sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Aos snobs


Não sou destas coisas. Gosto pouco de tratar como diamante os pedaços de vidro que me tentam cortar. Mas achei pertinente. Talvez por estar cansado de lidar com Sábios do Sião, que se acham demasiado acima de todos os outros, a olharem do alto das suas torres de marfim, enquanto bebericam o seu cálice de vinho quente. Os snobs quase-alternativos que se acham tão distantes de tudo. Sempre sabedores da mais profunda cultura, à qual só eles chegam. Os fãs incondicionais de tudo o que é menos conhecido, tudo o que foge às massas. Os tais redondos em formas quadradas, ou vice-versa. Que recitam a poesia dos autores mais indigentes, perdida pela internet, e passam a imagem de conseguirem falar horas sobre a literatura russa do século dezanove, ou os grandes pensadores franceses, escondendo no seu íntimo o facto de que a última obra mais extensa que leram foi a bula do psicotrópico tomado antes de um concerto qualquer, numa garagem qualquer, fora do alcance dos restantes mortais. São esses os mesmos snobs que usam as redes sociais – e talvez entre aqui a maior de todas as ironias – para criticar tudo o que julgam chocar com a sua cultura refinada. O meu único desconsolo, no meio de todo este aparato, é que essas mesmas criaturas místicas ainda não se tenham apercebido de uma estranha coincidência: respirar é algo demasiadamente mainstream. Quando é que começam um concurso de apneia?



PedRodrigues

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

[Dentro da cabeça dela]

Às vezes tudo o que preciso é de um beijo na testa, um carinho. Um “como correu o teu dia?” sincero. Preciso de alguém que esteja. Não por partes, não com o corpo presente e o olhar ausente, com vontade de fugir. Não preciso de ramos de flores todas as semanas, de jantares românticos todas as noites, de joalharia cara, ou roupas da moda. Preciso que estejas. Comigo. Por inteiro. Sem te esconderes na tua cabeça, nos teus problemas - onde não consigo chegar. Sem me olhares com vontade que fosse outra qualquer. Quero-te aqui, comigo. Não por te sentires obrigado a ficar. Não. És livre de escolher o que te faz feliz. Só espero que essa escolha seja eu. Espero que seja o meu corpo que procuras durante a noite. Os meus ombros despidos que beijas à meia luz. As minhas mãos que exibes, triunfante, na rua, amarradas nas tuas. É isso que quero. É disso que preciso. Não que te arrastes: por comodidade, ou conveniência, ou rotina, ou outra coisa qualquer. Quero a vontade do primeiro beijo. A adrenalina de me sentir desejada. Quero sentir o teu sangue a pulsar nas veias enquanto estamos deitados um sobre o outro. Quero dizer-te todos os dias “até amanhã”. Esquecer que existe a palavra “adeus”. Sou parva, eu sei. Nada dura para sempre, eu sei. Mas eu quero. Nem que seja até um dia - e esse dia seja o último. Não preciso que te preocupes com isso, nem que me faças o centro de todas as conversas com os teus amigos. Não preciso. Só preciso de estar – e que queiras que eu esteja. Não preciso de clichés. Nem que tomes conta de mim. Sou independente. Só quero partilhar a minha vida contigo, porra. Mas se não tiveres espaço para mim, deixa-me partir. Não me iludas. Não me prometas a lua, se nem um metro quadrado na terra tiveres para me dar.


PedRodrigues

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Fantasmas dos Invernos passados

Agora, no íntimo do Inverno que sopra lá fora, vejo-me obrigado a rever os melhores momentos que ficaram guardados nas fotografias que tirávamos. Crentes, na altura, que seriam uma espécie de troféu da nossa felicidade. Na rua há barulhos de latas a voarem com a força do vento. O mar deve continuar a galgar metros de areia, a julgar pela violência do som das ondas.
O inverno assusta. Mas não é do inverno que tenho medo. Nem do vento. Nem da chuva. Aterroriza-me ser passado. Imaginar-me nas tuas conversas como um pretérito imperfeito: uma espécie de coisa que já não existe
- Era.
(de certeza guardada na algibeira)
Há pessoas que nos fazem o luto, como se de fantasmas nos tratássemos. Por vezes, morremos e matamos por dentro. Vivemos à margem da lei. O mesmo espaço consegue guardar calorias de amor e tempestades de ódio. Quem nos pode recriminar? Construímos amores em pessoas movediças, é essa a verdade. Construímos. Alheios à realidade de que somos apenas castelos de areia, à espera da subida da maré. Nada é para sempre. É isso que me assusta. Depois do adeus ficam as mágoas e os ódios. As virtudes desaparecem. Os defeitos vêm à tona. Tudo é remexido e atirado: como folhas ao vento. Depois, a calmaria com que nos vamos tornando nesse passado chato. Essa fase menos boa. Somos essa coisa morta. Essa ideia perpetuada de um erro
- Já lá vai.
(de voz pesada)
- Não volta.
(de faca na mão)
- Não quero.
(a apagar a última fotografia)
Depois do Inverno vem a Primavera. Nos campos despidos, nascerão flores de certeza.



PedRodrigues

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Janeiro


Eu não sei. E apetece-me fechar os olhos, com força, até te conseguir ter aqui.
Não sei. Até onde irá a vida se caminhar de olhos fechados?
- Talvez
Todos os problemas começam nas indecisões. Será que há um abismo depois do próximo passo? Não sei. Mas decido avançar de qualquer forma. De olhos fechados até me dares a mão
- Não me largues.
Não largo. Partilho os teus medos para que não pesem tanto nos teus ombros. Não sei. Será inevitável molharmo-nos enquanto andamos à chuva? Mesmo se corrermos? Será que conseguimos fugir?
- Juntos.
Às vezes as migalhas que deixamos pelo caminho tornam-se no próprio labirinto.
Eu sei. As bússolas apontam sempre para o norte. E se estivermos na primavera, há andorinhas de certeza. Fecha os olhos comigo e vamos juntos
- Seja lá para onde for?
- Juntos, meu amor.
 
PedRodrigues