quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Acerca de segundos encontros, livros e dedicatórias

Aquele segundo encontro parecia o primeiro. Ali estava eu, no ponto de encontro, à espera dela. Quando, de repente, a vejo. Trazia um vestido roxo com padrões, umas sandálias douradas, um ligeiro toque de maquilhagem - nada de extravagante - e o cabelo ainda húmido. Lembro-me de pensar para mim: "É ela! Estou apaixonado". Deu-me um beijo impetuoso na face. E eu parei por momentos. Ou o tempo parou por momentos. Não sei. Eu trazia o meu pólo cor-de-rosa vestido. Tinha passado uma pequena eternidade a tentar escolher o melhor conjunto para a impressionar da forma mais casual possível. Mas, no momento em que os meus olhos se perderam nela, senti-me nu. Senti-me insuficiente. Ali estava ela. Ali estava ela a brilhar. Ou eu a perder-me num universo alternativo em que ela era uma estrela. Não sei.
Tinha acabado de chover, mas o calor era imenso. Ela

-Não entendo este tempo

Rogava pragas ao tempo. Eu perdia-me na inércia que a imagem dela me provocava. Estava estático. Perdido entre a realidade e a ficção. Acordei, por momentos

-Tenho de ir à feira do livro. Vamos?

Tínhamos como destino as docas. O mesmo destino do nosso primeiro encontro. Mas, desta vez, trocámos a vontade de correr pela vontade de passear. Caminhámos. E, durante a caminhada, todo o tipo de conversas surgiram. Algumas sem nexo. Ela ria, esperneava, gritava. Eu tentava acompanhar toda aquela loucura. Não queria ser deixado de fora da tempestade. Impossível. Ela cada vez mais bonita. Ela cada vez mais interessante. A cada sorriso: mais bonita. A cada frase sem nexo: mais interessante. Ela. Eu a sentir-me cada vez mais pequeno naquele universo. A querer crescer e levar o mundo dela às costas, qual Atlas da Grécia Antiga. De facto, era ela. Estava apaixonado.
Procurámos, por todas as bancas, o livro perfeito. Cada um falava dos seus livros favoritos. Os que sonhava ler e os que já tinha lido. Cada um divagava à sua maneira. E no meio do sorvedouro de críticas, pensamentos e citações a minha atracção por ela era cada vez maior. Escrevia livros na minha cabeça. Imaginava-os ali, naquelas bancas: livros sobre ela, livros para ela. Uma vida em milhares de páginas. Eu e ela em cada palavra. Um pedaço de mim para ela. Ali estava eu a escrever histórias. Enquanto a imaginava naquela luz das cinco da tarde: sentada numa esplanada à beira-mar, de livro na mão, a ler as minhas páginas. A ler-se nas minhas páginas. A sorrir. Aquele sorriso secreto. O “Secret Smile” - como o da música - que eu sabia esconder-se atrás da máscara de indiferença que ela usava. Ela a ler-se nas minhas páginas. Eu a imaginar. Uma dedicatória na minha cabeça

“Para ti, que me deste o prazer de partilhar cada página da tua vida comigo “

Calei-me. Guardei a dedicatória no baú de dedicatórias que tinha acabado de criar.

(O livro perfeito a olhar para mim. A pedir-me que o levasse)

Ela

-Vamos beber um mojito

Eu

-Só pagar isto e já vou

Sentámo-nos na esplanada a ver o sol espelhado no Mondego. Ela olhava para o rio. Eu olhava para ela. A luz: perfeita. O clima: perfeito. Eu perdido, cada vez mais, a imaginar. O cabelo dela já tinha secado, mas continuava lindo. O sol a beijar-lhe a face e eu a invejar-lhe cada raio. Sonhava beijar-lhe a face. Sonhava beijar-lhe a boca, o lóbulo da orelha, o pescoço…

(Um gole na água que tinha pedido)

Ela cruzava as pernas e eu perdia-me no horizonte entre os dedos dos pés e o limite do vestido. Que mulher. Ela inspeccionava a minha compra à procura de um defeito que não encontrou. Dava pequenos goles no mojito e olhava para mim. Eu continuava a olhá-la. Continuava a imaginar-me num pôr-do-sol, de mãos dadas com ela, a passear junto ao mar. Ela mordia a hortelã. Eu mordia os lábios a imaginar a textura dos lábios dela. Uma brisa ligeira abanava-lhe os cabelos e trazia, generosamente, a essência dela até mim. Como cheirava bem. Um arrepio no estômago. Ela nos meus livros: a ler-se.
O encontro acabou no sítio onde tinha começado. Olhei para ela uma última vez, naquele dia. Continuava com o mesmo brilho. O tempo parou novamente - ou eu parei novamente, não sei. Fiquei a imaginar dedicatórias para meter no baú. No meio da minha inércia senti a impetuosidade de um novo beijo na face.

-Adeus Pedro

E enquanto ela desaparecia na paisagem, eu escrevia-lhe livros, na minha cabeça. Em todos eles uma dedicatória tirada do baú

“Para ti, que me inspiras todos os dias a ser mais e melhor”

PedRodrigues

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Índia, até amanhã

-Tenho saudades tuas

Disse ela, em tom sincero, numa das mensagens. Lembro-me de sorrir. Lembro-me de sentir um sorriso fugir-me da face. Ela tem esse efeito em mim. Descontrola-me de uma forma que não entendo. Hoje senti a falta dela. Sinto a falta dela todos os dias. Mas hoje faltou aquela mensagem, ou aquele telefonema. A dose de loucura que me anima o dia. O sorriso descontrolado que vou deixando fugir-me da boca. Hoje entendi a falta que ela me faz, realmente. Uma palavra, uma frase, um sorriso. Sinto a falta dela. Tenho saudades dela.
Liguei o computador e procurei por um sinal. Vi uma foto dela. A nova foto de perfil. A foto não é dela. Ou por outra, é dela, mas não me lembra quem ela é. Falta-lhe a loucura no rosto. A alegria. Falta-lhe a alegria. A beleza continua lá. Um pingo de ciúme. Comentários de rapazes e o ciúme a crescer. Ela ali, linda. No entanto, não é ela na foto. Uma imagem dela, sem vida. Os comentários. Tantos comentários e ninguém entende que não é ela na foto. Uma mensagem

-Estou chateada

(O resto da mensagem guardo para mim)

Uma explicação para aquela foto. O espelho de um dia mau. Só mais um dia mau. O tempo lá fora não ajuda.
Um telefonema. Não é ela. São os meus amigos. Visto-me e vou com eles. Entre as gargalhadas lembro-me da cara dela na foto. Lembro-me

-Tenho saudades tuas

De todos os momentos que já passei com ela. Do primeiro beijo. Do primeiro beijo de verdade. Na varanda, depois de um cigarro. Eu a aborrecer-me com o fumo. A dizer

-Larga isso

E o beijo a aparecer. Eu rendido. Cada vez mais rendido. A pensar se errei. A pensar se devia ter dito “sim” quando disse “não”. Ela longe de mim e eu a implorar pelo abraço dela. A procurar o cheiro dela numa roupa qualquer. A ver a fotografia e a entrar em pânico. A pensar que alguém lhe pode estar a tocar na minha vez. A pensar que ela pode estar farta de mim. Que já não me quer. Que já não lhe chego. Que não sou o suficiente. Embora

-És pequenino, mas assentas-me na perfeição.

Eu saiba que ela também me quer. Ela que é fantástica. Ela que precisa de alguém que a compreenda. Alguém que não lhe elogie apenas as fotos. Que não a censure nos actos. Alguém que a entenda

-Assustas-me quando penso no quão parecidos nós somos

De facto. No entanto no meio da indefinição do nosso estado lá vou tendo medo dos fantasmas dos amores passados. Embora eu seja a personificação do amor futuro. O pequeno amor é só o início: o embrião de um grande amor. Eu acredito nisso. Sei que, à maneira dela, ela também acredita. Agarrada aos seus medos: ela acredita. Eu não tenho medo de me apresentar como “aquele que acabará com os fantasmas”. Não tenho. Não tenho medo de ser “Vasco da Gama e partir em busca da Índia do meu coração” - como li algures. Ela é a minha Índia. E não há Cabo das Tormentas que me pare, nem Adamastor que me meta medo.

-Tenho saudades tuas

(A minha mãe a chamar-me para jantar)

Eu deitado na cama a ler as mensagens dela e a sorrir. Só para poder sorrir de forma descontrolada.
Eu

-És linda

Ela

-Nós elevamos o expoente da nossa loucura juntos

Eu a sorrir.

-Estou a morrer de saudades tuas

Quilómetros de saudades que nos separam. Eu que já não aguento mais. Um abraço dela. Preciso de um abraço dela.

-Amanhã estamos juntos

A toda a velocidade. Se o vento continuar a soprar a favor, chegamos à Índia, amanhã.

PedRodrigues

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Humor negro, ou: uma chuva de incertezas

A água cai do chuveiro cortesia da gravidade.
Sento-me debaixo do chuveiro enrolado em mim. Perdido a imaginar-me feliz num dia qualquer – até um dia qualquer. Olhos fechados numa escuridão imensa, tenebrosa, asfixiante. Imagino-me de mãos dadas. Imagino-me a ver o sol. A olhar o horizonte e a imaginar onde começa. Imagino-me. E quanto mais me imagino, mais me eclipso em mim mesmo. Uma escuridão infinita. Uma selva densa, espessa, que não deixa passar o mais frágil raio de sol. Uma mágoa imensa. Uma imensidão de pingos por minuto que me molham a cabeça, me molham o tronco, me molham os membros. Nada, digo eu. O meu reflexo no chuveiro, nos espelhos: baço. Nada a não ser uma escuridão infinita. Eu perdido a imaginar onde começa o horizonte.
Enquanto a água corria por cima de mim, para cima de mim, a percorrer-me o corpo, eu sentia-me vazio. Enquanto ia me lembrando que nada é para sempre. Ninguém é para sempre. Um solstício dentro de mim. Noites maiores que dias. Eu ali, tão pequeno dentro de mim. Perdido numa cabana - dentro de mim. Frágil. Não entendia onde acabava a água que corria do chuveiro e começavam as minhas lágrimas - o meu corpo. Sentia-me feito de lágrimas. Não me sentia feito de nada. Um vazio. Uma escuridão infinita. Onde começa o horizonte da escuridão?
Centenas, milhares, milhões. Pensamentos. Mensagens. Pensamentos. Mensagens. Mágoas. Dores. Enredos. Novelas. Filmes. Enganos. O sol. Uma certeza

-Não sei

Ela

-Arranjo melhor

Uma escuridão infinita. Centenas, milhares, milhões. Incertezas

-Então força

Ela

-Namora comigo

Outra vez

-És lindo. Casa comigo

Eu perdido a ver o solstício

-Não entendo. Não te entendo

Ela

-Adrenalina. Faço isto pela adrenalina

Perdido na escuridão. Uma selva densa onde não passa o mais ínfimo raio de sol. Uma incerteza genuína. A trocar os pés à procura de um horizonte que ninguém sabe onde começa.
Quase a entregar-me à escuridão. A dar-me por vencido.

-Não aguento mais. Decide-te.

Ela que também está perdida na escuridão e eu que não sei como a encontrar. Não sei se a encontrei. Não sei como a perdi. Não sei se a perdi. Uma escuridão infinita. Um caos imenso. Um aguaceiro de pingos que se confundem com as lágrimas. Uma dor que se passeia pela escuridão à procura do melhor sítio para se reproduzir. Uma incerteza.

-Quando me pedes em namoro?

Para depois

-Não assumas nada. Posso-te escapar entre os dedos.

Eu perdido: em mim, em possibilidades, em outras pessoas. A incerteza também cansa. Eu sinto-me cansado de me perder em mim à procura de respostas. A perder-me numa escuridão, sem ter um sinal de que há luz. Um pequeno raio de sol entre a floresta densa. Só um pequeno raio de sol.

-Agora ou nunca?

Pergunto eu

-Agora ou nunca!

Digo eu.

E no entretanto, entre o agora e o nunca, vou procurando a minha lanterna interior, enquanto busco pelo horizonte da certeza.

PedRodrigues