da física quântica em que dois ou mais objectos estão de alguma forma tão ligados que um não pode ser descrito sem que o outro seja mencionado. Pode haver um universo a separar esses dois objectos, essas duas partículas, esses dois bocados ínfimos de matéria, mas eles estão tão ligados que, as medidas utilizadas num influenciam instantaneamente o outro. Algo deste género, quase surreal.
Ao ler isto, vezes sem conta, senti-te em mim. Senti-te nas minhas veias, a percorreres desenfreada o meu corpo. E apesar de desafiar toda a lógica e toda a razão, acreditei que eras realmente tu que vivias em mim. No início fomos partículas no vazio, interagindo e movimentando-nos em uníssono. Fomos partículas até o universo explodir e os sistemas evoluírem, cada um à sua maneira. Nós evoluímos com eles. E aqui estamos, tempos após o início dos tempos. Matéria da mesma matéria. Carne da mesma carne. Sangue do mesmo sangue. Não há razões para crermos que alguma vez perdemos o nosso entrelaçamento quântico – ao que parece, isso é algo que não se perde. Hoje, quando digo que me perco em ti, ou que te sinto perdida em mim, quando te digo que  te conheço desde o início dos tempos, digo-to com razões para crer que assim o é. Que há algo, para lá da própria lógica, que prova que estou certo.
Um dia fomos partículas a dançar um tango no vazio. Há partes em mim, átomos que fazem parte de mim, que continuam essa dança e te procuram, todos os dias, através do espaço e do tempo.

Estamos juntos desde o início,
Estaremos juntos até ao fim.


PedRodrigues



sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Pequenos contos


  • Todos os dias acordava ao lado dela. Sentia-se como se vivesse num sonho.


  • Adormecia a contar constelações nos olhos dela. Ela acordava com o brilho das estrelas que ele contava.


  • Guardava o cheiro da pele dela, como se guarda um tesouro. Porque, de facto, era.


  • Amava-o como uma louca. Não será essa a forma certa de amar?


  • Conheceram-se aleatoriamente e perceberam que estavam certos um para o outro.


  • Amou-o no primeiro momento que o viu. Ainda hoje o ama.


  • Comprou um cão e chamou-lhe Cupido. No início, o Cupido só fazia merda, mas com o tempo aprendeu a comportar-se.


  • O dia estava cinzento e chuvoso, mas ele decidiu, naquele momento, que estava na altura de ser feliz. Foi à janela e viu o arco-íris. Sorriu.


  • Entrou no comboio e olhou para ela. Mal sabia ele que aquela viagem mudaria a vida de ambos.


  • Não sabia o nome da flor favorita dela e decidiu-se por um beijo. Afinal, era essa a resposta certa.


  • A voz dele era a melodia certa para a vida dela.


  • Desligou o computador, poisou os óculos e desligou a luz. Fechou os olhos e sonhou com ela.


  • Todos os dias a via no metro. Era o ponto alto do dia dele.


  • Abraçaram-se, beijaram-se e nunca mais se largaram.


  • Na rua as pessoas falavam no dia dos namorados. Elas riam-se, cúmplices, porque, para eles, o dia dos namorados repetia-se todos os dias.


  • Tentaram desafiar a eternidade e viveram felizes para sempre.


  • Tinham medo de dar o primeiro passo. Ele era tímido. Ela já tinha sofrido nas mãos de alguns canalhas. Ficaram a olhar um para o outro, sem pressa. E, devagar, o amor chegou, o primeiro beijo chegou. Quem disse que é preciso viver depressa?


  • Na rua tinha a fama de ladrão de corações. Até que um dia ela roubou o dele.


  • Por ele, ela sentiu-se capaz de cometer uma loucura. Então amou-o.


  • Correu pela vida até tropeçar nela.


  • Escreveu-lhe um microconto: “Amo-te.”.

PedRodrigues

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Um dia, alguém fará das tripas coração, por ti

Um dia vais-te sentar, de olhos postos no vazio, e vais relembrar todos os momentos que te trouxeram até aqui. Vais lembrar o primeiro pôr do sol que viste com atenção, o primeiro amanhecer ao lado de alguém que amavas. Vais-te lembrar das gargalhadas nos dias quentes de Verão, dos filmes das tardes de Domingo, durante os dias chuvosos de Inverno. Vais-te recordar das batalhas travadas. Das guerras que venceste e das guerras em que saíste vencida. Um dia alguém te irá dizer novamente que te ama. Vais ficar de pé atrás. Vais pensar duas vezes. Vais-te lembrar do dia em que tudo aquilo que podia dar certo não deu. Vais-te lembrar do último momento em que o viste. As lágrimas choradas. As súplicas abafadas “fica não vás”, mas ele avançava até desaparecer, e tu, muda, continuavas “fica, não vás”. Ele foi e ficaste tu e o teu coração estilhaçado por todos os lugares em que foram felizes. Mas a vida avança. Tu, como todos nós, avanças com ela. E eventualmente alguém disparará novamente um “amo-te” na tua direcção. Tu tentarás desviar-te porque o teu coração ainda guarda as chagas de feridas anteriores. Desviar-te-ás até ele desistir, assumindo que, de facto, ele desistirá. Se ele te merecer não desistirá. Continuará a dizer “amo-te”. Dirá cem vezes, mil se realmente for necessário. E elaborará “amo tudo em ti, não só o que faz sentido, não só o que me mostras, amo tudo em ti, mesmo aquilo que não compreendo, mesmo aquilo que ainda não descobri, amo tudo em ti.”. Tu sorrirás. Começarás a ceder porque o coração quer. As chagas deixarão de fazer sentido e serão apenas recordações do caminho que te trouxe até aqui. Um dia alguém te irá dizer que tu não és apenas a sortuda que ganhou na lotaria do amor, tu és merecedora desse amor.
Um dia, alguém fará das tripas coração, por ti.
Um dia ela irá sobressair no meio da multidão. Olharás para ela, como se o resto do mundo não existisse. Sentirás um sorvedouro miudinho no peito. Esquecerás os teus amigos e as conversas de café. Sentirás uma vontade sufocante de dizer esse “amo-te” que tens guardado no peito. Terás tremores por todo o corpo. Levantar-te-ás do teu lugar e irás ter com ela. Não lhe dirás “olá, amo-te” e nada daquilo que digas te parecerá correcto. Ela olhar-te-á com algum desdém. Tu não desistirás. Passarás noites a sonhar com ela. Farás trinta por uma linha para conseguires o número de telemóvel dela. Não desistirás. Tens esse “amo-te” guardado há muito tempo. Agora percebes porquê. Depois de tantos namoricos casuais, de tantos amores de bolso: ei-la. Ela que te tirou o fôlego. Ela que parece feita de estrelas. Ela que te faz meter tudo em causa. Ela. Queres soltar esse “amo-te, fica comigo”. Só ela merece esse “amo-te, fica comigo”. Os teus amigos gozar-te-ão. Serás uma espécie rara no meio deles. Mas nada disso te incomodará. Por ela farás das tripas coração.
Um dia vocês relembrarão esse dia em que tudo mudou. Agora são mais que dois desconhecidos: são namorados, amantes, companheiros de armas, parceiros de crimes de cabeceira. Hoje são vocês os dois contra o mundo. E o mundo ajoelhou-se e rendeu-se perante vós.


PedRodrigues