terça-feira, 8 de março de 2011

Reflexões a quente

É Carnaval ninguém leva a mal. Eu não levo, certamente. Adorei a forma como elas me tocavam e metiam conversa comigo. Nunca um bigode meu fez tanto furor.

"Corta isso"

Sempre me disseram. Diziam-me que não fico bem de bigode. Hoje provei que isso é mentira. Abracei marinheiras, dancei com Mimos e Brancas de Neve. Perdi-me no desfile de máscaras. Se elas soubessem que o Carnaval é quando o homem quer... Bebi ás custas de mulheres mais velhas. Não me vendi, tão pouco me ofereci. Dei a cara e o bigode. Elas assumiram que oferecia algo mais. Tenho pena delas.
Vi como olhavam para mim. Com vontade de me mostrar algo que eu não sei, mas que gostaria de saber. Vi como me possuíam com o olhar. E eu ali, no meio da pista a pensar na próxima abordagem. O gin acelerou-me o ritmo dos passos. Soltou-me o bicho inibido que trago, todos os dias, dentro de mim. Gosto de ser o mais secreto dos homens, o mais misterioso protótipo do sexo masculino. Gosto de as deixar na dúvida. De as perder com certezas - na cabeça delas, claro. Gosto que me controlem. De me achar mais esperto, embora saiba que elas têm a faca e o queijo na mão. Adoro ser complicado e de as deixar fora do controlo da situação.

"Que giro"

Realmente a minha mãe sempre me disse o mesmo. Nunca a apanhei numa mentira. Uma vez, quando tinha três anos, abriu-me o lábio com uma estalada por eu ter mentido. Aprendi a minha lição. Gosto que me digam a verdade: nua e crua. Prefiro que me magoem, que me enganem. Não gosto de rendilhados com a verdade. Ser ou não ser... Não há questão. Não há meios termos, nem nada que se pareça. A zona cinzenta é o pasto dos mentirosos. Penso que não minto.
Gostava de lhe ter perguntado o nome. Ela estava de chapéu e falou comigo por mímica. Sorriu para mim, dançou para mim, olhou para mim e rendeu-me aos seus passos. Tiro-lhe o meu chapéu. Gostava de lhe tirar o chapéu e algo mais. Um dia gostava de te ver nua, sem máscara. Esquece o pudor ou o sadismo das minhas palavras. Ás vezes nem eu me entendo. Tinhas uns olhos lindos. O sorriso não lhes devia nada. Será que consegues viver sem essa máscara? Será que tens o mesmo encanto? Todos nós somos máscaras. O latim é testemunha. É Carnaval ninguém leva a mal, mas o Carnaval é quando o homem quer... E agora?


PedRodrigues

domingo, 6 de março de 2011

Reflexões a quente

Ali na rua, a dias da Primavera, a brisa é tão gelada como nos primeiros dias de Inverno. As folhas nas árvores ainda lutam para não cair. As pessoas nos passeios, apressadas, escondem a garganta atrás do tecido dos casacos. Sigo na minha mão, abafando as palavras no tecido do meu casaco, desculpando-me com o frio.

"É assim a vida"

Se não fosse assim não tinha piada. Se fosse mais fácil não tinha piada, se fosse mais difícil eu pedia para ser mais fácil e acabava por perder a piada. As folhas nas árvores continuam a lutar contra a brisa, que devagar se transforma em vento. Em cada esquina vejo uma mulher a olhar-me. Sou comido pelos olhos. Não lhes consigo ver a alma, e a minha há muito que a vendi.
Ao passar a porta da entrada o contraste é claro. Os casacos estão guardados e os corpos despidos. Uma floresta de seios e pernas desnudas aparece do nada. O cheiro a desespero faz-se sentir. Aqui não há folhas. A luta é outra. A minha líbido arde-me nas extremidades do corpo a cada olhar na minha direcção. Os pavões de peito inchado perdem a noção do ridículo. Confundem a ingenuidade com beleza e sorriem de forma clara ao sentir o cheiro a desespero.

"Está mortinha"

O tédio também mata - pena a burrice não matar. Perco-me a imaginar que não há olhares na minha direcção. Perco-me a olhar o tecto e o chão. A contar copos vazios. Imagino isto e aquilo. Peço que venha rápido o Verão, estou farto de casacos. Estou farto de falar atrás do tecido. Quero que as folhas fiquem nas árvores e que os seios me encham os olhos. Quero ver as pernas queimadas do sol e as peles morenas a desfilar orgulhosas. Estou farto de ser olhado e não ser comido como o ícone sexual que sou. Estou farto de ter frio, enquanto sonho com o calor.


PedRodrigues

sábado, 5 de março de 2011

Caminhos

A história é esta: um homem que se reinventa a cada mudança de direcção. Um homem perdido, em busca do amor. Tomando sempre as escolhas erradas, por que convenhamos: só há uma escolha certa e infinitas possibilidades de errar. Uma pessoa, uma máscara que usa para cada ocasião. Um homem que não ama, embora tudo o que faça, faça por amor. Um homem de fato preto e camisa branca a fazer lembrar os actores do cinema noir. Com charme em dose e meia - e mais alguns truques na manga do casaco preto, do fato. Um homem derrotado pelas sucessivas mudanças de direcção. Esbatido pela erosão do tempo. A história é um musical. Uma panóplia de mulheres e um desfile de estrogénio capaz de levar qualquer um à loucura. A busca pela felicidade e a vitória da beleza. Um baile de máscaras e sorrisos falsos. De danças de salão e corpos enrolados ao sabor dos ritmos quentes. De caminhos tortuosos, olhares indiscretos e setas erradas. Direcções trocadas e musas em todas elas. Mulheres em pedestais a sucumbirem ao charme do homem de fato preto, camisa branca e olhos verdes. A história é uma cidade, um rio, duas margens. Caminhos que não se cruzam, se lhe faltar a vontade. É uma mulher, um caminho, uma musa, sofrimento, paixão, glamour... A história é norte, sul, este e oeste. Se pelo menos o homem soubesse por onde seguir. A história é uma mulher e uma centena de mulheres. Dividir e conquistar, quando juntos somos mais fortes. É este o problema das histórias dos homens charmosos de fato preto, camisa branca, olhos verdes e barba de dois dias: todos os caminhos vão dar a Roma, por mais longa que seja a jornada. E quando se chega demasiado tarde?


PedRodrigues