sexta-feira, 27 de março de 2015

Lição de combate número um


E depois a luz arranja-se entre os buracos da persiana. Os sonhos arranjam-se por dentro, com vontade de nos juntar a eles para sempre. Mas temos de acordar. Abrir os olhos. Poisar os pés no chão. Não sentir a terra a girar: saber, apenas, que é assim. Há mais vida para lá dos sonhos. É esse, talvez, o flagelo da realidade. Não podemos abrir novamente os olhos quando as coisas não correm bem. A realidade é uma certeza dolorosa. Aqui, no chão, não há deuses que nos valham. Anjos que nos acudam. A terra gira. Somos forças dinâmicas, capazes de moldar a nossa realidade. Motores de carne e de ossos, movidos pela vontade. Nada na vida está perdido totalmente. Para o futuro há que aprender com o passado. Nada na vida se perde totalmente. Pelo menos, é a forma como eu olho para as coisas. Desejando reparar os erros do passado num futuro que ainda vou sonhando. Depois a luz teima em aparecer. Abro os olhos e percebo o poder do sonho e do tempo. As feridas que não nos matam, acabam por sarar. E um dia acabaremos por usar essas marcas com orgulho. Porque é isso que os guerreiros fazem. Mostram que venceram a morte, com um sorriso no rosto. Mostram que sangraram durante a batalha, mas venceram. E nós somos uns guerreiros do caraças, não somos?

 

PedRodrigues

sábado, 21 de março de 2015

Lembrei-me do amor, a esta hora da madrugada


Pensou: não há nada pior que alguém que te rasgue por dentro, alguém que te roube o melhor de ti, alguém que te apague o sorriso e a vontade. Nem sempre a vida é a direito. Os precipícios existem para nos despenharmos a duzentos quilómetros por hora, ou aprendermos a voar. As falhas são inevitáveis. Os erros são inevitáveis. O desamor é inevitável. Às vezes. Tantas vezes. A melhor forma de apagar quem dói é chegarmos à conclusão que não merecemos essa dor. Evitar. Erguer. Olhar em volta e percebermos a necessidade de voltar a respirar o ar puro que é a esperança. Acordar o sangue nas veias para que volte a vibrar pelo corpo. Preencher os vazios com a beleza dos dias que acontecem à nossa volta. Respirar. Com vontade genuína de viver. Sem fantochadas. Guardar as lágrimas na algibeira - se vamos chorar, que seja por algo, ou alguém, que valha a pena. Se vamos berrar que seja por alguém que nos queira ouvir. Se vamos amar que seja por alguém que mereça esse amor. Talvez porque a razão não escolhe. Talvez porque o coração não escolhe. Talvez porque depois de carregada, essa arma só pode ser disparada. Cuidado. Antes viver de amor, que morrer do mesmo. O cheiro das saudades não aparece na autópsia – dizem. E se tacteamos o precipício que seja para olhar os pássaros e aprender a voar. Quem sabe, meu amor, se não te encontro nesse voo rasante.

 

PedRodrigues

quinta-feira, 12 de março de 2015

Filmes de terror


Quando tudo acaba, julgamos conseguir enterrar o passado debaixo de sete palmos de entulho amoroso. Deixar no passado o passado e seguir em frente, sem olhar para trás. Mas os fantasmas das relações passadas teimam em assombrar-nos. Especialmente à noite, antes de adormecermos, quando o mundo parece silenciar e as únicas vozes que ouvimos vêm de dentro. É nesses momentos que temos tendência a despertar todos os monstros. As falhas no julgamento, os erros de interpretação, as palavras ditas a quente, as lágrimas choradas. Há restos dos amores passados que se vão arrastando por dentro, meio vivos, meio mortos. Ainda me falam em filmes de terror... Tenho um em rodagem no meu peito.

 

PedRodrigues

terça-feira, 10 de março de 2015

Aeroporto


 
Os aviões são máquinas de partir e de chegar. Monstros de lata com asas que engolem e cospem pessoas nos aeroportos. Aqui, tudo converge: pessoas, sentimentos, objectos. Há quem fique e quem vá. Quem não saiba o que lhe espera do outro lado. Quem tenha medo. Há quem sorria de nervosismo, ou com vontade de sorrir. Os que buscam essa adrenalina de conhecer, de partir em busca de algo. Aqui há quem chegue de longe. Há quem venha apenas visitar. Há lágrimas de despedida e lágrimas de chegada. Neste ponto, tudo parece colidir. Tudo parece caber neste espaço.
A saudade é uma distância que nos une enquanto nos separa. Um vazio miudinho que nada preenche. Aqui há abraços entre pais e filhos, feições alegres e gritos enérgicos de quem espera e quem chega; lágrimas e juras de telefonemas diários, para acalmar essa vertigem da separação, mais abraços apertados que infelizmente têm um limite.
Talvez porque nada é eterno. Talvez porque tudo acaba.
Ouve-se a voz sem dono que ecoa nas vidraças e nos corações de quem ainda está. Vai partir, vai chegar. Voo atrasado de Londres. Falta pouco. O tempo é uma coisa muito grande que nos engole. O mundo nem sempre é um T0. Às vezes o mundo é só o mundo. Algo que não cabe nas nossas mãos. A possibilidade do regresso acompanha quem parte e quem fica. Um dia, pensa-se. Voltar é um verbo necessário para quem parte.
Neste local tudo converge. Sentado, aguardo a minha vez. Olho em volta: lágrimas, sorrisos, gritos, abraços, malas, pessoas, Paris, Madrid, Londres, Roma, Boston, Luanda... Imagino-me parte de tudo isto. Os dias contados para ser feliz. Os dias contados para voltar a pisar este chão. Invade-me esse frio na barriga: o medo da partida. E choro. Não de alegria. Não de tristeza. Choro por este chão que conheço e que teima em fugir.
 
 
PedRodrigues