quinta-feira, 7 de abril de 2011

Para ti: sejas tu quem fores

Lembrei-me de ti. Lembrei-me de ti até ao momento em que me apercebi que não sei quem és. Moldei uma imagem tua na minha cabeça, como um oleiro molda um vazo onde sonha meter uma flor. Não sei quem és, sejas tu quem fores.
Faço de ti aquilo que quero no momento em que pouso a cabeça na almofada. Nesta escuridão que me envolve não sei quem és. Não te vejo. Imagino-te. Monto-te com as peças que me trazem mais gozo, que me fazem bater o coração – mais forte, mais forte. Quero-te. Não te tenho. Não sei quem és. Monto-te com os cabelos de uma: lisos, longos, pretos - como esta escuridão em que me encontro. Aborreço-me. Mudo-te os cabelos. Num minuto és loira, no outro já és morena. Aqui é fácil. Desejo-te. Sempre, em todos os minutos, em cada segundo, mesmo quando não tenho a cabeça na almofada. A tua pele morena não muda. Não gosto de mulheres com peles lavadas pela lixívia. No entanto, não estou em posição de escolher. Ouvi dizer que o amor é uma amante cruel, que nos cega os olhos e nos pisa a razão. No entanto, aqui e agora, sou eu que dou as cartas. Sou eu que escolho o trunfo, embora não saiba quem és.
Escrevo para ti. Escrevo a pensar em ti, e no dia em que te vou conhecer. Quero que esteja sol. Pensando bem: quero conhecer-te no meio de um dia de chuva. Esconder-me debaixo do teu guarda-chuva. Estar a centímetros de te tocar. Uma ponte de mistérios entre nós. Um rio de vontade a separar-nos. Quero roubar-te um beijo enquanto deixas o guarda-chuva cair, com a falta de força natural do momento. Quero beijar-te ao ritmo de cada pingo e sentir o teu cabelo molhado na minha pele. O veludo do teu toque no meu corpo. Quero que a água lave o sabor dos teus lábios para poder repetir mais tarde: uma e outra vez.
Espero por ti: sejas tu quem fores. Espero por ti todos os dias. Espero por ti no meio das florestas de olhares em que me perco. Espero por esses olhos: azuis, verdes, castanhos, pretos. Não tenho preferência. Só peço que me consigas ver no meio da multidão. Que me encontres quando me perder – acredita que me perco bastantes vezes. Só peço que me consigas ver a alma, até onde eu consigo ver a tua. Não te peço que vejas além do horizonte da minha. Eu encontro-te a meio do caminho. Espero pela troca de olhares: deitados na cama, no jardim, na praia, ou noutro sítio qualquer. Olhares pontuais, eternos, mudos, mágicos… Não te peço mais.
Procuro por ti. Juro que procuro. Procuro o sorriso mais belo. Não o mais belo, mas o mais expressivo. Procuro por algo natural. Aquele sorriso inocente que mostras a cada palavra minha. Procuro por ele no meio desta panóplia de cinismo e de conchas vazias. Gostava que me mostrasses sempre esse sorriso. Essa âncora que me prende à realidade neste mundo de actores. Mostra-me esse sorriso e eu juro que me rendo.
Gosta de mim, sejas tu quem fores. Eu estou aqui: perdido no meio da escuridão deste quarto vazio. De cabeça na almofada a montar-te com as peças que mais me convêm. Não fujas de mim nesta hora em que fecho os olhos. Fica ao pé de mim. Quero adormecer sozinho, e acordar acompanhado.

PedRodrigues

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Feliz dia das mentiras Pedro

Sinto o peito a fechar-se em si mesmo. O bigode ainda tem o cheiro do último cigarro. A pieira natural do cansaço do corpo sente-se nas paredes e ecoa-me nos ouvidos. Neste quarto vazio ouço a vida lá fora. No silêncio perturbante em que por vezes a minha cabeça se encontra: o mundo diz-me adeus. Eu digo adeus ao mundo, como pessoa bem educada que sou. Escrevo as linhas que me chegam à cabeça. Escrevo na esperança de um dia ser publicado. Escrevo a realidade e a ficção: aquilo que vejo, aquilo que julgo ver e aquilo que gostaria de ver. Sonho todos os dias com o final do arco-íris. Sonho com o pote de ouro. Todos os dias acordo com esperança e adormeço na dura realidade. Apesar de dura ainda é melhor que muitas outras por esse mundo fora. Fome, peste e guerra são os cartões de visita do planeta azul. Gerações à rasca que se confundem com gerações rascas. Pessoas cujo horizonte é o próprio umbigo. Comemos a hipocrisia com as torradas do pequeno-almoço. E bebemos o cinismo num copo de vinho ao jantar. Os bons costumes são tão utópicos como este cheiro a cigarro que trago no bigode. No entanto, a prostituição desta sociedade é tão real como o silêncio neste quarto. Hoje escrevo a realidade e a ficção, como todo o bom escritor, ou aspirante a tal, deve fazer. Hoje não cedo a chantagens emocionais. Não cedo a ilusões de óptica. Sou tão hipócrita como o vizinho do lado, a única diferença é que me preocupo com isso. A única diferença é que acordo todos os dias a pensar que um dia isto vai mudar. Que um dia o pote de ouro vai aparecer. Nesse dia irei dizer "Fodam-se todos". Infelizmente todos os dias me deito com um "Vai-te foder" na cara. A vida é ingrata. A realidade confunde-se com a ficção: nos meus textos e na minha cabeça. Um dia espero dar vida às histórias que trago cá dentro. Um dia espero que o pote de ouro venha em forma de um livro publicado. Um dia vou ler o Bukowski, o Lobo Antunes, o Pablo Neruda, o Keats, ou o Dickens e dizer: "obrigado". De escritor, para escritor: "obrigado". Hoje não o posso fazer. Hoje não o devo fazer. Hoje ainda sou presunçoso só de assumir que lhes posso pisar os calcanhares. Mas hoje é dia das mentiras, e a verdade é o que cada um faz dela.


PedRodrigues

terça-feira, 29 de março de 2011

Coragem: o caminho para a felicidade

Não é fácil.
Nunca foi fácil vencer o tédio que me acompanha os ossos. Nunca foi fácil amar - se pelo menos eu soubesse o que isso é. Sorte com Deus a cada passo. Que o tédio não me vença na escolha do melhor caminho - seja ele qual for. Encontro-me a dois passos do cruzamento, a dez minutos do fim do mundo. A sul do Paraíso já provei o fruto proibido. Se eu fosse o melhor que posso ser em todos os momentos. Não é fácil. Nunca foi fácil escolher. O sol põe-se atrás do cruzamento. A luz gasta-se com os minutos. Nunca fui fã de escolher às escuras. Devia apressar a escolha, mas o tédio que me acompanha os ossos comprime-me a carne; trava-me os pés e não me deixa seguir o que a minha vontade parece não querer saber: a escolha.
Eventualmente na vida todos temos de escolher. A vida é isto mesmo: uma série de cruzamentos ao pôr do sol, a dez minutos do fim do mundo. Por vezes fechamos os olhos e entregamo-nos ao acaso. Não é fácil. Mas nunca ninguém nos disse que a vida era um mar de rosas. Não era uma vez quando queremos - se é que alguma vez o é. O sol não brilha sempre, e bons são aqueles que enfrentam os dias de chuva sem recorrer aos impermeáveis. Os que seguem o caminho e não olham para trás. Convenhamos: o difícil nunca foi escolher. Difícil é saber abraçar as escolhas que fazemos. Lidar com a roupa molhada no corpo, mesmo que isso signifique que eventualmente vamos ficar doentes. Não é fácil. Nunca foi. Mas a chuva não cai para sempre, e no final dos pingos o sol parece brilhar. Às vezes o arco íris espreita por entre os pingos desdenhosos que beijam a luz do sol. No final do arco íris há um pote de ouro - dizem. A vida é esta série de cruzamentos. É uma sucessão de chuva e de sol. De dias de tédio e dias frenéticos. Não é fácil viver. Nunca foi. Não é fácil amar. Dizem por aí. Não é fácil escolher. Mas é. Não é fácil abraçar a escolha. Nunca foi. Dos fracos não reza a história. Verdade.






PedRodrigues