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sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Ao primo Tó Moinhos

Dizem que quando morremos deixamos de ser homens e passamos a ser estrelas no céu a olhar pelos outros. Nunca acreditei muito nisso porque as estrelas no céu brilham lá ao longe e não se parecem preocupar com a nossa pequenez. Tu não eras assim. Brilhavas na terra, como as estrelas no céu, mas, ao contrário delas, preocupavas-te com todos à tua volta. Eras dono e senhor de uma alegria contagiante que se multiplicava em todos nós. Sempre que te recordo, acabo por sorrir. É impossível não o fazer. Depois vem o vazio, o choque com a realidade. Hoje não estás. Hoje não me vais dizer que o meu avô tem a mão pesada para o sal, ou que a minha mãe é uma encrenca. Hoje não me vais abraçar com força contra ti. Tenho saudades. A morte tem a tendência sádica de nos separar. Mas enquanto um de nós viver, nenhum de nós será esquecido. Tu continuarás a viver em cada um de nós: em cada memória, em cada lágrima, em cada sorriso. O amor que nos deixaste continuará a crescer e a ser passado de geração em geração. As tuas histórias continuarão a ser contadas. A alegria contagiante do teu sorriso continuará a ser maior que as lágrimas choradas. Não te esqueceremos. Nunca te esqueceremos. Um abraço apertado de quem te ama, Encrenca.


PedRodrigues

(Crónica publicada no jornal "Portuguese Times")

domingo, 27 de maio de 2012

Pequena autobiografia


Sou da opinião de António Lobo Antunes quando diz que as biografias “contam factos, acumulam testemunhos, relatam acontecimentos mas é tudo por fora”. E assim sendo, é-me penoso, quase antinatural, escrever o que quer que seja sobre mim num contexto autobiográfico. Estaria a enganar-me e a enganar quem me lê, se o tentasse fazer. Far-me-ia mais alto, mais bonito, mais interessante. Faria de mim um personagem, enquanto eu, Pedro Miguel Pimentel Rodrigues, ficaria sentado na cama a ver-me como gostaria de ser visto. Claro que há factos irrefutáveis: nasci a um de Março de oitenta e sete na Cova-Gala, Figueira da Foz, frequentei o Jardim Escola João de Deus, fiz o meu ensino primário na Escola da Gala, passei pela EB 2/3 Dr. João de Barros, bem como pela Escola Secundária Dr. Joaquim de Carvalho e, neste momento, encontro-me a concluir o Mestrado em Engenharia Civil na Faculdade de Ciências e Tecnologias da Universidade de Coimbra, mas tudo isto é sintético, factual, sem nada dizer sobre mim. E acabo com a noção de que quem lê esta sequência pouco saberá sobre quem sou. O meu gosto pela escrita vem de longe: começou na primária, continuou no ciclo, onde entrei em alguns concursos de poesia, e entretanto foi adormecido pelo desejo súbito de me tornar num homem das ciências, mais que num homem das letras. Continuei a escrever, mas a faísca de escritor que havia em mim esmoreceu. Passaram-se dias, passaram-se meses, passaram-se anos e tudo o que escrevia era muito pouco: um poema, ou uma carta de vez em quando. Ouvia muito, falava pouco e guardava em mim cada conversa, cada discussão, cada súplica, cada grito de revolta. Fui vivendo com o corpo atulhado de vozes que, quero crer, a minha juventude e ingenuidade calaram. Reprimi o que havia para reprimir até ao dia em que a minha avó morreu. Nesse dia, nesse fatídico dia, o meu corpo tornou-se pequeno para a vida que havia em mim. Escrevi. Escrevi páginas inteiras tingidas de lágrimas. Dei de mim ao papel tudo o que tinha cá dentro. Nesse dia percebi que não mais conseguiria calar as vozes, não mais as calaria. Passaram quatro anos desde a morte da minha avó até ao dia em que criei Os Filhos do Mondego, em Novembro de dois mil e dez. Quatro anos em que escrevi para mim, ou melhor, para as minhas gavetas. Hoje, graças ao meu primo Luís Filipe, escrevo para dar vida às minhas palavras. Escrevo para dar vida às vozes que trago cá dentro. Escrevo para o mundo, se o mundo me quiser ler. Desde o dia em que publiquei pela primeira vez algo no blogue que me sinto a evoluir diariamente enquanto escritor – perdoem-me a presunção. A prova está nos convites que têm surgido, entre os quais o da Algarve Mais, revista para a qual escrevo mensalmente desde Janeiro deste ano, e nas críticas tão positivas de quem lê os meus textos. Hoje ainda sou um projeto do Pedro Rodrigues que gostaria de biografar um dia. Hoje, sem rendilhados, sou apenas mais um rapaz com faísca e meia dúzia de textos editados. Espero que um dia essa faísca dê lugar a um incêndio e o seu clarão se veja a quilómetros e quilómetros de distância.

PedRodrigues

terça-feira, 28 de junho de 2011

Ao meu primo, o fotógrafo

"O que me falta em palavras, sobra-me em amor"

Lembro-me, como se fosse hoje, dos pessegueiros em flor no quintal dos meus avós. Guardo essa imagem com saudade. Mas tenho medo de a guardar tão fundo, num canto qualquer do meu cérebro, que nunca mais a consiga encontrar. É nessas alturas que gostava de ter uma fotografia. Uma cábula para a eventualidade da memória me atraiçoar. É nessas alturas que sinto a falta do meu primo Pedro, com a sua máquina fotográfica, a prender o mundo num momento.
A nossa amizade vem de longe. Vem dos laços de sangue que ainda nos unem. Uma pequeníssima quantidade de genes que partilhamos como irmãos. Somos mais que família, somos mais que simples amigos, mas não sentimos necessidade de o partilhar por palavras. Há um código de honra entre nós, uma linguagem indecifrável, muito própria, que não partilhamos com ninguém. Não precisamos.
Tal como nunca lhe disse:
-És importante para mim
(Apesar de ter a certeza que ele sabe disso)
Nunca fiz um elogio decente ao trabalho dele. Um
-Gostei
Ou
-Bom trabalho
Nunca
-Excelente. Digno de um prémio. Continua
Algo de construtivo, com começo, meio e fim. Eu que até levo jeito para usar as palavras, nunca lhe consegui dizer que para mim ele é o melhor - com condições para ser o melhor no mundo dos entendidos da matéria. Calo-me. Deixo que ele entenda o código, e apesar de não ouvir
-Obrigado.
Eu sei que ele agradece. Ao nosso jeito lá vamos falando nos espaços em branco. Preenchendo o mundo com imagens e palavras. Cada macaco no seu galho. Procurando, no entanto, o mesmo destino. Trancando nas palavras, o que o outro guarda na moldura. Parando o mundo em pequenos instantes. Gravando memórias no espaço de segundos. Inventando histórias em mil palavras - enquanto o outro as vai captando no dia-a-dia. Cada um ao seu jeito
-És importante para mim
Um olhar atrás da lente
-Bom trabalho
Mais mil palavras no papel. No espaço em branco, ele:
-Gostei
Se me tirasse uma fotografia nesse momento, expunha ao mundo o nosso segredo. Se alguém nos conseguia expor ao mundo, era ele. Está sempre mil palavras à minha frente. E isso, realmente, pouco importa. Só queria uma imagem dos pessegueiros em flor, que não tenho palavras para os descrever como eles merecem. Faltam-me sempre mil palavras. Onde andavas tu quando os pessegueiros me imploravam que os prendesse no tempo?


PedRodrigues