domingo, 24 de abril de 2011

Reflexões a quente: adeus ao(s) meu(s) amor(es)

Estou mal disposto. A esta hora em que o sol se levanta: estou mal disposto. Disseram-me para tratar dos assuntos pendentes. Disseram-me que o passado um dia pode causar estragos no futuro. Agora, neste momento em que me encontro bêbedo e sem travões, eu acredito. Estou farto de ser tratado como cão. Hoje eu conheço o meu dono. Estou farto de gostar, tentar, gostar... Tirem-me daqui. Faltam dez minutos de melancolia para me ir embora. Faltam dez metros de alguma coisa para chegar a lado algum. Falta o primeiro passo.
Hoje gosto de muitas. Hoje não gosto de ti. Agora metes-me nojo. Agora és a pessoa mais ridícula que conheço. Sempre foste. Sempre me irritaste. És burra. Metes-me nojo. Tantas outras. Tantos momentos. Tantos erros. Tanta merda que te dei: tristezas, alegrias, ciúmes... Irritas-me! Hoje disse-te adeus. Hoje disseram-me: "diz-lhe adeus". Hoje sinto-me mal disposto - aqui e agora. Hoje quero amar a Marta, a Rita, a Andreia, a Cecília e outras tais. Todas elas são melhores que tu. Hoje espero que compreendas: irritas-me e metes-me nojo. Hoje estou ébrio e não consigo travar o limite da minha imaginação. Fica com eles: se são melhores que eu - serão? Elas são melhores que tu. Sempre foram. Não te quero, não te dês. Hoje sou puta e não sei amar. Hoje levo com as facas perdidas das amizades desniveladas. Hoje são poucos os amigos - e muitos os actores. Hoje eu levanto o dedo e digo: "chega". Hoje sou a chaga viva das facadas alheias. Não sou o melhor, não sou o pior... Não quero ser mártir. Não quero ser visto como o pobre coitado. Hoje elas tiram o dia para me amar. Todos os dias eu sonho com o dia em que consiga retribuir o favor.
Hoje tu és o objecto, a burra, a ridícula, a escrava sexual... Hoje ponho as mãos no fogo: tu pensas em mim quando estás com eles. São melhores no papel. São melhores na cara e na boca dos outros. Mas aí onde mora esse coração - eu sei que mora - tu sofres por mim. Tu sonhas comigo. E tu projectas neles o meu melhor - algo que nunca hei-de conseguir ser. Hoje disse-te adeus. Obrigado a quem me abriu os olhos.
Neste momento em que o sol nasce e o vinho me parece querer fugir da garganta: eu amo a Marta, a Rita, a Andreia, a Cecília e todas as outras. Tu és só mais um pedaço de história. Desculpa mas não mereces viver feliz para sempre com o príncipe.


PedRodrigues

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Poema número trinta e um


Para ti, minha Musa…


És bela donzela
Doce, singela
De histórias de encantar
És um laivo de poesia
És prosa vadia
Que não me canso de trovar
És um raio de luz
Minha vida, minha cruz
Meu amor de perdição
És um toque e um beijo
Minha libido, meu desejo
Minha luz na escuridão
Sonho contigo no meu leito
Deitada sobre meu peito
Bem junto ao meu coração
Sonho sussurrar-te ao ouvido
Palavras com sentido
Sentimento e comoção
E no auge da eupatia
Dizer-te que o que queria
Era não mais te perder
Olhar para ti todos os dias
Realizar-te as fantasias
E não mais te ver sofrer.


PedRodrigues

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Capitão barulho

Nunca gostou de arrumações. Mexer no passado não era o seu forte, até porque era alérgico ao pó. No entanto, naquele dia decidiu ajudar a mãe a separar o passado do futuro. No meio do entulho de memórias, ia separando roupas velhas que já não usava, máquinas de calcular, livros e alguns acessórios que outrora tinham sido talismãs nas suas conquistas. Algumas dessas coisas seriam para doar aos pobres. Ele sempre se intrigou com a vida dos pobres. Ali estava ele: a separar o bom do mau, o passado do futuro. Enquanto que, algures no resto do mundo, havia milhões de pessoas que se davam por felizes com o que tinham no presente, mesmo que isso fosse metade de muito pouco. Sentia pena dessas pessoas, e por vezes tinha vontade de lhes dar tudo o que tinha, para tentar nivelar a distância que separava quem não tinha nada de quem tinha tudo – mesmo sabendo que esse gesto seria em vão.
Naquele dia, no meio do entulho, encontrou um objecto muito semelhante a um rosário. Nunca soube o que aquilo era, concretamente. Apesar de se assemelhar a um rosário, não o era. Tinha duas cruzes: uma inteira, outra partida. Era feito de missangas pretas e vermelhas e duas outras com um certo padrão - a fazer lembrar os colares que os índios usavam, naqueles filmes do velho oeste. Perguntou à mãe se sabia o que aquilo era. A mãe evitou a pergunta dizendo que não sabia, mas que lhe tinha sido oferecido por uma amiga da avó dele.
“De qualquer das formas vou guardar. Pode ser que me proteja. Tu não queres acreditar, mas estou rodeado de bruxas. Ando cheio de bruxedo neste corpo” disse ele
“Quem é que te quer mal?” perguntou a mãe
“As mulheres, mãe. As mulheres!”
No pico das alergias fugiu do meio do pó com o seu novo talismã nas mãos. O futuro, nas pontas dos dedos, parecia sorrir.
O dia seguinte chegou num fechar de olhos. O sol teimava em tocar-lhe a cara, passando por entre os buracos da persiana mal fechada. Acordou sobressaltado com os gritos do avô:
“Acorda Pedro!”
Tinha perdido o direito de continuar a abraçar os lençóis e a almofada. A cabeça dele, dormente do sono, latejava com os decibéis dos gritos. O avô era um velho lobo-do-mar. Habituado a lidar com todo o tipo de pessoas: desde a escória da sociedade, até ao mais altivo dos capitães. Estava habituado a falar alto e sem maneiras. Sempre com mais força, que engenho. No entanto, burro velho não aprende línguas e ele já se tinha habituado ao jeito pouco dócil do avô. Aprendeu a gostar dele assim, e já não o conseguia ver doutra maneira.
Levantou-se e vestiu-se num ápice. Tomou o pequeno-almoço – o avô continuava aos berros. Agora com alguma coisa que não estava ao seu jeito. O habitual – lavou a cara e os dentes e seguiu para o carro.
“Vem de marcha à ré”
Ele bem pedia ao avô para lhe sair do caminho, mas o homem era teimoso em dose e meia. Distraído com a teimosia do avô, com medo de lhe passar por cima, bateu com o carro no portão, estragando um dos espelhos. A gritaria subiu de tom. Onde estava a sorte do talismã?
“Não sabes fazer nada. Andas sempre distraído.”
Ele detestava errar. As palavras do avô entravam no ouvido e alojavam-se no peito como facas. Ele sangrava por dentro e ninguém via. A fúria nos olhos do avô era a mesma que lhe corria nas veias dos punhos cerrados. Preferiu ficar calado. Deixar o capitão meter as tripas de fora.
Depois do almoço, deitou-se no sofá a lembrar-se das palavras do avô. Dos gritos estridentes nos ouvidos.
“Era tudo mais simples se ele já não estivesse aqui”
Custou-lhe pensar nisto. Era triste. Pensou nos pobres que se davam por felizes por terem alguém da família neste mundo. Estava a ser egoísta. No entanto, naquele momento de raiva, soube-lhe bem pensar que o avô já não estava por cá. Adormeceu a pensar nisso...
“Que sonho estranho” pensou ele ao acordar.
Tinha sonhado que o avô tinha morrido e que estava no funeral. Entre choros e gritos entrou numa casa vazia. As paredes mudas não tinham o mesmo encanto de outros tempos em que ecoavam os gritos do capitão. Chorou. Pediu tréguas ao silêncio. Tudo em vão. Onde estava o talismã?
Minutos após o momento de reflexão, o avô entrou na sala: jornal numa mão, óculos pendurados ao pescoço e boina preta na cabeça.
“Rico soninho”
Ainda desorientado entre a realidade e o sonho, ele respondeu:
“Estava mesmo a precisar velhote”
Uma mosca albina voava pela sala. Não se ouvia o bater das suas asas, já que o barulho era abafado pela voz do velho lobo-do-mar.
Nessa noite, depois de todos se irem deitar ele agarrou o talismã e agradeceu-lhe. A mosca albina poisou no ecrã do computador. O barulho irritante das suas asas fazia-se sentir pela casa em silêncio. Naquele momento, sentiu saudade dos gritos do avô.
“Até amanhã capitão”

PedRodrigues