Dizem que quando morremos
deixamos de ser homens e passamos a ser estrelas no céu a olhar pelos outros.
Nunca acreditei muito nisso porque as estrelas no céu brilham lá ao longe e não
se parecem preocupar com a nossa pequenez. Tu não eras assim. Brilhavas na
terra, como as estrelas no céu, mas, ao contrário delas, preocupavas-te com
todos à tua volta. Eras dono e senhor de uma alegria contagiante que se
multiplicava em todos nós. Sempre que te recordo, acabo por sorrir. É
impossível não o fazer. Depois vem o vazio, o choque com a realidade. Hoje não
estás. Hoje não me vais dizer que o meu avô tem a mão pesada para o sal, ou que
a minha mãe é uma encrenca. Hoje não me vais abraçar com força contra ti. Tenho
saudades. A morte tem a tendência sádica de nos separar. Mas enquanto um de nós
viver, nenhum de nós será esquecido. Tu continuarás a viver em cada um de nós:
em cada memória, em cada lágrima, em cada sorriso. O amor que nos deixaste
continuará a crescer e a ser passado de geração em geração. As tuas histórias
continuarão a ser contadas. A alegria contagiante do teu sorriso continuará a
ser maior que as lágrimas choradas. Não te esqueceremos. Nunca te esqueceremos.
Um abraço apertado de quem te ama, Encrenca.
Somos filhos daqueles que se apaixonaram nas margens deste rio. Que são filhos daqueles que sobreviveram às custas deste rio. Somos filhos do sangue, suor e lágrimas que as águas deste rio lavam.
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sexta-feira, 15 de novembro de 2013
domingo, 27 de maio de 2012
Pequena autobiografia
Sou
da opinião de António Lobo Antunes quando diz que as biografias “contam factos,
acumulam testemunhos, relatam acontecimentos mas é tudo por fora”. E assim
sendo, é-me penoso, quase antinatural, escrever o que quer que seja sobre mim
num contexto autobiográfico. Estaria a enganar-me e a enganar quem me lê, se o
tentasse fazer. Far-me-ia mais alto, mais bonito, mais interessante. Faria de
mim um personagem, enquanto eu, Pedro Miguel Pimentel Rodrigues, ficaria
sentado na cama a ver-me como gostaria de ser visto. Claro que há factos irrefutáveis:
nasci a um de Março de oitenta e sete na Cova-Gala, Figueira da Foz, frequentei
o Jardim Escola João de Deus, fiz o meu ensino primário na Escola da Gala,
passei pela EB 2/3 Dr. João de Barros, bem como pela Escola Secundária Dr.
Joaquim de Carvalho e, neste momento, encontro-me a concluir o Mestrado em
Engenharia Civil na Faculdade de Ciências e Tecnologias da Universidade de Coimbra,
mas tudo isto é sintético, factual, sem nada dizer sobre mim. E acabo com a noção
de que quem lê esta sequência pouco saberá sobre quem sou. O meu gosto pela
escrita vem de longe: começou na primária, continuou no ciclo, onde entrei em
alguns concursos de poesia, e entretanto foi adormecido pelo desejo súbito de
me tornar num homem das ciências, mais que num homem das letras. Continuei a
escrever, mas a faísca de escritor que havia em mim esmoreceu. Passaram-se
dias, passaram-se meses, passaram-se anos e tudo o que escrevia era muito
pouco: um poema, ou uma carta de vez em quando. Ouvia muito, falava pouco e
guardava em mim cada conversa, cada discussão, cada súplica, cada grito de
revolta. Fui vivendo com o corpo atulhado de vozes que, quero crer, a minha
juventude e ingenuidade calaram. Reprimi o que havia para reprimir até ao dia
em que a minha avó morreu. Nesse dia, nesse fatídico dia, o meu corpo tornou-se
pequeno para a vida que havia em mim. Escrevi. Escrevi páginas inteiras
tingidas de lágrimas. Dei de mim ao papel tudo o que tinha cá dentro. Nesse dia
percebi que não mais conseguiria calar as vozes, não mais as calaria. Passaram
quatro anos desde a morte da minha avó até ao dia em que criei Os Filhos do
Mondego, em Novembro de dois mil e dez. Quatro anos em que escrevi para mim, ou
melhor, para as minhas gavetas. Hoje, graças ao meu primo Luís Filipe, escrevo
para dar vida às minhas palavras. Escrevo para dar vida às vozes que trago cá
dentro. Escrevo para o mundo, se o mundo me quiser ler. Desde o dia em que
publiquei pela primeira vez algo no blogue que me sinto a evoluir diariamente
enquanto escritor – perdoem-me a presunção. A prova está nos convites que têm
surgido, entre os quais o da Algarve Mais, revista para a qual escrevo mensalmente
desde Janeiro deste ano, e nas críticas tão positivas de quem lê os meus
textos. Hoje ainda sou um projeto do Pedro Rodrigues que gostaria de biografar
um dia. Hoje, sem rendilhados, sou apenas mais um rapaz com faísca e meia dúzia
de textos editados. Espero que um dia essa faísca dê lugar a um incêndio e o seu clarão
se veja a quilómetros e quilómetros de distância.
PedRodrigues
terça-feira, 28 de junho de 2011
Ao meu primo, o fotógrafo
"O que me falta em palavras, sobra-me em amor"
Lembro-me, como se fosse hoje, dos pessegueiros em flor no quintal dos meus avós. Guardo essa imagem com saudade. Mas tenho medo de a guardar tão fundo, num canto qualquer do meu cérebro, que nunca mais a consiga encontrar. É nessas alturas que gostava de ter uma fotografia. Uma cábula para a eventualidade da memória me atraiçoar. É nessas alturas que sinto a falta do meu primo Pedro, com a sua máquina fotográfica, a prender o mundo num momento.
A nossa amizade vem de longe. Vem dos laços de sangue que ainda nos unem. Uma pequeníssima quantidade de genes que partilhamos como irmãos. Somos mais que família, somos mais que simples amigos, mas não sentimos necessidade de o partilhar por palavras. Há um código de honra entre nós, uma linguagem indecifrável, muito própria, que não partilhamos com ninguém. Não precisamos.
Tal como nunca lhe disse:
-És importante para mim
(Apesar de ter a certeza que ele sabe disso)
Nunca fiz um elogio decente ao trabalho dele. Um
-Gostei
Ou
-Bom trabalho
Nunca
-Excelente. Digno de um prémio. Continua
Algo de construtivo, com começo, meio e fim. Eu que até levo jeito para usar as palavras, nunca lhe consegui dizer que para mim ele é o melhor - com condições para ser o melhor no mundo dos entendidos da matéria. Calo-me. Deixo que ele entenda o código, e apesar de não ouvir
-Obrigado.
Eu sei que ele agradece. Ao nosso jeito lá vamos falando nos espaços em branco. Preenchendo o mundo com imagens e palavras. Cada macaco no seu galho. Procurando, no entanto, o mesmo destino. Trancando nas palavras, o que o outro guarda na moldura. Parando o mundo em pequenos instantes. Gravando memórias no espaço de segundos. Inventando histórias em mil palavras - enquanto o outro as vai captando no dia-a-dia. Cada um ao seu jeito
-És importante para mim
Um olhar atrás da lente
-Bom trabalho
Mais mil palavras no papel. No espaço em branco, ele:
-Gostei
Se me tirasse uma fotografia nesse momento, expunha ao mundo o nosso segredo. Se alguém nos conseguia expor ao mundo, era ele. Está sempre mil palavras à minha frente. E isso, realmente, pouco importa. Só queria uma imagem dos pessegueiros em flor, que não tenho palavras para os descrever como eles merecem. Faltam-me sempre mil palavras. Onde andavas tu quando os pessegueiros me imploravam que os prendesse no tempo?
PedRodrigues
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