quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Cinco minutos, amor

Cinco minutos. São só mais cinco minutos. Não podes esperar um pouco? São só mais cinco minutos. O ano novo pode esperar. As novas conversas podem esperar. As novas pessoas podem esperar - ainda nem me conhecem, por que carga de água não esperariam? As lágrimas podem esperar, e os abraços também, e os beijos na cara, e as noites de solidão e as noites de alegria e copos catatónicos também esperam por nós, são só mais cinco minutos aqui, mais cinco minutos a guardar este espaço, este tempo que ainda me pertence. Para quê tanta pressa? Ainda ontem dei o meu primeiro beijo, no campo da escola: as miúdas tinham vergonha, os miúdos gozavam - o amor era motivo de chacota, nessa altura, o que interessava era ser o melhor no futebol, com mais fintas, mais golos, mais gritos para o ar e sapatilhas rasgadas do uso - brincávamos às escondidas, à apanhada, e os melhores eram sempre os que se escondiam melhor, os que fugiam mais, - talvez devesse ter continuado a esconder-me e a fugir, mas o tempo corre sempre mais, encontra-me sempre melhor - e os verões duravam meses, com os pés enterrados na areia e os lábios roxos das horas passadas no mar, e no mar os melhores eram os que apanhavam as ondas maiores, mesmo que depois se desmanchassem com elas na areia, e comíamos camarinhas como se fôssemos náufragos esfomeados nesses verões intermináveis da nossa infância, e também demos beijos na praia às miúdas de biquíni que vinham de fora, fazíamos fogueiras e dançávamos, dançávamos, dançávamos como se a vida fosse uma banalidade que podia esperar pelo amanhã, e depois o tempo, sempre o tempo, a faculdade, uns para aqui, outros para ali, as revoltas, os amores um pouco mais sérios, as primeiras chatices, os primeiros corações partidos, - até ali desenhavam-se inteiros, no vapor preso nos vidros -  o perceber que a vida também acaba e há amores que partem para sempre porque temos de aprender a guardar dentro de nós o que é importante, como se fôssemos um cofre para pessoas valiosas, e somos atropelados pelos invernos gelados que nos obrigam a procurar abrigo num abraço qualquer. E são só mais cinco minutos aqui. O ginásio do ano que vem pode esperar, já me inscrevi, e prometo lá ir até ficar com um corpo de capa de revista - será que assim voltas para mim? - a casa pode esperar, os móveis podem esperar, porque a casa não se faz de betão e aço e outros materiais, faz-se de pessoas e as pessoas fazem-se de amor, o que quer dizer que no  final das contas as casas se fazem de amor, talvez te leve para lá e as nossas sombras possam namorar no silêncio do bairro, e faço-te novamente os jantares, preparo-te as marmitas, tomo conta de ti, como o bem precioso que és. E talvez este ano que vem seja o ano. O ano de que falamos aos anos. Este ano é que é. Porque Janeiro traz sempre possibilidades, e Dezembro, habitualmente, traz as desilusões: podia ter feito, podia ter sido, podia. E os tempos verbais têm de mudar - tudo muda, dizem as leis da Física. Estamos em constante mutação. E talvez este ano escolha ser um pássaro, livre, com asas para voar e chegar ao sítio onde pertenço. Mesmo que a casa, mesmo que a praia, mesmo que os beijos, mesmo que as lágrimas, mesmo que o ginásio. Este ano talvez seja pássaro e te leve comigo. Vamos ver o mundo lá de cima. Juntos. Mas primeiro o ano pode esperar. São só mais cinco minutos. O novo ano pode esperar. Dá-me só mais cinco minutos, amor. 



PedRodrigues

domingo, 25 de dezembro de 2016

Desabafo

E tu carregas no botão, como que tentando retroceder para um lugar que já foi teu, onde julgas ainda pertencer. Acabas sempre por lá voltar, como um pássaro teimoso que, mesmo estando longe muito tempo, acaba sempre por regressar. E mudas de roupa, mudas de casa, mudas de canal, mudas de vida, mudas de supermercado, mudas de código postal, mudas de hora, mudas de mês, mudas de ano… Mas não mudas de coração, não mudas de amor. E ouves músicas no Youtube, que deviam ter a advertência baseada em factos reais, por serem a melodia das tuas tragédias. E na televisão dão filmes em que no final todos vivem felizes e tu chateias-te com os filmes porque são sempre a mesma treta e apetece-te gritar: é tudo mentira. Mas estás tão cansado de tudo e todos que nada dizes: eles que descubram sozinhos. E acabas a pensar que o tempo te azedou, como um vinho fraco. Então olhas para cima, para o tecto, desejando as estrelas, a lua, ou apenas um lugar distante onde pudessem sentir a tua falta. Talvez te escrevam um poema, e quem te ama o leia vezes sem conta, para que possas estar mais uns momentos. Somos tão pouco tempo. E não há botão para retroceder aos lugares onde fomos felizes. A vida é mesmo assim, e entramos nela como quem entra numa rua em sentido contrário, com medo do que vem de frente. E danças ao volante, desviando-te dos perigos. Ou talvez não seja nada disto, e tudo o que precisas é fechar a página, fechar o computador, fechar os olhos, fechar o passado numa gaveta qualquer e ir - simplesmente, ir. Porque no fundo a vida é mesmo assim: vamos indo - eventualmente acabamos por chegar ao nosso destino. 


PedRodrigues

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Teoria da Relatividade para totós



 

E se o tempo é relativo
como explicam os físicos
a morte de Einstein?
Teria, ele, o relógio estragado?

 

PedRodrigues