quarta-feira, 29 de junho de 2016

Saída de emergência


Para o fim do mundo ainda falta muito tempo. Não te preocupes, dá-me a mão. Conta os carros comigo. À noite, os faróis são estrelas cadentes a desaparecerem no asfalto. Podes pedir um desejo, ou dois. Eu sei, amor, não acreditas em desejos pedidos. O destino parece sempre abrir as portas erradas. Não acreditas em novos amores, praias, cabanas. Talvez porque o amor nunca te tenha levado a praia alguma, ou construído cabana alguma. Há uma saída de emergência que nunca usaste. Acabaste sempre por ficar. E depois, no meio do desastre, hemorragias internas, dores intensas choradas às escondidas. O coração nos cuidados intensivos e juras de nunca mais acreditares nas estrelas. Mas não é o fim do mundo amor. Dá-me a mão. Conta comigo os carros, canta comigo o refrão de alguma canção. Não tenhas medo. Não te prometo cabanas, nem praias. Senta comigo aqui, neste banco de jardim. Contamos as estrelas nos faróis, mas não lhes pedimos seja o que for. Vamos ficando, contando, até perdermos os números de vista. De mão dada, amor.

 

E se for para sair? Saímos juntos.

 

PedRodrigues

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Mãos

Trazia-te pela mão, como quem se orgulha de partilhar a felicidade no brilho de outros olhos. Dobrava contigo as esquinas da cidade na esperança de algum lugar onde pudéssemos descansar as mãos, ou apenas uma sombra onde te pudesse esconder. Tinha medo de te perder para outros desafios. Talvez porque o mar parece maior e nos chame baixinho para o conhecermos melhor. Mas eu nunca fui dessa imensidão líquida. Sempre fui de voltar, como as ondas. Mesmo na calmaria, mesmo nas tempestades. A cidade calava-se e ninguém dizia fosse o que fosse. As tuas mãos, amor. As tuas mãos. A tua casa, amor. O teu peito. Essa caixa onde prometeste guardar-me do mundo. Talvez porque o medo. Talvez porque o mundo. Talvez porque o amor. Talvez porque seja inevitável pensar no depois. O que fazer depois do amor? E tu guardavas as lágrimas dentro das mãos. Procuravas a sombra dos lugares frescos onde pudéssemos nos esconder e descansar um pouco . Mas tu nunca me largavas a mão. 

Quis viver para sempre nos teus olhos. Ainda quero. 


PedRodrigues