quarta-feira, 11 de maio de 2011

Breve elogio à estupidez: o sofá, os mexericos e a verdade


“No Facebook sou quem quero”
Foi esta a frase que me ocorreu num destes dias. Lamentavelmente, a curiosidade matou o gato, mas eu não vejo ninguém a cair para o lado quando começa a hora da especulação. Não me levem a mal. Sou um ser curioso. Não gosto da ignorância – embora cada vez mais seja uma bênção. Não quero ir para a campa sem saber tudo aquilo que posso saber, mas quanto mais sei, mais inquieto fico; quanto mais inquieto fico, mais quero saber. Não é saudável. Acreditem.
Vejo cada vez mais a curiosidade como um trapézio sem rede: cair pode ser fatal. O lado negro da curiosidade é o seu uso abusivo. Quando esta passa de uma simples procura por uma resposta e se torna num furacão de especulações e mexericos.  Não é saudável. Faz-me lembrar as conversas da minha avó Lucinda – que Deus a tenha – com as amigas, no sofá da casa dela. Falavam de tudo e de todos:
“Diz que disse que aquele enganou aquela e que tem um filho não sei onde que está às portas da morte por se ter metido na droga”
(Sem pausas para não perder o ritmo nem o fio à meada)
Recordo com saudade esse tempo. Não que tenha saudades de ouvir os mexericos, mas porque ali a conversa não vinha em forma de comentários para quatrocentas pessoas que não conheço lerem. Tenho saudades de me esquecer das conversas sobre a vida do filho-de-não-sei-quem-que-agora-namora-com-a-outra-e-espera-um-filho-da-vizinha. A vida era bela quando o sofá da casa da avó Lucinda era o Facebook da terceira idade.
É com tristeza que hoje eu faço parte deste problema – será? - que tento descrever. É com tristeza que perco horas a rir-me para o ridículo. Mas fico bastante feliz por saber que estou a errar. Infelizmente – será? -  há quem erre ainda mais que eu. Gosto de estudar os comportamentos das pessoas – não de um ponto de vista sociopata – mas gosto de ver como reagem ao que escrevo. Acredito que não seja o único a pensar assim, mas ao contrário de muita gente sinto vontade de o partilhar e tenho capacidade para o fazer – perdoem-me este garrafão de água benta que acabei de tomar.
Tal como no sofá da avó Lucinda, nem sempre tudo o que se diz corresponde à verdade. Basta recordar a frase com que comecei o texto. Meninas: não acreditem que o príncipe encantado está solteiro. Ele tem namorada e provavelmente um harém de amantes. Meninos: as frases melosas nem sempre são para o namorado – há mais marés que marinheiros – mas não se deixem enganar por certas ousadias. A publicidade também engana. Um estado no Facebook pode ser só a constatação de um facto, ou pode ser só uma forma de ver quem reage – e como reage - ao que foi escrito. Há quem goste de se gabar – “muita parra, pouca uva” – e há os que não precisam de público. Há os que gostam de dar a cara, e os que gostam de usar a máscara. Pessoalmente, eu acho que há mais acção nos bastidores que no palco, e tendo em conta que a ficção decorre no palco e a realidade nos bastidores, sintam-se à vontade para especular onde está a verdade.
Tenho pena de fazer parte deste problema. A curiosidade matou o gato, mas hoje em dia preferimos morrer a saber onde a vizinha gastou a herança, que viver de mãos dadas com a ignorância. Eu também gosto de saber aquilo a que tenho direito. Não hei-de ir deste mundo ignorante. Mas a verdade é que a minha liberdade termina onde começa a do próximo. A minha curiosidade devia terminar onde começa o segredo mais sagrado do próximo. Infelizmente, hoje em dia, a curiosidade já não é uma simples procura por uma resposta. Hoje em dia, os mexericos começam no “mural” do vizinho. Mas nunca é de mais lembrar: a verdade é o que fazemos dela. Qual é a tua verdade?

PedRodrigues

domingo, 1 de maio de 2011

Madrecita

Obrigado.
Deste-me ao mundo: parte de ti. É a tua metade que guardo comigo. Amo o pai, como te amo a ti, mas tu sempre deste o teu sangue, a tua alma e um pouco do teu corpo por mim.
Nos anos que me faltam com o pai, tu preencheste o vazio. Sempre foste o encarregado de educação. Amo o pai, como te amo a ti. Mas se for possível - se me permitirem - amo-te um bocadinho mais. Desculpa pai, tu sabes que é verdade. Ela sempre esteve cá. Em todos os momentos: ela sofreu, e escondeu-te o sofrimento. A léguas marítimas: ela viu-me a sofrer por um pouco de ar nos mares da Espanha. Ela esteve comigo, de mão dada, no hospital em Lisboa. Ela sempre esteve lá: nos bons e nos maus momentos. Desculpa pai, mas mãe é mãe.
Amo-te mãe. Hoje não é o teu dia. Hoje o meu amor não é maior que ontem. Hoje continuas linda. Hoje continuas mulher: o protótipo perfeito. Hoje sofres por mim, como ontem sofreste, e como hás-de continuar a sofrer. Não te quero a sofrer mãe. Mereces o melhor. Mereces rosas. Mereces beijos. Mereces o melhor que eu posso ser. Desculpa se não nasci perfeito. A pouca perfeição que tenho, herdei dos teus genes. Desculpa se te magoo: em pensamentos, actos e omissões. Desculpa não ser tão belo como devia ser. Obrigado por ocultares os meus erros e os meus defeitos. Obrigado por me lembrares que eu sou o melhor – mesmo quando sei que valho pouco mais que nada.
És tão linda mãe. Adoro cada ruga. Cada traço que muda com o tempo, mas que te faz continuar igual. Tão bela. Cada gesto que fazes com a boca quando o vento não sopra a favor. Cada grito que mandas para o ar:
“Pedro Miguel”
Que eu apanho: não com as mãos, mas com o estômago. Quando tremo só de pensar que estás chateada comigo. Detesto quando te vejo chateada. Não mereces mãe. Esse sorriso devia brilhar sempre. Gosto tanto dele mãe.
Desculpa se hoje não te ofereço rosas, ou outro bem material. Desculpa se só te posso dar palavras. Só posso dizer que te amo, que te adoro, que te venero. Hoje não é o teu dia. Hoje não é um dia especial. Hoje não te amo mais. Não te consigo amar mais. Os dias são iguais, desde que saiba que estás comigo: em pensamento, em rezas, em actos, em corpo, em alma… Hoje és o protótipo da mulher perfeita. Desculpa não te dizer todos os dias o que te vou dizer hoje – hoje o dia não é especial. Todos os dias são especiais contigo.
“Amo-te mãe”

PedRodrigues

domingo, 24 de abril de 2011

Reflexões a quente: adeus ao(s) meu(s) amor(es)

Estou mal disposto. A esta hora em que o sol se levanta: estou mal disposto. Disseram-me para tratar dos assuntos pendentes. Disseram-me que o passado um dia pode causar estragos no futuro. Agora, neste momento em que me encontro bêbedo e sem travões, eu acredito. Estou farto de ser tratado como cão. Hoje eu conheço o meu dono. Estou farto de gostar, tentar, gostar... Tirem-me daqui. Faltam dez minutos de melancolia para me ir embora. Faltam dez metros de alguma coisa para chegar a lado algum. Falta o primeiro passo.
Hoje gosto de muitas. Hoje não gosto de ti. Agora metes-me nojo. Agora és a pessoa mais ridícula que conheço. Sempre foste. Sempre me irritaste. És burra. Metes-me nojo. Tantas outras. Tantos momentos. Tantos erros. Tanta merda que te dei: tristezas, alegrias, ciúmes... Irritas-me! Hoje disse-te adeus. Hoje disseram-me: "diz-lhe adeus". Hoje sinto-me mal disposto - aqui e agora. Hoje quero amar a Marta, a Rita, a Andreia, a Cecília e outras tais. Todas elas são melhores que tu. Hoje espero que compreendas: irritas-me e metes-me nojo. Hoje estou ébrio e não consigo travar o limite da minha imaginação. Fica com eles: se são melhores que eu - serão? Elas são melhores que tu. Sempre foram. Não te quero, não te dês. Hoje sou puta e não sei amar. Hoje levo com as facas perdidas das amizades desniveladas. Hoje são poucos os amigos - e muitos os actores. Hoje eu levanto o dedo e digo: "chega". Hoje sou a chaga viva das facadas alheias. Não sou o melhor, não sou o pior... Não quero ser mártir. Não quero ser visto como o pobre coitado. Hoje elas tiram o dia para me amar. Todos os dias eu sonho com o dia em que consiga retribuir o favor.
Hoje tu és o objecto, a burra, a ridícula, a escrava sexual... Hoje ponho as mãos no fogo: tu pensas em mim quando estás com eles. São melhores no papel. São melhores na cara e na boca dos outros. Mas aí onde mora esse coração - eu sei que mora - tu sofres por mim. Tu sonhas comigo. E tu projectas neles o meu melhor - algo que nunca hei-de conseguir ser. Hoje disse-te adeus. Obrigado a quem me abriu os olhos.
Neste momento em que o sol nasce e o vinho me parece querer fugir da garganta: eu amo a Marta, a Rita, a Andreia, a Cecília e todas as outras. Tu és só mais um pedaço de história. Desculpa mas não mereces viver feliz para sempre com o príncipe.


PedRodrigues