domingo, 29 de junho de 2014

Outra crónica sobre o amor

Não querias o amor. Nunca procuraste o amor. Mas ele, teimoso, teimava em encontrar-te. Julgaste que lhe podias fugir. Que conseguias correr mais que ele. Um dia ele cansa-se, pensavas. O amor não se cansa – ao contrário de ti. E inventaste línguas para não dizeres o amor. Inventaste países para te refugiares e viveres de ti. Declaraste guerras a quem passava as tuas fronteiras. Renunciaste o gemido excitante do toque no corpo; o arrepio do orgasmo. Renunciaste a verdade escondida atrás dos lábios. Reinventaste o tempo para que nunca fosse o momento certo, o minuto certo. Quiseste com todas as forças que nada fosse como nos filmes do cinema. Apagaste todas as luzes para que não pudesses ver as caras que apaixonam. Calaste as vozes que gritavam dentro de ti e te pediam companhia. Tornaste-te cega e surda e muda. Quem não vê, quem não ouve e quem não diz, não pode amar, pensavas tu. Achavas que não havia mérito em jogos viciados. Achavas que o amor era um jogo viciado: perdias sempre. Não havia esperança. Um dia ele cansa-se, pensavas tu. Mas o amor não se cansa, já te disse. O amor encontra-te. E podes esconder-te na neblina da cidade, podes caminhar pelas ruas vazias de cabeça baixa, um dia ele encontra-te. Um dia o relógio marcará a hora certa. Levanta a cabeça, olha em frente: já está.


PedRodrigues   

terça-feira, 10 de junho de 2014

Poema do fim da tarde

Bate o fim da tarde na janela
E eu estou para aqui
A ver as tuas fotografias
A imaginar-me nelas
Com vontade de te tocar
Com vontade de te beijar
Com vontade de te dizer
Que és linda
Não o faço
Deixo-me ficar  a olhar-te
Esperando que um dia
Partilhes um fim de tarde
À janela
Comigo



PedRodrigues

terça-feira, 3 de junho de 2014

Poema de um amor altruísta


Tu dizes que gostas de mim
Mas há um mundo para lá de mim
E esse mundo também tem coisas boas
Perguntas-me se te estou a atirar aos lobos quando te falo desse mundo
Não estou
Quero-te por perto
À distância do meu toque
Longe dos lobos
Quero ser a tua casa
Mas não te posso obrigar a ficar
Se tiveres de partir, parte
Eu cá me hei-de aguentar
A tactear-te pelos cantos
Imaginando-nos felizes
Para sempre.

 

PedRodrigues

 

 

domingo, 1 de junho de 2014

Croniquinha em jeito de desabafo



E então descobri silêncios dentro do silêncio. Naquele dia, àquela hora, quando tudo o que queria era ouvir a tua voz junto ao meu ouvido. Descobri que há mais para lá do fim que aquilo que julgamos. Então fechei os olhos. Apertei as saudades misturadas entre os lençóis: tu não estavas. Há mais para lá do fim. Há o que fica de nós: sangue, suor, lágrimas. Então percebi que as lágrimas que choramos quando morre o amor são as que mais nos magoam. As lágrimas que choramos de saudade são as que mais nos pesam. Mas se vamos chorar, que choremos por algo que valha a pena. Naquele dia, àquela hora, tudo o que queria eras tu. Não a imagem de ti. Não a ilusão de ti. Não as memórias de ti. Queria-te. Como se quer o amor. Como se quer o sol que nos aquece depois do inverno gelado. Como se quer o sol. Não o sol com todos os raios que partilha com todo o mundo. Os únicos raios que me interessam, são aqueles que o sol partilha contigo e comigo. É deles que te falo. É deles que sinto falta. Então tento desligar-me um pouco para que te possa anular em mim. Porque tu vives em mim. E não quero a tua imagem, as tuas memórias, a ilusão de ti. Quero-te. Quero a tua mão a tactear o meu corpo como se fosse a primeira vez. Quero os teus lábios nos meus. Quero um segundo de ti. Quero uma vida de ti. Quero que, onde quer que estejas, procures por mim. Eu aqui ando à deriva, na esperança de te reencontrar.

 

PedRodrigues