Os homens não se medem aos palmos, mas as mulheres distinguem-se pelos saltos dos sapatos. A confiança delas nota-se pela forma como andam. Algumas deslizam pela calçada: altivas e soberanas. Como se mandassem no mundo e todos nós lhes devêssemos beijar os pés. Outras são mais atabalhoadas. Tropeçam no auge da falta de delicadeza. Não as censuro.
Uma mulher confiante usa sapatos de saltos finos e longos. Isso demonstra a sua confiança. Não tem medo de cair. Sabe que a sua beleza é a sua arma, e o seu carisma sexual é imenso. O seu andar é rápido, mas com classe. Como se o mundo fosse uma banalidade e o centro de todas as atenções fosse ela. Conheço-lhes os passos, mesmo quando não as vejo. O som agudo do salto a bater no solo acorda-me da minha ignorância. Aposto - mesmo sem ver - que traz um vestido justo no corpo. Aposto que é um pedaço de mau caminho - e um ponto de encontro para uma mão cheia de problemas. Todos as adoram. Todos as querem. Não pelos segredos que guardam atrás dos saltos. Não pelos desgostos amorosos que já tiveram. Não pela fragilidade que escondem em cada passo. Não pela genialidade de cada frase - muitas vezes sem sentido, para mim - que proferem quando as deixamos abrir o peito. Todos as querem pelos vestidos justos que as denunciam - noventa por cento das vezes erradamente - ou os saltos altos que fazem imaginar todo o tipo de cenários eróticos. (A falta de romantismo é ridícula. Se eu pudesse mandava cortar a cabeça a todos esses abutres das histórias de amor que se apoderam dos despojos da carne alheia. Sinceramente: metem-me nojo.)
Por outro lado, as mulheres que usam saltos rasos, ou saltos mais grossos, são mulheres frágeis. Mulheres que têm medo dos tombos. De cair na calçada e serem gozadas. Mulheres que não têm medo de mostrar que têm um segredo; que alguém as magoou. Cuja vida já lhes ensinou - e elas aprenderam - que o mundo é cão e nos obriga a sofrer. As rosas são belas, mas têm espinhos. Estas mulheres já se picaram, ou têm medo de se picar. Escondem o corpo atrás da roupa, mas mostram a todos que ali mora a tristeza, a desconfiança pelo sexo oposto e a dor de estarem sozinhas. Também são belas tais mulheres. Não há mulheres feias. Todas têm as suas virtudes, embora nem sempre venham aos pares.
Há sempre algo que as torna superiores. Trazem o poder na ponta dos cabelos e uma espada no olhar. Os sorrisos são portas para a imaginação funcionar. E o corpo? Ai o corpo... As intrigas, os enredos, as novelas, os segredos, os amores, os desamores... As mulheres são mapas de tesouros. São puzzles de milhões de peças. São a saúde na doença. São jogos psicológicos. São faca e queijo. São deusas entre os homens... São a minha perdição. Obrigado ao absinto, obrigado ao amor, obrigado às mulheres. Adoro mulheres, mesmo - sobretudo - quando estão descalças.
PedRodrigues
