sábado, 12 de novembro de 2011

Croniquinha de trazer por casa

Amo-te devagarinho. Não sei como, mas amo-te. Vou-te trazendo pela casa: uns papelinhos na parede; umas calças do teu pijama pelo chão; umas folhas soltas de outros textos que te escrevi; o teu corpete numa caixa de sapatos, por baixo da televisão; o teu cheiro pela casa, desde o quarto até à porta da entrada; o teu batom na mesinha de cabeceira; e eu que te trago na minha cabeça. Que te trago nas minhas mãos, nos meus cabelos, aqui e ali pelo corpo. Uma marca mais bruta e outra mais suave. Vou-te amando devagarinho. Para quê acelerar?
Vou-te perseguindo pela casa

-És tão bonita

Vais-me sorrindo devagarinho. Os teus lábios não têm pressa. Os teus dentes não têm pressa. E eu aqui: a amar-te devagarinho pela casa. A procurar-te pelas esquinas de cada divisão. Um brinco na almofada. Umas cuecas no guarda-roupa. Eu deitado na minha cama a falar contigo ao telemóvel

-Tenho saudades tuas

Tu

-Estou quase a chegar

Mas ainda demoras e eu vou-te procurando pela casa, sem pressa. Numa calma inexplicável, enquanto vou dedilhando mais uma crónica pequenina de trazer por casa. Vou-te relendo nos meus textos. Vou-te aperfeiçoando em cada um. Nunca consigo escrever-te como tu mereces. Falta-me sempre aquela palavra. Falta-me sempre aquele bocadinho. Então vou esperando que apareças pela porta: de casaco branco com pêlo de ovelha – não sei dar o nome às coisas, como tu. Vestido verde e meias pretas. Com o cabelo solto, ou apanhado. A entrares devagarinho pelo quarto, enquanto eu te vou admirando e procurando aquela palavra que me vai faltando. Deitado na minha cama, ou sentado pelo chão. A olhar-te de alto a baixo. À procura de todos os pormenores que me permitam fazer-te melhor nos meus textos. Ou fazer os meus textos melhores para a tua pessoa. Vou-te olhando, vou-te lendo, e sempre que o faço, vou-te amando, cada vez mais, devagarinho.

-Estou a chegar. Abre a porta

O barulho do elevador a ecoar pelas escadas. Vou-te sentindo pela casa, mesmo antes de entrares. Vais-me dizendo olá pela casa. Nos papelinhos que me deixas na parede. Na roupa que deixas espalhada pelo chão do quarto. Nos cabelos que vais deixando nas almofadas. Nas crónicas que te escrevi e vou escrevendo na minha cabeça. No teu perfume que se vai passeando pela casa. Nas marcas que me vais deixando no corpo: umas mais brutas e outras mais suaves. E então eu vou-te amando devagarinho. Não sei como, nem porquê. Vou-te amando devagarinho, mas não te digo. E tu vais-me ficando pela casa. Vais-te deixando ficar pela casa. Porque também me amas devagarinho e nem quando partes me consegues largar.

PedRodrigues

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Não sei se sabes, mas...

A minha cama torna-se imensa quando não estás. Às vezes, acordo de noite e procuro-te na almofada ao meu lado. Nada. Abraço-me ao teu cheiro e aos cabelos que me deixas na cama. Tenho pena que eles não me aqueçam. Adoro que amenizem o vazio que dorme a meu lado. Sinto a tua falta no silêncio. Sinto a falta do barulho de cachoeira da tua respiração. Dos suspiros nocturnos entre sonhos. Na minha cabeça sonhas comigo. Na minha cabeça adormeço todos os dias ao teu lado: com o teu rosto no meu peito e os teus braços entrelaçados em mim. Não sei se sabes, mas tenho medo de me perder por aqui, sozinho, na escuridão.
Não sei se alguma vez te disse: não há Este, nem Oeste. Há apenas o sítio onde estás quando o sol nasce e o sítio para onde vais quando o sol se põe. Não sei como fazes. Continuo a achar que és o eixo sobre o qual a terra gira. Que as flores na Primavera desabrocham para te dizer olá. E que, a chuva no Inverno cai de veludo do céu, à tua passagem. Gostava de saber se a areia te beija os pés como me beija a mim, ou se também te trata de forma especial, como só tu mereces ser tratada. Gostava de saber como fazes para sorrir da maneira que sorris. O que fazes para me prender a ti como prendes. Não sei onde arranjaste esta corda que me prende a ti. Sinceramente, não me interessa saber. Adoro estar ancorado a ti, ou amarrado, ou incrustado, ou o que quer que seja. Adoro.
Não sei se sabes, mas tenho sono. Este desabafo é só um pequeno desabafo de mais uma noite em que vou procurar-te pelos lençóis. É só mais uma noite em que vou acordar: uma, duas, três vezes. Tu não vais estar. Vão estar os teus cabelos, mas tu não. Vai estar o teu cheiro, mas tu não. A saudade aqui ao meu lado, mas tu não. Volta depressa, no meio do silêncio. Abraça-me com força até acordar. Tenho saudades tuas.

Amor

Volta depressa

Amor


PedRodrigues

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

As mulheres no cinema

No cinema, o filme é só mais um filme. A tela em branco é só mais uma tela em branco - tingida com o protótipo de vidas alheias com que todos sonhamos. Procuramos identificar-nos com as personagens principais. Vemo-nos em cada gesto. Encontramo-nos em cada beijo. Partilhamos cada lágrima. Nos momentos de alegria sorrimos, como se aquele

-Amo-te.

Fosse para nós. Nos momentos de tristeza choramos como se fosse o nosso coração que estivesse a dançar na corda bamba.
No final das contas, vou ao cinema para me sentir viva. Para fugir da monotonia dos meus dias. Para esquecer o meu trabalho no hospital. Para ser uma aventureira destemida. Para ser a mulher que o herói procura. Para saltar de aviões. Evitar o apocalipse. Para estar em Roma, Londres, Nova Iorque, Sydney, Hong Kong… Para ser beijada em Paris. Para ser eu no meio dos clichés mais românticos que possa imaginar. Para ser eu: noutro corpo, noutra vida, noutro tempo, noutro lugar. Eu que nunca viajei. Raramente tiro dias para passear. Normalmente faço turnos a seguir a turnos. Pacientes atrás de pacientes. Não consigo fugir do sangue e das lágrimas. Dos cancros, das depressões, dos hipocondríacos e daqueles velhinhos que têm

-Uma dor aqui na perna há uns dias. E depois esta pieira no peito, senhora doutora.

Saudades de um pouco de afecto. De um grama de carinho, apenas. Que não buscam por mais uma dose de insulina, mas por um abraço e um sorriso

-Até à próxima dona Lucinda. Cumprimentos aos seus.

Uma mão nas costas para saberem que vai tudo correr bem. Embora não seja bem assim. E por vezes, numa questão de meses, a ficha da dona Lucinda faça apenas parte do arquivo. Infelizmente, a vida não é como um filme, em que no final, “no matter what”, tudo acaba bem.
No outro dia, o rapaz com quem ando a sair levou-me ao cinema. Confesso que me tem vindo a conquistar. Não sei se a culpa é do olhar - tem um olhar sonhador. Ou da gentileza com que me trata. Nesse dia cumprimentou-me com um beijo no canto da boca, enquanto me dava a mão, desdenhosamente, à porta de minha casa. Arrepiei-me. Não é normal em mim. Mas senti um friozinho na espinha, literalmente. Ofereceu-me o bilhete e deixou-me escolher o filme: uma comédia romântica. Dei por mim a encostar a cabeça no ombro dele. A perder-me nele, em vez de me perder no filme. A pensar como seria se ele se levantasse naquele momento e se fosse embora. Foi nesse momento que entendi que, por muito bom que seja o filme, sem ele não teria o mesmo sentido. Foi nesse momento que deixei de me perder a imaginar como seria se eu fosse a personagem principal: a saltar, a beijar, a chorar, a viajar… Nesse momento a tela em branco eclipsou-se nela mesma. E eu ali, perdida no ombro dele. A cheirar-lhe o colarinho e a guardar a fragrância num frasco, algures na minha cabeça. A respirar contra o pescoço dele enquanto lhe sentia os pêlos da barba e os cabelos na minha cara. Nesse momento senti uma pequena saudade. Se ele se levantasse e se fosse embora, era só o que me restava. Saudade. Saudade daquele momento em que deixei de ser uma personagem num filme e me senti uma pessoa real. A tentar procurar um

-Amo-te.

Nos olhos dele. Enquanto ele, tímido, olhava para o filme. Inquietava-me não saber em que estava a pensar. Se estava a sentir a minha respiração ansiosa no pescoço dele.

-Claro que sim. Não sejas tonta.

Pensava eu para mim. Enquanto imaginava os lábios dele a dizerem-me isso mesmo.

-Não sejas tonta.

E eu não sou tonta nenhuma. Quero apenas que ele se vire e me abrace. Que me agarre na mão e me diga

-Nunca mais a vou largar.

Eu a sorrir. Como quem sorri no filme. Ele a abraçar-me, tímido. A virar-se para mim. E é então que, tal como no filme, atingimos o clímax. Um beijo. Aquele beijo com que tenho sonhado uma vida inteira. Aquele beijo que me tem sido adiado devido às gripes alheias. É nesse momento que o imagino deitado numa maca, de peito aberto e coração de fora. O meu nome lá no meio. Gravado, como uma tatuagem. Quem me dera saber o que lhe vai na cabeça. Se realmente me quer para sempre, ou se, por outro lado, se vai levantar a meio do filme para nunca mais voltar.

PedRodrigues