segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Não sei se sabes, mas...

A minha cama torna-se imensa quando não estás. Às vezes, acordo de noite e procuro-te na almofada ao meu lado. Nada. Abraço-me ao teu cheiro e aos cabelos que me deixas na cama. Tenho pena que eles não me aqueçam. Adoro que amenizem o vazio que dorme a meu lado. Sinto a tua falta no silêncio. Sinto a falta do barulho de cachoeira da tua respiração. Dos suspiros nocturnos entre sonhos. Na minha cabeça sonhas comigo. Na minha cabeça adormeço todos os dias ao teu lado: com o teu rosto no meu peito e os teus braços entrelaçados em mim. Não sei se sabes, mas tenho medo de me perder por aqui, sozinho, na escuridão.
Não sei se alguma vez te disse: não há Este, nem Oeste. Há apenas o sítio onde estás quando o sol nasce e o sítio para onde vais quando o sol se põe. Não sei como fazes. Continuo a achar que és o eixo sobre o qual a terra gira. Que as flores na Primavera desabrocham para te dizer olá. E que, a chuva no Inverno cai de veludo do céu, à tua passagem. Gostava de saber se a areia te beija os pés como me beija a mim, ou se também te trata de forma especial, como só tu mereces ser tratada. Gostava de saber como fazes para sorrir da maneira que sorris. O que fazes para me prender a ti como prendes. Não sei onde arranjaste esta corda que me prende a ti. Sinceramente, não me interessa saber. Adoro estar ancorado a ti, ou amarrado, ou incrustado, ou o que quer que seja. Adoro.
Não sei se sabes, mas tenho sono. Este desabafo é só um pequeno desabafo de mais uma noite em que vou procurar-te pelos lençóis. É só mais uma noite em que vou acordar: uma, duas, três vezes. Tu não vais estar. Vão estar os teus cabelos, mas tu não. Vai estar o teu cheiro, mas tu não. A saudade aqui ao meu lado, mas tu não. Volta depressa, no meio do silêncio. Abraça-me com força até acordar. Tenho saudades tuas.

Amor

Volta depressa

Amor


PedRodrigues

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

As mulheres no cinema

No cinema, o filme é só mais um filme. A tela em branco é só mais uma tela em branco - tingida com o protótipo de vidas alheias com que todos sonhamos. Procuramos identificar-nos com as personagens principais. Vemo-nos em cada gesto. Encontramo-nos em cada beijo. Partilhamos cada lágrima. Nos momentos de alegria sorrimos, como se aquele

-Amo-te.

Fosse para nós. Nos momentos de tristeza choramos como se fosse o nosso coração que estivesse a dançar na corda bamba.
No final das contas, vou ao cinema para me sentir viva. Para fugir da monotonia dos meus dias. Para esquecer o meu trabalho no hospital. Para ser uma aventureira destemida. Para ser a mulher que o herói procura. Para saltar de aviões. Evitar o apocalipse. Para estar em Roma, Londres, Nova Iorque, Sydney, Hong Kong… Para ser beijada em Paris. Para ser eu no meio dos clichés mais românticos que possa imaginar. Para ser eu: noutro corpo, noutra vida, noutro tempo, noutro lugar. Eu que nunca viajei. Raramente tiro dias para passear. Normalmente faço turnos a seguir a turnos. Pacientes atrás de pacientes. Não consigo fugir do sangue e das lágrimas. Dos cancros, das depressões, dos hipocondríacos e daqueles velhinhos que têm

-Uma dor aqui na perna há uns dias. E depois esta pieira no peito, senhora doutora.

Saudades de um pouco de afecto. De um grama de carinho, apenas. Que não buscam por mais uma dose de insulina, mas por um abraço e um sorriso

-Até à próxima dona Lucinda. Cumprimentos aos seus.

Uma mão nas costas para saberem que vai tudo correr bem. Embora não seja bem assim. E por vezes, numa questão de meses, a ficha da dona Lucinda faça apenas parte do arquivo. Infelizmente, a vida não é como um filme, em que no final, “no matter what”, tudo acaba bem.
No outro dia, o rapaz com quem ando a sair levou-me ao cinema. Confesso que me tem vindo a conquistar. Não sei se a culpa é do olhar - tem um olhar sonhador. Ou da gentileza com que me trata. Nesse dia cumprimentou-me com um beijo no canto da boca, enquanto me dava a mão, desdenhosamente, à porta de minha casa. Arrepiei-me. Não é normal em mim. Mas senti um friozinho na espinha, literalmente. Ofereceu-me o bilhete e deixou-me escolher o filme: uma comédia romântica. Dei por mim a encostar a cabeça no ombro dele. A perder-me nele, em vez de me perder no filme. A pensar como seria se ele se levantasse naquele momento e se fosse embora. Foi nesse momento que entendi que, por muito bom que seja o filme, sem ele não teria o mesmo sentido. Foi nesse momento que deixei de me perder a imaginar como seria se eu fosse a personagem principal: a saltar, a beijar, a chorar, a viajar… Nesse momento a tela em branco eclipsou-se nela mesma. E eu ali, perdida no ombro dele. A cheirar-lhe o colarinho e a guardar a fragrância num frasco, algures na minha cabeça. A respirar contra o pescoço dele enquanto lhe sentia os pêlos da barba e os cabelos na minha cara. Nesse momento senti uma pequena saudade. Se ele se levantasse e se fosse embora, era só o que me restava. Saudade. Saudade daquele momento em que deixei de ser uma personagem num filme e me senti uma pessoa real. A tentar procurar um

-Amo-te.

Nos olhos dele. Enquanto ele, tímido, olhava para o filme. Inquietava-me não saber em que estava a pensar. Se estava a sentir a minha respiração ansiosa no pescoço dele.

-Claro que sim. Não sejas tonta.

Pensava eu para mim. Enquanto imaginava os lábios dele a dizerem-me isso mesmo.

-Não sejas tonta.

E eu não sou tonta nenhuma. Quero apenas que ele se vire e me abrace. Que me agarre na mão e me diga

-Nunca mais a vou largar.

Eu a sorrir. Como quem sorri no filme. Ele a abraçar-me, tímido. A virar-se para mim. E é então que, tal como no filme, atingimos o clímax. Um beijo. Aquele beijo com que tenho sonhado uma vida inteira. Aquele beijo que me tem sido adiado devido às gripes alheias. É nesse momento que o imagino deitado numa maca, de peito aberto e coração de fora. O meu nome lá no meio. Gravado, como uma tatuagem. Quem me dera saber o que lhe vai na cabeça. Se realmente me quer para sempre, ou se, por outro lado, se vai levantar a meio do filme para nunca mais voltar.

PedRodrigues


sábado, 22 de outubro de 2011

Poema número trinta e dois

Triste fado dos mendigos

Sentado no escuro
Uma garrafa na mão
Um gato no muro
Uma faca no chão
Um cão vadio
A roer um osso
Um gole da água
Do fundo do poço
Uma dor de cabeça
Em cada esquina
Ou apenas o grito
Duma puta mais fina
Um salto a pisar
O meu coração
Tiraram-me o osso
Mataram o cão
No fundo do poço
Só há absinto
Pobre de mim
Só gosto de tinto
Sentado no escuro
De garrafa vazia:
O cão não ladra,
O gato não mia.
E eu sozinho
A desesperar
Enquanto a morte
Tarda em chegar.
Faltam-me as forças
Falta-me o pão
Já nem para as putas
Tenho um tostão
Hoje sou mendigo,
Ontem era patrão
Tiraram-me tudo
Menos o chão.
Sentado no escuro
Sem nunca perecer
Sou fã da morte
Até um dia morrer
Que venha depressa
Mas, hoje, não
Eu até tenho a faca
Só me falta o coração.

PedRodrigues