segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Crónica do comboio em marcha lenta

Entrei no comboio perto da hora da partida. Sentei-me à janela e esperei que arrancasse. O sol da uma da tarde batia fortemente no vidro. Dei por mim a encostar a cabeça e a apreciar cada centímetro de calor que me era proporcionado. A vida lá fora continuava igual: as pessoas continuavam iguais; a estação continuava igual; as vontades eram as mesmas, assim como as obrigações. Sempre me intriguei: qual será o motor que move as pessoas? Nunca entendi se nos movemos por vontade, ou por obrigação. E, enquanto o comboio não arrancava, dava por mim a olhar para aquelas pessoas, à procura de uma resposta para a minha pergunta. Afinal, porque nos movemos? 
Abri um livro e comecei a ler. Nos espaços entre as palavras ia olhando à minha volta. Levantava timidamente a cabeça do fundo das frases e olhava. Olhava só por olhar - para não me sentir sozinho durante a viagem. Nos bancos à minha direita estava uma rapariga de cor. Tinha pedido a um rapaz que tinha entrado comigo na carruagem para a ajudar a arrumar a mala. Trazia uma vida naquela mala – imaginava eu. Um peso demasiado excessivo para os braços dela. Uma vida – pensava eu. Enquanto lia mais uma frase e me inquietava com o conteúdo da mala. Acreditava que era o jazigo de cadáveres de vidas passadas. Ou um museu de recordações de outros tempos: talvez felizes, talvez tristes. Quem sabe? Talvez ela estivesse a fugir de outra vida. Infelizmente para ela: o futuro traz a bagagem do passado. No entanto, ela não aparentava importar-se com isso: sentou-se no lugar e adormeceu. Também eu adormeci. Fui-me deixando envolver pelo calor do vidro e fui dormindo devagarinho: um sono de cada vez. Enquanto dormia o comboio avançava pelas estações. Acordei com o barulho de um grupo de rapazes que se encontrava a meio da carruagem. Soltavam para o ar piadas sem conteúdo. Procuravam uma esmola em forma de sorriso que tardava em aparecer. Penso que continuam à procura, talvez noutra estação, ou noutra carruagem. Aposto que ela anda por aí na boca de alguém. Há uma esmola em forma de sorriso destinada às piadas sem conteúdo de cada um. Eu acreditava nisso – ainda hoje acredito. Cada vez mais acredito.
Na janela, as paisagens eram quadros esborratados, as pessoas não eram pessoas e o meu reflexo era só um reflexo: uma imagem parada no tempo – de quem eu era, de quem eu sou, de quem eu poderei vir a ser. Procurava uma ruga de expressão (já que as rugas de idade não parecem passar por mim). Procurava-me ao espelho. Procurava por uma resposta. Era eu, no meio da vaidade dos meus olhos. Ajeitava o cabelo, mexia na barba e pensava. Ainda não sabia qual era o motor que me movia. Não sabia qual era o motor que movia as pessoas. O comboio avançava nos carris a uma velocidade que esborratava a paisagem e as pessoas. Só o meu reflexo se mantinha intacto entre as estações. Só eu continuava o mesmo no meio da velocidade.
Então o comboio abrandou a marcha e o meu reflexo no vidro deixou de ser só um reflexo. A paisagem deixou de ser uma sequência de cores e formas desfocadas. As pessoas começavam a parar nos passeios numa estranha calma que não julgava possuírem. Dei por mim a sorrir para um miúdo que esperneava freneticamente enquanto tentava que a mãe lhe largasse a mão siamesa que teimava em aprisioná-lo. Num banco um casal trocava carícias tímidas às escondidas dos olhares desdenhosos do público presente – eu incluído. Não os invejava. A minha cabeça colada no vidro parecia não ter vontade nenhuma. Só os olhos se mexiam. Só a imaginação funcionava. Imaginava para onde iam aquelas pessoas. Se eram movidas pela vontade, ou pelo destino. Imaginava. E, quanto mais imaginava, menos invejava o casal do banco. Quem me garante que aquele não seria o seu último beijo?
Cheguei ao meu destino à hora marcada. Saí do comboio sem pressa alguma. Pousei o meu pé direito no chão. As pessoas eram só pessoas. Não sabia qual era o motor que as fazia deslocar. Ainda hoje não sei - e isso pouco importa. Não interessa o motor que nos faz deslocar. Não interessa a que velocidade nos deslocamos. Interessa onde chegamos: a última estação. Tudo o resto é um quadro esborratado que um dia será paisagem.

PedRodrigues

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Este fumo miudinho de que sou feito

Sempre pensei que quando passasse dos sessenta os dias iriam tornar-se mais curtos. Que o relógio se  esqueceria dos segundos e dos minutos, de forma que as sete da manhã se confundiriam com as sete da tarde e os dias passariam por mim a uma velocidade de carro de corrida. Reformei-me por volta dos sessenta e cinco anos e os dias continuaram iguais. Nada de novo a não ser mais umas dores nos joelhos, mais uma ou duas rugas na cara, um aumento considerável de idas à casa de banho, os óculos – que tive de trocar, visto que as letras do jornal me começavam a fugir, novamente – e pouco mais. A minha mulher continuava na mesma. As pessoas na rua diziam que os anos não passavam por ela. Eu achava que passavam, mas esqueciam-se de lhe levar a juventude. Estávamos juntos há quarenta e oito anos e ela continuava tão bonita como no dia em que a conheci. Casámo-nos jovens e aos vinte anos já tínhamos dois filhos. Nunca amei mais ninguém na minha vida. Reparti o meu amor pelos três e nunca desperdicei um pingo que fosse fora de casa.
Amei a minha mulher até ao dia em que partiu. Tinha setenta e seis anos quando ela me foi roubada. Lembro-me desse dia todos os dias - quando me levanto da cama e rumo ao cemitério para visitar a campa onde ela jaz. Lembro-me dos beijos dela de todas as vezes que beijo a fotografia que está na lápide. Uma lágrima desdenhosa acaba sempre por aparecer. Uma lágrima que não sei de onde vem. Talvez venha deste fumo miudinho de que sou feito. Deste resto de fogo que, hoje, aos oitenta e dois anos, arde cada vez com menos fulgor. Roubaram-me a minha chama e todos os dias me pergunto onde arranjo forças para me levantar da cama. A verdade é que me levanto e ela não está. E as horas, que deveriam passar por mim a uma velocidade de carro de corrida, continuam a passar ao mesmo ritmo penoso, tornando cada vez mais densa a solidão.
Os meus filhos ligam-me todos os dias. Costumam aparecer de vez em quando cá por casa com as mulheres e os miúdos. Lá me vão dizendo

-O pai não quer vir viver connosco?

Eu finjo-me de desentendido e mudo logo de assunto. Prefiro ficar por aqui. A dormir na mesma cama onde, outrora, dormia a única mulher que amei. E no entretanto entre o sono e a solidão vou-me entretendo a limpar a casa, a tratar do jardim, a ler uns livros e as notícias no jornal. A dedilhar as páginas à procura de algo interessante no meio do habitual amontoado de sensacionalismo. Algo interessante como estes anúncios nos classificados onde aparecem raparigas nuas. Onde cada imagem se torna uma tentação. Cada anúncio torna essa tentação maior. Fui homem de uma só mulher. Nunca estive com mais ninguém. Nunca desejei estar com mais ninguém. Mas a solidão tem-me consumido o corpo e a alma. Sinto falta do aroma de uma mulher. Das curvas suculentas e da suavidade das carícias. Talvez sejam os delírios de um velho viúvo a falar mais alto, mas preciso de me sentir amado uma última vez.

(Pego no telefone e marco o número de um anúncio aleatório)

-Estou sim?

Uma voz de seda vai-me respondendo do outro lado. A certa altura eu

- Se nos pudéssemos encontrar para conversar. Só para conversar.

A voz de seda a responder-me do outro lado

-Só para conversar?

Eu já não tenho idade para muito mais. Não tenho idade para aquilo que está a pensar. Além disso, fui homem de uma só mulher e a minha chama morreu com ela. Só preciso de me sentir amado uma última vez.

-Se me puder dar a mão, agradecia. E se me puder acariciar a cara ficaria eternamente grato.

Marquei o meu último encontro para as quatro da tarde num café perto de casa. São três da tarde e o relógio teima em não apressar as horas. Visto-me a rigor e faço-me ao caminho. No cruzamento entre o café e o cemitério volto para onde me leva o coração. São quatro horas e eu estou a beijar a fotografia de quem ainda amo. Há amores que duram uma vida e o nosso ainda vive comigo. Espero que a senhora da voz de seda não fique zangada. Eu sei o que custa esperar por alguém que nunca vai aparecer.

PedRodrigues

terça-feira, 22 de novembro de 2011

A solidão cheira a maçã e canela

No outro dia comprei uma vela com aroma a maçã e canela. Queria que a casa esquecesse o teu cheiro. Queria que as paredes deixassem de sentir a tua falta. Queria que as marcas do teu corpo, no divã da sala, desaparecessem. Queria que te fosses embora das fotografias. Que parasses de me abraçar naquela em que estamos juntos a ver o pôr-do-sol. Que te levantasses e te fosses embora para sempre. Que me deixasses sozinha, como me deixaste na vida real. Deixavas-me a sorrir, como uma parva. E, pé ante pé, lá te ias afastando. Enquanto eu, feita parva, sorria para o pôr-do-sol.
Faz hoje um mês que me disseste

-Não consigo mais

Uma falta de ar, subitamente, no meu peito. Ainda me lembro daquele nó na garganta, daquele sorvedouro no estômago. Uma agonia imensa. O cheiro a cebola queimada – estava a fazer-te o jantar. Não era o teu prato favorito, mas estava a fazer-te o jantar. Entraste pela porta e nem me deixaste dar-te um sorriso. Nem um beijo me deste. De certo que seria o último, mas pelo menos ficava-me marcado nos lábios. Pelo menos ia-me ficando de lembrança, visto que não me lembro do nosso último beijo – e isso pouco importa. Deixaste-me, é um facto. Deixaste-me a mim e à casa e aos móveis. Foste-te embora sem te despedires. Pegaste nas chaves do carro e

-Não consigo mais

Foste embora. Fechaste a porta atrás de ti e aposto que nem olhaste uma última vez para mim. Eu ali, no meio dos tachos, das facas, dos condimentos, das cebolas, a chorar. Lágrima atrás de lágrima, enquanto me perguntava se a culpa teria sido minha. Se a razão de teres ido embora e não conseguires mais seria eu. Nem um último olhar me deste. Deixaste-me enquanto me afogava em mim. O pior não tinha sido ver-te partir, o pior era não saber por que razão partias. No entanto, nunca olhaste para trás. Nem uma última explicação me deste. Nem um último beijo me deixaste. Nem um último abraço onde me pudesse agarrar enquanto me deixavas. Nada.
Lembro-me tão bem de quando o telefone tocou nesse dia. Tinha estado mudo até àquela hora. Corri para ele na esperança de ouvir a tua voz

-Desculpa…

Mas a tua voz não apareceu do outro lado. Só uma voz que não era a tua. A mesma voz que me acompanhou na altura em que fui reconhecer o teu corpo encarcerado no carro. Ao que parece embateste contra um poste. A polícia disse-me que o excesso de velocidade e o piso molhado foram as causas do acidente. Mal sabem eles que a culpa não foi da velocidade ou da chuva. Eu sei que me querias abraçar uma última vez. Aposto que te deixaste levar pelo momento. Que pisaste no acelerador fervorosamente, tal era a pressa de me abraçares. E na tua cabeça abraçaste-me. Enquanto os teus braços se incrustavam entre o carro e o poste, na tua cabeça abraçavas-me. Também eu te imagino a abraçar-me

-Desculpa… Não chores. Foi um impulso, mas já passou. Vou amar-te para sempre.

Um abraço tão forte. O calor do teu peito a evaporar-me as lágrimas. Imagino-te a entrar em casa com um ramo de flores na mão. Enquanto eu te faço o jantar: o teu prato favorito.
Hoje tu não estás por cá. Comprei uma vela para te empurrar para fora de casa. As paredes sentem a tua falta. Eu sinto a tua falta. Continuas abraçado a mim no retrato, mas os teus braços não me aquecem e estamos em Novembro. Foste embora e nem levaste um agasalho. Será que não tens frio? Na minha cabeça ainda te vejo a entrar pela porta, com o tal ramo de flores. Encharcado e com frio. A dizeres-me

-Vou amar-te para sempre…

E, se era para sempre, porque me deixaste? Ainda hoje me pergunto. Hoje que tomei a caixa inteira dos anti-depressivos e a casa me começa a fugir. Um nevoeiro imenso e eu vou-te procurando, aos apalpões. Ainda hoje me pergunto: porque me deixaste? Um frio cada vez mais intenso no meu corpo. Onde estás? Abraça-me. Afinal, ninguém é para sempre. Afinal, nada é para sempre.

PedRodrigues