terça-feira, 22 de novembro de 2011

A solidão cheira a maçã e canela

No outro dia comprei uma vela com aroma a maçã e canela. Queria que a casa esquecesse o teu cheiro. Queria que as paredes deixassem de sentir a tua falta. Queria que as marcas do teu corpo, no divã da sala, desaparecessem. Queria que te fosses embora das fotografias. Que parasses de me abraçar naquela em que estamos juntos a ver o pôr-do-sol. Que te levantasses e te fosses embora para sempre. Que me deixasses sozinha, como me deixaste na vida real. Deixavas-me a sorrir, como uma parva. E, pé ante pé, lá te ias afastando. Enquanto eu, feita parva, sorria para o pôr-do-sol.
Faz hoje um mês que me disseste

-Não consigo mais

Uma falta de ar, subitamente, no meu peito. Ainda me lembro daquele nó na garganta, daquele sorvedouro no estômago. Uma agonia imensa. O cheiro a cebola queimada – estava a fazer-te o jantar. Não era o teu prato favorito, mas estava a fazer-te o jantar. Entraste pela porta e nem me deixaste dar-te um sorriso. Nem um beijo me deste. De certo que seria o último, mas pelo menos ficava-me marcado nos lábios. Pelo menos ia-me ficando de lembrança, visto que não me lembro do nosso último beijo – e isso pouco importa. Deixaste-me, é um facto. Deixaste-me a mim e à casa e aos móveis. Foste-te embora sem te despedires. Pegaste nas chaves do carro e

-Não consigo mais

Foste embora. Fechaste a porta atrás de ti e aposto que nem olhaste uma última vez para mim. Eu ali, no meio dos tachos, das facas, dos condimentos, das cebolas, a chorar. Lágrima atrás de lágrima, enquanto me perguntava se a culpa teria sido minha. Se a razão de teres ido embora e não conseguires mais seria eu. Nem um último olhar me deste. Deixaste-me enquanto me afogava em mim. O pior não tinha sido ver-te partir, o pior era não saber por que razão partias. No entanto, nunca olhaste para trás. Nem uma última explicação me deste. Nem um último beijo me deixaste. Nem um último abraço onde me pudesse agarrar enquanto me deixavas. Nada.
Lembro-me tão bem de quando o telefone tocou nesse dia. Tinha estado mudo até àquela hora. Corri para ele na esperança de ouvir a tua voz

-Desculpa…

Mas a tua voz não apareceu do outro lado. Só uma voz que não era a tua. A mesma voz que me acompanhou na altura em que fui reconhecer o teu corpo encarcerado no carro. Ao que parece embateste contra um poste. A polícia disse-me que o excesso de velocidade e o piso molhado foram as causas do acidente. Mal sabem eles que a culpa não foi da velocidade ou da chuva. Eu sei que me querias abraçar uma última vez. Aposto que te deixaste levar pelo momento. Que pisaste no acelerador fervorosamente, tal era a pressa de me abraçares. E na tua cabeça abraçaste-me. Enquanto os teus braços se incrustavam entre o carro e o poste, na tua cabeça abraçavas-me. Também eu te imagino a abraçar-me

-Desculpa… Não chores. Foi um impulso, mas já passou. Vou amar-te para sempre.

Um abraço tão forte. O calor do teu peito a evaporar-me as lágrimas. Imagino-te a entrar em casa com um ramo de flores na mão. Enquanto eu te faço o jantar: o teu prato favorito.
Hoje tu não estás por cá. Comprei uma vela para te empurrar para fora de casa. As paredes sentem a tua falta. Eu sinto a tua falta. Continuas abraçado a mim no retrato, mas os teus braços não me aquecem e estamos em Novembro. Foste embora e nem levaste um agasalho. Será que não tens frio? Na minha cabeça ainda te vejo a entrar pela porta, com o tal ramo de flores. Encharcado e com frio. A dizeres-me

-Vou amar-te para sempre…

E, se era para sempre, porque me deixaste? Ainda hoje me pergunto. Hoje que tomei a caixa inteira dos anti-depressivos e a casa me começa a fugir. Um nevoeiro imenso e eu vou-te procurando, aos apalpões. Ainda hoje me pergunto: porque me deixaste? Um frio cada vez mais intenso no meu corpo. Onde estás? Abraça-me. Afinal, ninguém é para sempre. Afinal, nada é para sempre.

PedRodrigues

sábado, 12 de novembro de 2011

Croniquinha de trazer por casa

Amo-te devagarinho. Não sei como, mas amo-te. Vou-te trazendo pela casa: uns papelinhos na parede; umas calças do teu pijama pelo chão; umas folhas soltas de outros textos que te escrevi; o teu corpete numa caixa de sapatos, por baixo da televisão; o teu cheiro pela casa, desde o quarto até à porta da entrada; o teu batom na mesinha de cabeceira; e eu que te trago na minha cabeça. Que te trago nas minhas mãos, nos meus cabelos, aqui e ali pelo corpo. Uma marca mais bruta e outra mais suave. Vou-te amando devagarinho. Para quê acelerar?
Vou-te perseguindo pela casa

-És tão bonita

Vais-me sorrindo devagarinho. Os teus lábios não têm pressa. Os teus dentes não têm pressa. E eu aqui: a amar-te devagarinho pela casa. A procurar-te pelas esquinas de cada divisão. Um brinco na almofada. Umas cuecas no guarda-roupa. Eu deitado na minha cama a falar contigo ao telemóvel

-Tenho saudades tuas

Tu

-Estou quase a chegar

Mas ainda demoras e eu vou-te procurando pela casa, sem pressa. Numa calma inexplicável, enquanto vou dedilhando mais uma crónica pequenina de trazer por casa. Vou-te relendo nos meus textos. Vou-te aperfeiçoando em cada um. Nunca consigo escrever-te como tu mereces. Falta-me sempre aquela palavra. Falta-me sempre aquele bocadinho. Então vou esperando que apareças pela porta: de casaco branco com pêlo de ovelha – não sei dar o nome às coisas, como tu. Vestido verde e meias pretas. Com o cabelo solto, ou apanhado. A entrares devagarinho pelo quarto, enquanto eu te vou admirando e procurando aquela palavra que me vai faltando. Deitado na minha cama, ou sentado pelo chão. A olhar-te de alto a baixo. À procura de todos os pormenores que me permitam fazer-te melhor nos meus textos. Ou fazer os meus textos melhores para a tua pessoa. Vou-te olhando, vou-te lendo, e sempre que o faço, vou-te amando, cada vez mais, devagarinho.

-Estou a chegar. Abre a porta

O barulho do elevador a ecoar pelas escadas. Vou-te sentindo pela casa, mesmo antes de entrares. Vais-me dizendo olá pela casa. Nos papelinhos que me deixas na parede. Na roupa que deixas espalhada pelo chão do quarto. Nos cabelos que vais deixando nas almofadas. Nas crónicas que te escrevi e vou escrevendo na minha cabeça. No teu perfume que se vai passeando pela casa. Nas marcas que me vais deixando no corpo: umas mais brutas e outras mais suaves. E então eu vou-te amando devagarinho. Não sei como, nem porquê. Vou-te amando devagarinho, mas não te digo. E tu vais-me ficando pela casa. Vais-te deixando ficar pela casa. Porque também me amas devagarinho e nem quando partes me consegues largar.

PedRodrigues

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Não sei se sabes, mas...

A minha cama torna-se imensa quando não estás. Às vezes, acordo de noite e procuro-te na almofada ao meu lado. Nada. Abraço-me ao teu cheiro e aos cabelos que me deixas na cama. Tenho pena que eles não me aqueçam. Adoro que amenizem o vazio que dorme a meu lado. Sinto a tua falta no silêncio. Sinto a falta do barulho de cachoeira da tua respiração. Dos suspiros nocturnos entre sonhos. Na minha cabeça sonhas comigo. Na minha cabeça adormeço todos os dias ao teu lado: com o teu rosto no meu peito e os teus braços entrelaçados em mim. Não sei se sabes, mas tenho medo de me perder por aqui, sozinho, na escuridão.
Não sei se alguma vez te disse: não há Este, nem Oeste. Há apenas o sítio onde estás quando o sol nasce e o sítio para onde vais quando o sol se põe. Não sei como fazes. Continuo a achar que és o eixo sobre o qual a terra gira. Que as flores na Primavera desabrocham para te dizer olá. E que, a chuva no Inverno cai de veludo do céu, à tua passagem. Gostava de saber se a areia te beija os pés como me beija a mim, ou se também te trata de forma especial, como só tu mereces ser tratada. Gostava de saber como fazes para sorrir da maneira que sorris. O que fazes para me prender a ti como prendes. Não sei onde arranjaste esta corda que me prende a ti. Sinceramente, não me interessa saber. Adoro estar ancorado a ti, ou amarrado, ou incrustado, ou o que quer que seja. Adoro.
Não sei se sabes, mas tenho sono. Este desabafo é só um pequeno desabafo de mais uma noite em que vou procurar-te pelos lençóis. É só mais uma noite em que vou acordar: uma, duas, três vezes. Tu não vais estar. Vão estar os teus cabelos, mas tu não. Vai estar o teu cheiro, mas tu não. A saudade aqui ao meu lado, mas tu não. Volta depressa, no meio do silêncio. Abraça-me com força até acordar. Tenho saudades tuas.

Amor

Volta depressa

Amor


PedRodrigues