sexta-feira, 4 de março de 2011

As escadas II

"Nunca hei-de ter nada contigo"

O coração no peito martelava de forma cruel. No momento em que as palavras lhe saíram da boca não lhes dei o devido valor. A minha cabeça viajava por outros horizontes, perdida num mar de vinho que me afogava as portas da percepção. O corpo dela tremia devido ao frio que se fazia sentir. Abracei-a. Quebrei a barreira invisível que nos devia separar. Beijei-lhe a cabeça. Queria dar-lhe um pouco do meu calor, mas ela lutava para que o fogo que existia entre nós parasse de arder. Nem as lágrimas dela, nem as minhas o conseguiam fazer.
A minha cabeça inundada em pensamentos desviava-me a atenção das palavras que ela proferira. Aquelas escadas sempre me acalmaram. O oasis no meio do deserto de ilusões em que me vejo metido. O corpo dela continuava a tremer. Apertei-a contra mim cada vez com mais força. Senti-lhe o calor da respiração. A vontade do beijo a sair-lhe pela boca. O sorriso dela acenava-me a cada frase que me saía da boca. O corpo dela aninhava-se no meu com visível aquiescência. Se pelo menos ela não me tivesse dito aquilo.

"Se eu fosse outra, se calhar usava-te. Pelos vistos não era a primeira"

Esta frase cravou-me o peito como um espinho. Entendi aquilo que significo para esta sociedade. Ou pelo menos o que esta sociedade pensa de mim. Vêem-me como este boneco de plástico que pode ser usado e depois deitado fora. Na boca dela as palavras eram veneno. Veneno cura, mas não neste caso. Apeteceu-me fugir de onde me encontrava. Corri para o meu oasis. Ela seguiu-me os passos. Tentei ignorar. Tentei que me abandonasse. Precisava de um momento para mim. De me deitar a olhar as estrelas. A pensar se elas brilham da mesma maneira do outro lado do mundo. Como gostava de tocar no horizonte. Ela acompanhou-me. Ela ouviu-me. Ela disse que nunca me há-de querer. Não a censuro. Não a critico. A solidão sempre foi minha amiga... Não a quero trair.



PedRodrigues

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Reflexões a quente

Opá vão-se foder! Estou farto de chorar. De correr para as escadas. A procura da felicidade é utopia. Onde estás? Não te quero encontrar. Não mereço ninguém. Não mereço prendas nem presentes, nem ausentes. Ela não me ama. Eu nunca amei. A partilha é a mesma. Estou farto de distâncias de segurança. De lágrimas de ouro, ou de prata. A vida nunca me deu nada daquilo que sonhei. Em vinte e quatro anos nunca fui verdadeiramente feliz. Nasci com dores no peito e orgulho em dose e meia. Apetece-me correr sozinho para o sítio onde fui feliz desde que a minha avó morreu. O meu amor vale ouro, mas nas mãos delas é lata. Mulheres: o mundo gira à volta delas. Se pelo menos me dessem uma pistola para o fazer parar. Detesto este cheiro a vinho que trago na boca. Detesto esta falta de beijos que trago na boca. Esta noite sonhei que não sabia beijar. Onde estão elas que me querem como sou? Apetece-me sair daqui. Tirar fotos das escadas para mais tarde recordar. Apetece-me chorar. Vacilo em todos os momentos que as quero. Sofro em todos os momentos que não as tenho. Corre! Ao voltar da esquina ouço-a a dizer:
"Espera!"
Não me mandes esperar, se não me queres. Não chores por mim se o teu coração não me pertence. Não me dês as gotas da vida, se me queres ver morto. Deixem-me ser quem sou. O cancro que sou. Que vos cresce no peito e que querem remover. Sempre fui assim. Cresço no interior de quem me conhece. Mas no final todos me querem fora do corpo. Nunca hei-de ser feliz. Sou de ferro. As balas não me matam.
"Magoam!"
Obrigado pelas dores. Obrigado por vos defender. Sempre! Sou triste, só e mal acompanhado. A minha vida não me sorri. Apetece-me fugir e estar sozinho.Escrever para o mundo sobre o que trago cá dentro. A dor, o fado, a morte e algo mais que não sei dizer o quê. Hei-de ser eucalipto na vida das pessoas. Secando-lhes a percepção da realidade. A minha vida é nula e sem graça. Não me queiram: nem hoje, nem ontem, nem depois. Obrigado mãe. Há vinte e quatro anos fiz-te feliz. Hoje ainda faço. Obrigado a ti que me amas. Ninguém te quer ocupar o lugar. Tragam-me a pistola, a faca, ou as palavras. Matem-me de alguma maneira. Hoje eu choro por mim. De resto? Obrigado, mas vocês são uns merdas! Nunca hei-de amar ninguém, hoje entendi isso. Hoje entendi que não me posso dar sem me quererem como sou: pleno e cheio de falhas. O amor é a melhor droga, mas eu fico-me pelo genérico.



PedRodrigues

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Reflexões a quente

São oito e vinte da manhã. O relógio vacila nas horas que lhe fogem. A noite foi feita de amores desencontrados. De misturas de chocolates com amêndoas ou nozes. Levei com investidas e balas alheias. Fui apanhado no fogo cruzado entre o "eu queria" e o "nunca vou voltar a ter".O tempo dos pistoleiros perdeu-se no tempo. Hoje a minha luta é outra. Hoje estou perdido no mundo, algures em lado nenhum. Mas sei quem quero. Não preciso que me apontem. Eu sei onde está. Apetece-me perder nas almofadas brancas, perpendiculares ao chão, com ela. Hoje os meus sonhos são dela. Dos fracos não reza a história, mas ninguém me disse que tinha uma página nos livros só minha. O meu amor é ouro. O meu amor é prata. O meu amor mata. Olho-lhe nos olhos com esta cara derrotada pela bebida. Com este corpo derrotado pelo tempo. Com este coração perdido algures - não sei onde - por ela. Adoro quando ela sorri. Quando me mostra os dentes mesmo sabendo que eu sou estranho. Nasci complexo como alguns números. Não tenho culpa. Nasci centro de gravidade e atraio problemas, balas, pecados e outras coisas. Neste momento quero que te percas por aqui. Vem até mim. Não me fujas. Esquece o resto que eu nasci escudo. Nasci torre de marfim, pronto a levar com os rios de merda que nos separam. Não me fujas. É de ti que gosto. É em ti que aposto, para nunca mais perder. Já perdi batalhas pelos mensageiros. Não me leves a mal, gosto de me entregar aos meus amigos. Desculpa as mensagens estranhas, ou outras esquisitices. Sou uma pessoa estranha. Tenho a certeza que nasci virado ao contrário - seja lá o que isso for. Não me negues o sorriso e a complicação de quem és. Não nasceste princesa, mas adorava fazer-te rainha. A coroa é tua, a tiara também. Queres que te encoste às almofadas? Sussurro-te ao ouvido, algures nas escadas, que é em ti que aposto. Gosta de mim. Abre o peito às balas, que eu tomo-as por ti. Hoje, o meu peito é de chumbo e a minha vontade é de ferro.


PedRodrigues