terça-feira, 2 de agosto de 2011

O pequeno Amor

Lembro-me do dia em que ela dormiu, pela primeira vez, no meu quarto. Adormeceu por cima dos lençóis. Desconfio que eles sentiram alguma estranheza. Nessa noite dormi no chão. Tinha-a conhecido nesse mesmo dia. Andávamos a falar há algumas semanas, mas nunca nos tínhamos visto, nunca nos tínhamos tocado ou ouvido. Lembro-me da primeira vez que a vi. Estava a falar ao telemóvel e pediu-me um minuto. Pensei para mim
- Detesto quando me ignoram…
Que não tivemos um primeiro contacto decente. De certa forma, estava errado. Senti o desafio. Eu que detesto o usual. Que abomino a normalidade excessiva. Eu que, no primeiro momento em que a vi e ouvi, fui fintado. Minutos após a espera, lá me cumprimentou com um beijo na face. Seguimos o nosso destino. Vamos seguindo esse mesmo destino.
Entrou no meu quarto de rompante. Sem medo dos segredos mais obscuros que as quatro paredes poderiam esconder. Olhou em redor à procura de provas de crimes. Mexeu e remexeu nas minhas coisas. Nos meus bens. Quando se cansou das coisas – e talvez de mim – adormeceu. Dei por mim a olhar para ela: tão serena. Sorri. A loucura tinha sido substituída por uma estranha serenidade. Uma pequena normalidade que não sabia correr-lhe nas veias. Nesse momento entendi que guardava mais nela que aquilo que mostrava nas mensagens, nos sorrisos histéricos e nas loucuras que transmitia com o olhar. Tive vontade de lhe tocar, mas não queria estragar aquele momento. Deitei-me no chão e, também eu, adormeci.
Com o tempo fui tentando entender cada palavra, cada gesto, cada minuto de silêncio. Entendi que não é fácil ser como ela. Todos temos um lado que guardamos só para nós. Mas quando alguém gosta realmente, vai destapando a manta que esconde todos os segredos. Entendi a bipolaridade de cada reacção. A loucura de cada gesto deixou de ser só isso. Deixou de ser um pedido desesperado de ajuda e passou a ser um acto de rebeldia. Uma vontade urgente de se soltar do colete-de-forças a que está sujeita. Descobri que quando me ignora e não me responde, ou muda de assunto, está a caminhar em mares que não domina. Que tem medo de se entregar, embora tenha vontade. Eu sei que tem. Compreendo cada gesto e cada palavra. Quando o “não” quer dizer “sim”. Quando o medo fala mais alto. Quando ela fala em nós, mas troca as palavras, de forma inteligente, para que nada pareça o que é, e eu não avance com toda a cavalaria. Quando me cita o Edgar Allan Poe e diz
-Acho que este texto te define na perfeição. Ou a mim, já não sei distinguir a diferença…
Quando me pede em namoro na brincadeira – em que há sempre a pequena vontade. Ou quando tenta tratar-me mal. Eu aprendi a gostar de tudo e aprendi a puxar a manta. Descobri-lhe os medos. Descobri que há mais nela que aquilo que mostra. Tenho pena de quem não a conhece realmente. Tenho pena de quem lhe chama louca sem ter perdido dez minutos a falar seriamente com ela. Tenho pena de quem não a trata como merece, mas entendo que todos nós já pisámos o que havia para pisar só por maldade. Ninguém é perfeito e ninguém é bom o suficiente para ganhar um lugar no céu.
Ela lá me vai dizendo
- Namora comigo
A brincar. Lá me vai ignorando de tempos a tempos. Aposto que para travar a saudade que sente de falar comigo. A mesma saudade que sinto de falar com ela. Lá vamos tentando evitar mais uma desilusão. Nós que somos peritos nisso. Ambos. Gostava de arranjar maneira de lhe dizer que não está sozinha. Que também tenho medo e também já sofri. Sou muito bom a esconder o jogo, mas a verdade é que também já perdi algumas vezes. O meu coração tem uma ou duas chagas. “Para lembrar que há um fim”, como diria o Manel Cruz. Lá lhe vou dizendo:
- És linda, és inteligente e tens uma enorme qualidade: és rapariga
Ela sorri. Chama-me
-Estúpido
Por saber que eu sei quando ela sorri desarmada com vontade de se entregar. Lá vou amaldiçoando o medo. Enquanto ele se mete entre nós. Lá me vou lembrando da noite na discoteca e do vestido branco e do laço na cabeça.
Ela
-Estúpido
Enquanto me beijava uma e outra vez. Me mordia o lóbulo da orelha e me mexia no corpo. Eu sem me conseguir controlar. Perdido em beijos, à procura da boca dela que teimava em fugir-me. Um abraço, mais um abraço. O vestido branco que me fazia pensar em casamentos e uma vida ao lado dela. Eu perdido em ideias de um futuro à frente do presente. A mão dela dentro da camisa, no meu peito. A morder-me a orelha. Desarmada
-Estúpido
Eu a sorrir satisfeito. Sem medo de sorrir. Sem medo de me entregar. Ela linda, de branco. Um
-Namora comigo
A passear-se pela minha cabeça. Até ao momento em que, fatalmente, noutro dia, a fui levar a casa – quase, não fosse o último copo de vinho – e os nossos lábios se encontraram. No momento em que deixei de ser príncipe e voltei a ser sapo: ela desarmada; eu nas nuvens. Os lábios dela tão suaves. Veludo, sobre veludo. Juro que vi fogo-de-artifício algures – ou as luzes de um carro que passava por ali. Uma mensagem ao chegar a casa
- Não descansaste enquanto não me deste um beijo
(De facto)
Eu a mudar de assunto. Ela a beijar-me em sonhos. A beijar-me no sofá. A beijar-me na cama. A beijar-me. E se eu pudesse passava o resto da minha vida num mar de beijos dela. Aposto que ela pensa o mesmo, mas tem medo de o dizer. Ela que se esconde atrás de uma fachada que a mim não me engana. Ela que sorri, de forma sincera, quando estamos juntos, sem plateia. Ela que faz umas rugas à volta do lábio e dos olhos quando sorri assim, com sinceridade e alegria genuína. Ela que é linda. Ela que me diz
- Parecemos um casal da televisão
Mas depois
-Namora comigo
E depois
-Já não quero
Ela que é bipolar em tudo o que diz. Ela que finge não entender que eu encontrei o ponto de equilíbrio entre todas as decisões e todos os actos. Ela que tem medo de voltar a confiar. Ela que gosta de mim – eu sei que sim. Ela que me pede textos. Ela que é fantástica e precisa de alguém que lhe lembre isso todos os dias. Ela
- Já não sei distinguir
Que é a metade que tardou em aparecer. A tempestade perfeita. O outro lado da mesma moeda
Eu
- Namora comigo
Ela
-Para sempre
(Eu não acredito nisso. Nada é eterno)
-Até um dia. Namora comigo até um dia.
Não tenhas medo, que eu não largo a tua mão. Vê o fogo-de-artifício comigo, ou apenas um carro, com as luzes ligadas, a passar.


PedRodrigues

(Podem também ouvir este texto, aqui: Crónicas de ouvido (O pequeno Amor) )

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Para a estação, por favor

Sou taxista há trinta e um anos. O meu pai nunca quis que levasse esta vida. Era major na tropa e combateu no Ultramar. Também não me quis na guerra:
- A guerra mata-nos por fora e por dentro…
Dizia-me ele quando eu era mais novo. Nunca me deixou aproximar das medalhas que guardava numa sala escura lá de casa. Tinha medo que fosse possuído por um demónio qualquer que vivia em cada uma delas. Nunca tive coragem de lhe perguntar de onde tirou essa ideia que me parecia absurda. Também nunca tive curiosidade de entrar nessa sala e de mexer nas malditas medalhas. Pediu-me que me licenciasse em Direito e assim o fiz. Apesar de autoritário, sempre foi um bom pai. Nunca me faltou em nada, nem mesmo no amor - que eu via a fugir-lhe do corpo, cortesia dos horrores da guerra. O meu pai suicidou-se pouco tempo depois de eu ter terminado a faculdade.
Ele nunca gostou de taxistas. Não confiava neles. Dizia que sabiam muito sobre a vida de muita gente. O que, do ponto de vista militar, lhes dava uma vantagem táctica sobre o inimigo, neste caso: os clientes. Apesar de tudo, foi esta a vida que escolhi seguir. Acho que após a morte do meu pai, a única forma de me sentir feliz era andando às voltas pela cidade. Passeando-me por Lisboa de forma a esquecer que a vida é uma sucessão de estradas que acabam num abismo. De certa forma, na minha cabeça, esta era a minha maneira de enganar o destino. Andando às voltas pelas estradas sem nunca cair nesse abismo. Assim sendo, enfiei o diploma numa gaveta e usei parte do dinheiro da herança que o meu pai me deixou para comprar aquele que viria a ser o meu primeiro táxi.
Durante anos ouvi histórias
- Para a Rua do Comércio, por favor…
De todo o tipo de pessoas. Desde médicos, a advogados, a marinheiros, a mulheres-a-dias, a prostitutas…
- Para a Avenida de Roma e rápido, por favor!
Ia assistindo a verdadeiras tertúlias no banco de trás do meu carro. Às vezes as pessoas esqueciam-se que eu estava ali e estava a ouvir tudo. Às vezes esqueciam-se que a vantagem táctica estava do meu lado – como diria o meu pai – visto que, eu sabia muito da vida delas e elas nada sabiam sobre mim, apenas o meu nome e profissão.
Umas vezes lá ia apanhando um ou outro cliente mais falador
- Então e aquele jogo ontem? Aquilo é que foi!
Ou
-Este tempo está mesmo horrível… Só chuva, só chuva…
Com o passar dos anos e as evoluções tecnológicas lá começaram a aparecer os telemóveis. As conversas eram menores e os telefonemas mais longos.
- Para a Avenida de Ceuta, por favor…
(O telemóvel no ouvido)
-Já te disse que estou aí em dez minutos!
Eu perdido a ver Lisboa, a enganar a morte e a fintar o abismo…
- São nove euros e trinta e cinco cêntimos.
(A ouvir o meu pai:
- Não confio nestes tipos!)
-Fique com o troco.
Um dia entrou uma rapariga no táxi. A rapariga mais bonita que tinha entrado no meu táxi em trinta anos de serviço. Tinha cabelos loiros e olhos verdes. Sorria enquanto falava ao telemóvel - que se perdia atrás dos longos fios de cabelo. Estávamos em Julho e eu conseguia diferenciar as marcas do biquíni, no meio da pele bronzeada. Perguntei:
-Para onde vamos?
Ela, no seu tom de voz tão jovial:
-Para a estação, por favor…
Uma pausa
-Cais do Sodré.
Ela desligou o telemóvel. Nunca tive por hábito meter conversa com ninguém. Apenas respondia a quem comigo se metia, mas naquele dia senti-me obrigado a começar a conversa. Ela parecia-me perturbada com o telefonema. O sorriso tinha desaparecido e os olhos tinham perdido o verde esperança que traziam minutos antes
- Problemas?
Ela
- Nada de especial. O estúpido do meu namorado acabou comigo…
Os relacionamentos não eram o meu forte, por isso estava a pisar terrenos que não me pertenciam.
-Às vezes é melhor uma racha no coração que uma vida de tortura.
Ainda hoje me questiono de onde veio tal frase. Ela começou a chorar
-Mas eu gostava tanto dele. Tanto, tanto. Dava a minha vida por ele!
Não sabia que dizer. Tinha gasto o meu último cartucho. Naquele momento estava desarmado e sem saber que fazer perante as lágrimas da rapariga. Felizmente, tínhamos chegado ao destino.
- Aqui estamos. São seis euros e quarenta e cinco cêntimos, por favor.
A minha frieza involuntária funcionou como saída de emergência daquela situação. A rapariga engoliu as lágrimas e procurou na carteira o dinheiro para me pagar. No momento em que lhe entreguei o troco, as nossas mãos tocaram-se. A minha frieza involuntária deu lugar a um sentimento de pena profundo. Ao despedir-me
-Boa sorte. Vais ver que as coisas vão ser melhores daqui para a frente.
Sorri para ela. Ela retribuiu
-Obrigado.
Fechou a porta e voltou costas. Liguei o rádio. No momento em que ia arrancar oiço
- Pare, pare!
Era a rapariga. Tinha-se esquecido do telemóvel no táxi.
-Ainda bem que parou. Não sei como ia sobreviver sem ele.
Ofereci-lhe o meu cartão (algo que raramente fazia)
- Obrigado. Quando precisar eu ligo-lhe. O meu nome é Ana Sofia, mas todos me chamam Sofia.

Lembro-me de ter dito uma piada qualquer, sem jeito nenhum. Serviu o seu propósito: ambos nos rimos. No meio das gargalhadas em uníssono vi-a partir.
Faz hoje um ano desde esse dia. A Sofia nunca me ligou. Talvez nunca tenha precisado. Estacionei o táxi junto ao mar a olhar o horizonte, perguntando-me onde será o final da estrada. Abro o jornal e no meio das notícias vejo uma que me chama a atenção. Um suicídio numa linha de comboio. Vejo o nome da vítima: Ana Sofia Monteiro de Castro. Ao lado, a foto da rapariga. Os olhos verdes e os cabelos loiros tinham perdido a cor. Mas era ela: a Sofia que nunca me ligou. Encontrou o abismo. Ou então, a racha no coração era o próprio abismo. Tinha sido consumida por ele. Fechei o jornal. Uma lágrima desceu do meu olho até aos estofos do táxi. Voltei a olhar o horizonte. Perguntei
-Porque é que neste mundo a beleza também chora?
O meu pai a gritar-me
- Não confio nesses tipos
Eu a procurar o abismo, com a imagem da Sofia, desfeita em lágrimas, na minha cabeça
-Afinal, neste mundo, a beleza também chora…

PedRodrigues

segunda-feira, 18 de julho de 2011

As pequenas depressões

Tinha dez anos quando entrei, pela primeira vez, no consultório. Havia uma marquesa do lado direito e um lavatório no canto do lado esquerdo. Nunca entendi muito bem a finalidade dos dois objectos. Ali estavam, naquela sala, intocáveis. As paredes eram verdes. Não eram verdes como o verde. Tinham outro tom. Estavam no limiar entre o verde e outra cor qualquer. Nunca entendi a cor das paredes. Havia também um quadro na parede, em frente às cadeiras onde eu e a minha mãe nos sentávamos. Não me lembro dos desenhos do quadro. Ficava por cima da cabeça do senhor doutor e às vezes funcionava como escape daquela sala que eu não entendia.  
As consultas começavam sempre da mesma maneira: primeiro entrava a minha mãe. Contava ao doutor o que lhe ia na alma, enquanto eu ficava sentado numa cadeira do hall de entrada, a olhar o corrimão e as escadas de madeira que iam sendo consumidas pelas térmitas e pelo tempo. Lembro-me como se fosse hoje da primeira vez que me sentei naquela cadeira à espera da minha mãe. Imaginava, ao meu jeito de miúdo, os desabafos dela dentro do consultório:
- Sabe senhor doutor, eu acho que o meu filho é louco…
Enquanto um mar de lágrimas lhe afogava as palavras. Ela a engasgar-se a cada frase enquanto o senhor doutor lhe estendia um lenço branco e a confortava
-Ora, ora Maria José…
Eu nunca me achei maluco. Nunca fui doido varrido como muitos dos meus colegas, que não tinham medo de nada. Ao contrário deles, eu pensava cada acção até ao mais ínfimo pormenor. Cada passo era calculado. Talvez essa fosse a minha loucura. Não levava a infância como devia ser levada: sem pensar nas consequências.
(As palavras que tinha ouvido uma vez, da boca do meu avô, a martelarem-me na cabeça:
- De parvo e de louco, todos temos um pouco!)
O cheiro do éter misturado com o cheiro da madeira antiga começava a apossar-se de mim. Fechei os olhos por instantes, apenas por instantes. A porta do consultório abriu-se. A minha mãe chamou-me. Nem sinais de uma lágrima desdenhosa nos olhos. Nada. Estava igual. Era a mesma figura que tinha entrado, minutos antes, no consultório.
- É a tua vez, Pedro…
Eu
- Tenho medo, mãe…
Ela
- Vais só conversar com o senhor doutor.
As paredes quase verdes olhavam para mim, a marquesa olhava para mim, o lavatório olhava para mim, as cadeiras olhavam para mim, eu olhava o quadro e tentava fugir dali, o doutor estendeu-me a mão
- Olá Pedro! Estás bom?
Eu retribui o gesto, mas calei-me por alguns segundos. Pensava tratar-se de uma pergunta retórica, embora naquele tempo não soubesse o que isso era. Mas se o senhor doutor era médico, devia saber que para ali estar, eu não estava bem.
- O que te traz por cá?
Passei uma hora a falar com o senhor doutor. De certa forma, no meio daquela sala tão estranha ele era a única coisa normal. Ainda hoje me questiono como terá conseguido passar por mim, para dentro de mim, da minha cabeça, sem que me tenha apercebido. Não sei se terá sido pela figura serena dele, sentado na cadeira de forma descontraída mas com classe, com as pontas dos dedos de ambas as mãos, a tocarem-se de forma subtil (nos momentos em que não estava a rabiscar umas frases, ou a fazer pequenos desenhos que não entendia, no papel). Não sei se terão sido os olhos atrás das lentes dos óculos em tons de dourado que me penetraram a alma e me sacaram todos os segredos – mesmo os mais obscuros. Ainda hoje não sei o que terá sido, mas sinto-me feliz que tenha conseguido. A minha mãe também.
No final da consulta o senhor doutor receitou-me o que eu entendia como a cura para as pequenas depressões. Não que fosse exactamente assim que eu pensava que as coisas funcionavam. Não que este fosse realmente o nome que dava à minha condição: uma pequena depressão. Mas a cura para as minhas tristezas, as minhas inseguranças e os meus medos vinha numa caixa (ou em várias) em trinta pequenas doses. Pequenos doces mágicos que faziam o mundo parecer um sítio bonito e a vida uma virtude extraordinária. Ainda hoje, ao escrever isto, guardo pela casa os mesmos doces mágicos. Não os mesmos, mas a versão para pessoas crescidas.
Faz hoje precisamente dois anos que não vejo o senhor doutor. Sinto-me bem. Por um lado tenho saudades de falar com ele. Hoje talvez lhe perguntasse como é que ele consegue manter a barba tão certinha e qual o segredo dos doutores para se vestirem como doutores. Hoje não uso os doces mágicos – mentira. Às vezes uso para adormecer. Nos dias em que as insónias me complicam a vida e o travão de mão do meu cérebro deixa de funcionar. Apenas em SOS. Hoje já não penso na minha mãe
-Tenho um filho louco, senhor doutor…
A chorar no consultório como se eu tivesse uma doença incurável. Hoje
- De parvo e de louco, também eu tenho um pouco.
Ela ri-se para mim por saber que no meio da minha loucura eu sou especial. E é esta minha normalidade - um pouco anormal - que me torna especial. Hoje os degraus devem estar a milímetros de partir: o tempo e as térmitas não perdoam. Hoje o consultório, aquele sítio tão incompreensível, deve continuar a acolher crianças de dez anos com pequenas depressões. Dê-lhes os doces mágicos, senhor doutor. De parvos e de loucos, cada vez temos menos (mas cada vez parecemos mais).

PedRodrigues