quinta-feira, 14 de julho de 2011

Breve elogio(?) à falta de inspiração

Enquanto me vou perdendo a divagar pelos recantos mais recônditos da minha imaginação, à procura do melhor tema para uma crónica ou um livro, lá vou procurando a inspiração no álbum de fotos femininas que me é apresentado. Quanto mais penso no assunto, menos certezas tenho. Todos os temas me parecem ocos. Gostava de começar com algo que prenda o leitor nas primeiras frases. Uma droga em forma de palavras que torne o leitor fatalmente viciado a cada parágrafo. Quero que o meu livro seja uma droga (de certa forma já me sinto banal a cada palavra).
Detesto inícios. Sinceramente, perco pequenas eternidades a olhar para a folha em branco. Nunca sei como começar. Nunca sei por onde começar. O branco hipnótico das folhas deixa-me assim: confuso e perdido. Tenho uma ideia na cabeça – mais que uma, até. Dizem por aí que o mais difícil de cada texto é o seu final. Nunca acreditem nas palavras de um escritor. Não acreditem em tudo o que escrevo. É impossível descrever a realidade de forma precisa. Todos tomamos liberdades – perdoem-me a presunção. Repito: detesto inícios. Lá vou vendo mais uma fotografia, continuo na mesma. Não continuo na mesma, o meu cérebro sim. Está a zeros. Eu lá encontrei mais um pormenor na fotografia dela. Mais uma linha que me tinha passado despercebida das primeiras vezes que a vi. A televisão também não ajuda. Nada a não ser futebol, filmes sem conteúdo, políticas vazias e economias destruídas pelos mesmos que apontam o dedo a outros tantos. Lá procuro mais uma foto. Lá procuro mais uma vítima para o meu olhar de falcão. Para a ganância do meu desejo. Será que o início se esconde nas linhas que limitam a fotografia. Aposto que ela esconde infinitas histórias em cada fio de cabelo; em cada milímetro de pele esconde uma série de epopeias. Lá vou pegando nos livros. Leio cinquenta páginas e o resultado é o mesmo. Onde está o início que tanto me foge? Onde está o tema que me vai dizendo adeus num horizonte qualquer? Onde está a inspiração e a coragem de dar o primeiro passo? Vou ficando na mesma. Vou-me frustrando a cada letra que aparece no ecrã. A página em branco está suja. Consegui tingir o branco hipnótico com a tinta da falta de inspiração. Não tenho vontade nenhuma de fazer sentido com as minhas palavras. Quero apenas escrever. Procurar um livro numa frase que me pode sair a qualquer momento. Vou-me lembrando de filmes, de livros, da vida, mas continuo impotente. Falta-me alguma chama. Falta-me genica. Falta-me o início. Neste abismo que me vai separando do meu melhor tenho vontade de me atirar de cabeça. Enquanto não o faço, lá vou publicando folhas tingidas com a minha falta de imaginação.

PedRodrigues

terça-feira, 12 de julho de 2011

O último passo

Passavam trinta e nove minutos das três, quando ela me ligou. Um dia tinha-me dito
“O meu telemóvel não liga para pessoas como tu”
Respeitei, mas não acreditei. Nunca gostei de falar ao telefone. Não gosto da ideia de estar a falar para uma pessoa sem a estar a ver. Apesar de gostar de falar com as paredes de vez em quando – são excelentes ouvintes, acreditem – não gosto da ideia de estar a falar sozinho de um lado, sem saber o que se passa do outro. Daí nunca me ter importado com a falta de chamadas dela. Não nos faltam Bíblias de mensagens escritas, – nisso sou realmente bom – nunca nos faltam as palavras: pequenos espaços de silêncio só para aguçar o próximo tema. Nunca nos faltam temas. Lá vamos inventando histórias e pequenos conflitos para que a monotonia não venha mostrar-nos a cara. Nunca mostrou.
Ela é um desafio. De facto, desde a minha última namorada que não me sentia assim tão desafiado. Peço desculpa a todas as outras. Mesmo as mais bonitas me aborreciam. Infelizmente para elas, nunca quis um museu com pernas. Não vou mentir: gosto da cobiça alheia. Mas, para mim, até a beleza oca perde a sua piada. Uma garrafa sem o seu conteúdo é só uma garrafa - por muito bonita que seja. Ela não é assim. Consegue-me fazer rir das formas mais inesperadas. Nunca segue o guião e, apesar de ir descobrindo algumas deixas, lá me vai surpreendendo: frase sim, frase não. Tem ataques de histeria nos momentos mais inoportunos e nas situações mais fora do contexto que posso imaginar. De certa forma, ela tem algo que eu não tenho: coragem. No meio dessa falha lá nos vai faltando o último passo. O derradeiro passo que nos levará ao próximo nível – seja ele qual for. Lá nos vamos abraçando. Lá nos vamos tocando. Lá nos vamos misturando um no outro. Dando um beijo no braço, outro beijo no pescoço, uma lambidela na cara, ou um suspiro na nuca… Falta sempre coragem para o último acto. E assim vamos perdendo-nos no corpo um do outro. Beijando-nos em pensamento enquanto a coragem vai faltando a ambos. Ninguém quer arriscar, visto que ninguém gosta de perder.
Ela lá me vai dizendo:
“Detesto-te”
Enquanto eu vou respondendo
“No entanto, aqui estás tu”
(Uma gargalhada estridente)
“Tenho pena de ti. Ninguém gosta de ti”
Eu não me deixo ficar
“Se não gostasses, não vinhas ao meu encontro”
E lá nos vamos mutilando um ao outro. Cortando-nos pouco a pouco com palavras. Enquanto nas nossas cabeças nos vamos beijando intensamente – cada vez mais. Lá nos vai faltando a coragem, mas nunca as palavras. Lá vamos inventando assuntos nos espaços em branco. Pequenas picardias que avivem a chama – enquanto o fogo na cabeça e no corpo é cada vez maior. Lá nos vai faltando o último passo. Lá vou eu imaginando: e quando o último passo chegar, será que ela perde a sua piada?
(Espero que não)

PedRodrigues

terça-feira, 28 de junho de 2011

Ao meu primo, o fotógrafo

"O que me falta em palavras, sobra-me em amor"

Lembro-me, como se fosse hoje, dos pessegueiros em flor no quintal dos meus avós. Guardo essa imagem com saudade. Mas tenho medo de a guardar tão fundo, num canto qualquer do meu cérebro, que nunca mais a consiga encontrar. É nessas alturas que gostava de ter uma fotografia. Uma cábula para a eventualidade da memória me atraiçoar. É nessas alturas que sinto a falta do meu primo Pedro, com a sua máquina fotográfica, a prender o mundo num momento.
A nossa amizade vem de longe. Vem dos laços de sangue que ainda nos unem. Uma pequeníssima quantidade de genes que partilhamos como irmãos. Somos mais que família, somos mais que simples amigos, mas não sentimos necessidade de o partilhar por palavras. Há um código de honra entre nós, uma linguagem indecifrável, muito própria, que não partilhamos com ninguém. Não precisamos.
Tal como nunca lhe disse:
-És importante para mim
(Apesar de ter a certeza que ele sabe disso)
Nunca fiz um elogio decente ao trabalho dele. Um
-Gostei
Ou
-Bom trabalho
Nunca
-Excelente. Digno de um prémio. Continua
Algo de construtivo, com começo, meio e fim. Eu que até levo jeito para usar as palavras, nunca lhe consegui dizer que para mim ele é o melhor - com condições para ser o melhor no mundo dos entendidos da matéria. Calo-me. Deixo que ele entenda o código, e apesar de não ouvir
-Obrigado.
Eu sei que ele agradece. Ao nosso jeito lá vamos falando nos espaços em branco. Preenchendo o mundo com imagens e palavras. Cada macaco no seu galho. Procurando, no entanto, o mesmo destino. Trancando nas palavras, o que o outro guarda na moldura. Parando o mundo em pequenos instantes. Gravando memórias no espaço de segundos. Inventando histórias em mil palavras - enquanto o outro as vai captando no dia-a-dia. Cada um ao seu jeito
-És importante para mim
Um olhar atrás da lente
-Bom trabalho
Mais mil palavras no papel. No espaço em branco, ele:
-Gostei
Se me tirasse uma fotografia nesse momento, expunha ao mundo o nosso segredo. Se alguém nos conseguia expor ao mundo, era ele. Está sempre mil palavras à minha frente. E isso, realmente, pouco importa. Só queria uma imagem dos pessegueiros em flor, que não tenho palavras para os descrever como eles merecem. Faltam-me sempre mil palavras. Onde andavas tu quando os pessegueiros me imploravam que os prendesse no tempo?


PedRodrigues