“No Facebook sou quem quero”
Foi esta a frase que me ocorreu num destes dias. Lamentavelmente, a curiosidade matou o gato, mas eu não vejo ninguém a cair para o lado quando começa a hora da especulação. Não me levem a mal. Sou um ser curioso. Não gosto da ignorância – embora cada vez mais seja uma bênção. Não quero ir para a campa sem saber tudo aquilo que posso saber, mas quanto mais sei, mais inquieto fico; quanto mais inquieto fico, mais quero saber. Não é saudável. Acreditem.
Vejo cada vez mais a curiosidade como um trapézio sem rede: cair pode ser fatal. O lado negro da curiosidade é o seu uso abusivo. Quando esta passa de uma simples procura por uma resposta e se torna num furacão de especulações e mexericos. Não é saudável. Faz-me lembrar as conversas da minha avó Lucinda – que Deus a tenha – com as amigas, no sofá da casa dela. Falavam de tudo e de todos:
“Diz que disse que aquele enganou aquela e que tem um filho não sei onde que está às portas da morte por se ter metido na droga”
(Sem pausas para não perder o ritmo nem o fio à meada)
Recordo com saudade esse tempo. Não que tenha saudades de ouvir os mexericos, mas porque ali a conversa não vinha em forma de comentários para quatrocentas pessoas que não conheço lerem. Tenho saudades de me esquecer das conversas sobre a vida do filho-de-não-sei-quem-que-agora-namora-com-a-outra-e-espera-um-filho-da-vizinha. A vida era bela quando o sofá da casa da avó Lucinda era o Facebook da terceira idade.
É com tristeza que hoje eu faço parte deste problema – será? - que tento descrever. É com tristeza que perco horas a rir-me para o ridículo. Mas fico bastante feliz por saber que estou a errar. Infelizmente – será? - há quem erre ainda mais que eu. Gosto de estudar os comportamentos das pessoas – não de um ponto de vista sociopata – mas gosto de ver como reagem ao que escrevo. Acredito que não seja o único a pensar assim, mas ao contrário de muita gente sinto vontade de o partilhar e tenho capacidade para o fazer – perdoem-me este garrafão de água benta que acabei de tomar.
Tal como no sofá da avó Lucinda, nem sempre tudo o que se diz corresponde à verdade. Basta recordar a frase com que comecei o texto. Meninas: não acreditem que o príncipe encantado está solteiro. Ele tem namorada e provavelmente um harém de amantes. Meninos: as frases melosas nem sempre são para o namorado – há mais marés que marinheiros – mas não se deixem enganar por certas ousadias. A publicidade também engana. Um estado no Facebook pode ser só a constatação de um facto, ou pode ser só uma forma de ver quem reage – e como reage - ao que foi escrito. Há quem goste de se gabar – “muita parra, pouca uva” – e há os que não precisam de público. Há os que gostam de dar a cara, e os que gostam de usar a máscara. Pessoalmente, eu acho que há mais acção nos bastidores que no palco, e tendo em conta que a ficção decorre no palco e a realidade nos bastidores, sintam-se à vontade para especular onde está a verdade.
Tenho pena de fazer parte deste problema. A curiosidade matou o gato, mas hoje em dia preferimos morrer a saber onde a vizinha gastou a herança, que viver de mãos dadas com a ignorância. Eu também gosto de saber aquilo a que tenho direito. Não hei-de ir deste mundo ignorante. Mas a verdade é que a minha liberdade termina onde começa a do próximo. A minha curiosidade devia terminar onde começa o segredo mais sagrado do próximo. Infelizmente, hoje em dia, a curiosidade já não é uma simples procura por uma resposta. Hoje em dia, os mexericos começam no “mural” do vizinho. Mas nunca é de mais lembrar: a verdade é o que fazemos dela. Qual é a tua verdade?
PedRodrigues