quarta-feira, 20 de abril de 2011

Capitão barulho

Nunca gostou de arrumações. Mexer no passado não era o seu forte, até porque era alérgico ao pó. No entanto, naquele dia decidiu ajudar a mãe a separar o passado do futuro. No meio do entulho de memórias, ia separando roupas velhas que já não usava, máquinas de calcular, livros e alguns acessórios que outrora tinham sido talismãs nas suas conquistas. Algumas dessas coisas seriam para doar aos pobres. Ele sempre se intrigou com a vida dos pobres. Ali estava ele: a separar o bom do mau, o passado do futuro. Enquanto que, algures no resto do mundo, havia milhões de pessoas que se davam por felizes com o que tinham no presente, mesmo que isso fosse metade de muito pouco. Sentia pena dessas pessoas, e por vezes tinha vontade de lhes dar tudo o que tinha, para tentar nivelar a distância que separava quem não tinha nada de quem tinha tudo – mesmo sabendo que esse gesto seria em vão.
Naquele dia, no meio do entulho, encontrou um objecto muito semelhante a um rosário. Nunca soube o que aquilo era, concretamente. Apesar de se assemelhar a um rosário, não o era. Tinha duas cruzes: uma inteira, outra partida. Era feito de missangas pretas e vermelhas e duas outras com um certo padrão - a fazer lembrar os colares que os índios usavam, naqueles filmes do velho oeste. Perguntou à mãe se sabia o que aquilo era. A mãe evitou a pergunta dizendo que não sabia, mas que lhe tinha sido oferecido por uma amiga da avó dele.
“De qualquer das formas vou guardar. Pode ser que me proteja. Tu não queres acreditar, mas estou rodeado de bruxas. Ando cheio de bruxedo neste corpo” disse ele
“Quem é que te quer mal?” perguntou a mãe
“As mulheres, mãe. As mulheres!”
No pico das alergias fugiu do meio do pó com o seu novo talismã nas mãos. O futuro, nas pontas dos dedos, parecia sorrir.
O dia seguinte chegou num fechar de olhos. O sol teimava em tocar-lhe a cara, passando por entre os buracos da persiana mal fechada. Acordou sobressaltado com os gritos do avô:
“Acorda Pedro!”
Tinha perdido o direito de continuar a abraçar os lençóis e a almofada. A cabeça dele, dormente do sono, latejava com os decibéis dos gritos. O avô era um velho lobo-do-mar. Habituado a lidar com todo o tipo de pessoas: desde a escória da sociedade, até ao mais altivo dos capitães. Estava habituado a falar alto e sem maneiras. Sempre com mais força, que engenho. No entanto, burro velho não aprende línguas e ele já se tinha habituado ao jeito pouco dócil do avô. Aprendeu a gostar dele assim, e já não o conseguia ver doutra maneira.
Levantou-se e vestiu-se num ápice. Tomou o pequeno-almoço – o avô continuava aos berros. Agora com alguma coisa que não estava ao seu jeito. O habitual – lavou a cara e os dentes e seguiu para o carro.
“Vem de marcha à ré”
Ele bem pedia ao avô para lhe sair do caminho, mas o homem era teimoso em dose e meia. Distraído com a teimosia do avô, com medo de lhe passar por cima, bateu com o carro no portão, estragando um dos espelhos. A gritaria subiu de tom. Onde estava a sorte do talismã?
“Não sabes fazer nada. Andas sempre distraído.”
Ele detestava errar. As palavras do avô entravam no ouvido e alojavam-se no peito como facas. Ele sangrava por dentro e ninguém via. A fúria nos olhos do avô era a mesma que lhe corria nas veias dos punhos cerrados. Preferiu ficar calado. Deixar o capitão meter as tripas de fora.
Depois do almoço, deitou-se no sofá a lembrar-se das palavras do avô. Dos gritos estridentes nos ouvidos.
“Era tudo mais simples se ele já não estivesse aqui”
Custou-lhe pensar nisto. Era triste. Pensou nos pobres que se davam por felizes por terem alguém da família neste mundo. Estava a ser egoísta. No entanto, naquele momento de raiva, soube-lhe bem pensar que o avô já não estava por cá. Adormeceu a pensar nisso...
“Que sonho estranho” pensou ele ao acordar.
Tinha sonhado que o avô tinha morrido e que estava no funeral. Entre choros e gritos entrou numa casa vazia. As paredes mudas não tinham o mesmo encanto de outros tempos em que ecoavam os gritos do capitão. Chorou. Pediu tréguas ao silêncio. Tudo em vão. Onde estava o talismã?
Minutos após o momento de reflexão, o avô entrou na sala: jornal numa mão, óculos pendurados ao pescoço e boina preta na cabeça.
“Rico soninho”
Ainda desorientado entre a realidade e o sonho, ele respondeu:
“Estava mesmo a precisar velhote”
Uma mosca albina voava pela sala. Não se ouvia o bater das suas asas, já que o barulho era abafado pela voz do velho lobo-do-mar.
Nessa noite, depois de todos se irem deitar ele agarrou o talismã e agradeceu-lhe. A mosca albina poisou no ecrã do computador. O barulho irritante das suas asas fazia-se sentir pela casa em silêncio. Naquele momento, sentiu saudade dos gritos do avô.
“Até amanhã capitão”

PedRodrigues

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Tudo o que é especial um dia deixará de o ser (?)

Deita-te aqui comigo que eu não mordo. Ou melhor, não deites. Vai-te embora que já deixaste o teu cheiro no meu quarto. Pensando bem: fica. Eu agora estou sozinho e vou sentir a tua falta – vou sentir a falta de todas. Desculpa. Não és especial.
Diz que gostas de mim. Não dizes?
“Oh Pedro”
Não te pedi que digas o meu nome. Pelos vistos, ainda não o esqueceste. Diz que gostas de mim, que eu respondo na mesma moeda. Pensando bem: talvez não responda. Eu gosto de ti e de todas. Não és especial. Irritas-me, é um facto. Se dissesses que gostas de mim
“Tens medo?”
(eu já sei a resposta)
“Oh Pedro… Eu gosto, mas não o suficiente para uma relação”
Só quero que digas que gostas. Eu sei que sim. Deixas que te toque aqui e ali – sem abusar. Eu também conheço os meus limites. Sorris quando te falo em amor. Fazes cenas de ciúmes – escusas de dizer que não. Até as outras têm medo de ti. Mexes-me no cabelo e fazes-me festas e dás-me a mão. Não entendo qual é o problema de dizeres que gostas de mim. Começo a achar que é mentira. Que não me queres para ti, mas também não queres que mais ninguém me tenha. Depois vem-me este cheiro às narinas, que me deixas no quarto, e apago esses pensamentos – absurdos?  No final das contas acho que gostas de mim, embora não o suficiente. No final das contas: não és especial.
Vem para a minha beira. Não me fujas.
“Eu não mordo”
Embora às vezes me arme em lobo mau.
“Oh Pedro”
Não te esqueces do meu nome. Já te esqueceste de como gostavas de mim? Desculpa se fui cego e não vi. Não me martirizes por um erro. Já te pedi desculpa. Não me esqueço que errei. Como não me esqueço de como me beijavas: uma e outra vez. De como me apertavas a mão, com medo que fugisse na primeira oportunidade – às vezes tinha vontade de o fazer. De como era o teu ídolo – mesmo quando me dividias com mais umas quantas. Hoje ainda me lembro. Será que te esqueceste que já quiseste fugir comigo?
“Não me imagino fora daqui”
Afinal também mentes. Afinal talvez não gostes de mim. Afinal, o final talvez esteja próximo. Talvez estejamos a adiar o inevitável. Até este cheiro acabará por desaparecer. Um dia não vou cá estar e tu vais sentir a minha falta – será? Um dia todas elas serão passado e alguma será presente e futuro. A sorte sorriu-nos até agora. Um dia também tu serás passado e serás só uma delas. Não serás especial. A minha mãe sempre me disse que há um tempo para tudo. Talvez o teu tenha chegado ao fim. Talvez o nosso tenha chegado ao fim. Somos ambos pessoas teimosas.
Mais uma vez:
“Gostas de mim?”
(Eu já sei a resposta, mas espero estar errado)
“Oh Pedro… Não o suficiente para…”
Pára por aí. Não quero ouvir mais.
“Tenho de me ir embora”
Eu sei que tens. Acho que já partiste há muito tempo. Tudo o resto são miragens. Levo-te à porta, pergunto novamente e digo-te adeus – para sempre? O elevador chega ao rés-do-chão e eu fecho a porta. As outras chamam por mim e eu dou luz verde à minha vontade. Tenho pena, mas já não és especial.

PedRodrigues

(Podem ler a mensagem/crítica do escritor José Luís Peixoto, referente a este texto, aqui.)

sexta-feira, 8 de abril de 2011

O amor é não haver polícia (?)

Nunca digas nunca.
Hoje é a última vez que te escrevo – talvez. Um dia disse-te:
“Dedico um texto, todos os dias, até ao fim dos meus dias, à mulher a quem eu disser: amo-te”
Um dia pensei que essa mulher fosses tu. Silly me. Hoje vejo que talvez não seja bem assim. Não me leves a mal. Lembra-te de como comecei o texto. Deposito em ti – em nós - bastante fé. Acredita que sim. Mas, infelizmente, tu não mudas. E, infelizmente para ti, eu também não.
Um dia disse-te que és linda. Talvez o tenha dito poucas vezes. Ou pelo menos, não te disse tantas vezes como devia. Continuas linda. O teu perfume não mudou de aroma, ou então talvez seja o meu nariz que se viciou nesse teu cheiro. Não estás mais magra, embora eu pensasse que sim - ou me tenham dito que sim. Continuas directamente proporcional ao meu desejo. Esse será sempre o meu problema. Infelizmente, nada muda entre nós.
Acredito que gostes de mim. Assim como eu gosto de ti. No final das contas: somos nós. A nossa história começou torta e nunca tivemos forças para a endireitar, em conjunto - errámos sempre em algum pormenor. Hoje eu vivo abraçado pela utopia da bigamia e do amor de várias mulheres – talvez para preencher o vazio que trago no peito. Se estou contigo penso nelas, e quando estou com elas lembro-me de ti. Tu coleccionas namorados e admiradores, como belo pedaço de mulher que és. É verdade: és. Isso irrita-me. Sempre me irritou. Mas não sou ninguém para pedir que mudes isso – talvez seja, mas não o vou fazer.
Há uns dias disseste para te levar comigo. Sabes do meu sonho. Acreditas nele. Adoro isso em ti. Disse que não te levava comigo. Tu pediste-me novamente. Eu cedi. No entanto, não me sinto segunda escolha para ninguém. Não me sinto o ombro amigo. Não quero ser o coração e não ter o corpo. Não sou de ferro e também funciono a beijos, carícias, olhares, toques, sexo… Não queiras que eu te dê o amor para os outros colherem o prémio. Tu não mudas. Eras tu quem mais eu queria junto a mim – longe de tudo; longe de todos – mas tu não mudas. Desculpa.
Hoje não sei que te dizer. O meu feitio é peculiar. Para ele, o “nós” não existe. Infelizmente para ele, tu existes. És um problema com duas pernas. Eu sou um compêndio de ossos, carne e confusão. Gostamos muito um do outro. Temos uma história por terminar. Os príncipes nem sempre ficam com as princesas. O amor é um campo de batalha e não tenho forças para lutar para sempre. No entanto, termino o texto como o comecei: nunca digas nunca.

PedRodrigues