sábado, 31 de outubro de 2015

Meteorologia


Passeio pelas ruas, assobiando e exorcizando os pensamentos que me atormentam. Por todo o lado, o teu nome em placas e néons  que iluminam a noite densa. Na meteorologia, previsões de aguaceiros fortes em todo o litoral. No entanto, nem um pingo. Nada. O tempo é imprevisível. A vontade também. Saí de casa na esperança de te dizer que acabou e agora tudo o que quero é abraçar-te. A vontade é passageira, o amor não. O amor é uma montanha-russa: deixa-nos sempre na expectativa de uma descida vertiginosa, durante a euforia da subida. Há os que fecham os olhos com medo. E os que os abrem violentamente, viciados na adrenalina. Não sei qual deles sou. Saí de casa a assobiar, decorando a cidade com o teu nome e inventando novas formas de terminar a nossa viagem. Não consegui. Estou à tua porta e começou a chover. Dás-me abrigo no teu abraço?

 

 

PedRodrigues

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

M. de Outono


De todos os Outonos que caem do céu, em chuva, lá fora, quero-te a ti. Tu, com os teus cabelos que se perdem entre as cores das folhas deixadas pelas árvores e a esperança de um espaço partilhado a dois no meio da tempestade. Lá fora tudo remexe e se desfaz. Tudo se prepara para novas noites de frio e aguaceiros. Novos finais, novos começos. Cá dentro, entre os lençóis, o barulho da chuva. O telemóvel pousado ao meu lado na expectativa das tuas palavras. Um silêncio enorme. Só o vento e o martelar dos dedos no teclado. Vou dedilhando o que sinto pelo teu sorriso cor de pérola que, se fosse poeta, diria que acontece velozmente. Não sei o que desse lado tu pensas da chuva, nem do Outono, nem do Inverno, nem de mim. Talvez me vejas ao longe, como uma possibilidade distante de algo. “Talvez”, pensas tu. “Talvez”, também eu penso. A vida é matreira e vai pregando partidas. O coração ainda bate, mas já foi cosido algumas vezes. As marcas servem para lembrar, especialmente nestes casos. Se eu fosse a chuva, não tinha medo do chão. Todos acabamos por nos despenhar em alguém. Talvez o meu Outono sejas tu. Talvez o teu Outono seja eu. Não sei. Preciso de o ouvir da tua boca. Gritado entre o barulho do vento e do céu chorado. Das sete cores do arco-íris, escolho as tuas. De todos os beijos do mundo escolho os teus.
Basta me dares a mão e dizeres que sim.

 

PedRodrigues

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Há pessoas

Há pessoas de chegar,
e pessoas de partir.
Entre umas e outras,
há as pessoas que,
de facto, nos interessam:
há pessoas de ficar.

PedRodrigues

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Amor vs Relações


No outro dia, enquanto vinha no metro, vi um casal de jovens, pareciam-me namorados, cada um no seu banco, agarrado ao seu telemóvel, a sorrir de soslaio para o ecrã. Ao olhar em volta, vi um casal idoso, com muitas rugas partilhadas, de mãos dadas, a conversarem, muito felizes. Reparei, nesse momento, que há um abismo enorme entre o amor e uma relação. Talvez não seja um problema de gerações. Mas eu pergunto-me: onde está o amor? Já ninguém o procura. Já ninguém o quer. Depois lembro-me de outras pessoas, noutros lugares e imagino que esteja muito na moda ter uma relação: construir algo estável ao lado de alguém. Nada contra. Mas onde está a vertigem do sentimento? O viver no fio da navalha? A necessidade de descoberta e a adrenalina da queda livre? Partilhar tudo isto com alguém. Pergunto-me: de que será feita a vida amorfa desses casais? Será que se divertem a contar borbotos em silêncio? Não se olham nos olhos. Não se beijam com vontade – um beijinho na cara, sem jeito. Nada para além do estritamente necessário. Pensamentos pecaminosos com os colegas de trabalho. Falas às escondidas nas redes sociais. Tudo muito ao lado. Tudo muito forçado. Tudo muito feito das necessidades do quotidiano. Parece que já não há amor: há a conta da luz, a conta do gás, a conta da água e a renda de casa para pagar. E o amor que se amanhe no canto dele, escondido entre os borbotos que teimam em se multiplicar.

 

PedRodrigues

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

O casamento


De longe olhamos momentos que, embora sejam também nossos, não o são totalmente. Pertencem a outros, com toda a bagagem que os outros souberam guardar e juntar ao longo do tempo. Ao longe somos apenas espectadores atentos. Pessoas que podem chorar ou arrepiar-se com as palavras e os gestos. Vi aquele beijo como um desses gestos. Uma leveza lindíssima entre a testa dela e os lábios dele. Vi a forma como ela lhe ofereceu esses centímetros de si e, nesses centímetros, toda ela estava a entregar-se ao beijo dele. Vi, ali, o mais belo sinal de respeito entre duas pessoas. A inocência de um simples beijo, a sinceridade, a jura de vermelho sangue para a vida. Talvez o tempo, essa coisa que se move sem darmos conta, desgaste esse beijo. Talvez haja guerras, momentos menos bons. Mas acredito firmemente na força dinâmica daquele beijo. O vestido branco, o laço dele. Os sorrisos. A alegria de todos os que os rodeavam naquele momento. Há momentos que, embora sejam também nossos, não o são totalmente. Talvez mais ninguém tenha reparado na sinceridade do gesto. Encararam como apenas um símbolo necessário para lacrar a legalidade da cerimónia. Mas eu vi. E acredito na intemporalidade destas coisas. O amor está escondido nas trivialidades do dia a dia. É nas pequenas coisas que ele se decide. Um dia o vestido, o laço, as cores garridas dos convidados serão apenas recordações. Fica apenas o beijo. A repetição diária dessa coisa que parece tão pequena e, no entanto, é grande o suficiente para ligar duas pessoas uma vida inteira.

 
PedRodrigues

domingo, 4 de outubro de 2015

Domingo eleitoral


Há pouco, enquanto exercia o meu direito de voto e olhava, apalermado, para a quantidade de quadrados disponíveis naquela folha, percebi a prisão em que vivemos. Não vivi no tempo da ditadura, portanto não sei o que isso é. Vivo numa outra geração. Uma geração pálida, formatada pelas televisões e pelos meios informáticos. Somos livres e, no entanto, estamos tão presos. Não tenho o direito de fazer comparações, daí não as fazer. Falo neste momento. Na escuridão em que vivemos. O problema desta escuridão é que qualquer vestígio de luz pode parecer a solução. Não é. Aliás, pensar assim é demasiado perigoso. Nem sempre a primeira luz, depois da escuridão, nos aponta o caminho. É aí que entra a nossa consciência. É aí que entra a necessidade de olhar, pensar, agir. Falam-nos de esquerda e direita. Falam-nos em orçamentos de estado e outras coisas que parecem muito concretas e, no fundo, são demasiado abstractas. O que eu vejo – e repito, para que leiam bem: o que eu vejo – é uma prisão num pedaço de papel. Se fossemos, mesmo, livres, o boletim de voto não teria não sei quantos quadrados desejosos de uma cruz. Seria uma folha em branco. Eles que são o problema, acenam-nos com a ideia que são a solução. Serão? Não me vejo como um anarquista. Não o sou. Mas tenho plena consciência do terror escondido atrás das cores políticas. Tenho consciência dos que sofrem todos os dias. E dos outros que vivem no topo das suas torres de marfim, com todas as regalias, alheios ao que se passa cá em baixo. Não votar não é uma opção. Mas quando todas as opções são más, em quem hei-de eu votar?
Cuidado com a luz. Oxalá ela não nos cegue.

 

PedRodrigues