quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Poema número trinta e três

A menina da esquina

Um assobio vadio
Numa esquina por perto
Ao longe uma menina
De passado menos certo
Maquilhagem esborratada
Num olhar quase deserto
Um decote promissor
De um futuro inquieto
Ninguém sabe quem é
Nem lhe pergunta porquê
Ninguém a consegue ver
Nem mesmo quando a vê
Triste fado o dela
Que queria ser artista
Na esquina onde parou
Hoje é trapezista
Às vezes tanto balança
Que acaba por cair
Numa estranha esperança
Continua a sorrir
Sorri entre os dentes
Para ninguém ver
Enquanto ninguém olha
Ela tenta-se esconder
Não sei de onde veio
Nem para onde vai
Não lhe conheço a mãe
Nunca lhe vi o pai
E os carros vão parando
Só para a observar
Perdendo-se nas pernas
Que ela teima em mostrar
Aos homens que passam
Ela não nega o amor
Que tem guardado na algibeira
Para dar por favor
Ao longe vou olhando
E tentando entender
O estranho trapézio
Em que ela se foi meter
Então olho para ela
E começo a cogitar:
Se um dia cair
Também me posso aleijar
E vou assobiando
De nota na mão
Se cairmos os dois
Não passamos do chão.

PedRodrigues

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

O que os meus olhos vêem quando olho para ti

Lembro-me da Sofia na varanda a pintar o sol numa tela. Conseguia captar-lhe a alma, como se falasse com ele, como se soubesse que o nome do sol não é Sol, como se soubesse todos os seus segredos. Sempre a conheci assim. Sempre teve uma capacidade inexplicável de ler as pessoas, de sentir as coisas, de falar com o abstracto, uma habilidade incrível de me despir, de me desarmar, de me amar de olhos fechados. Ao passo que eu sempre me senti miudinho ao pé dela. Dava-lhe a mão à espera de sentir o que ela sentia, de amar o que ela amava. Olhava para ela e tentava ver-me na luz dos olhos dela, tentava ver as coisas com os olhos dela. Por vezes, ensinava-me a amá-la, à socapa, sem eu entender. Dizia-me

-Vês?

Baixinho, ao ouvido. Não via. Fingia uma e outra vez e acabava por errar novamente. Enquanto ela continuava com a lição, repetia a matéria, ensinava-me: sinais atrás de sinais. Então, um sorriso. Novamente

-Vês?

(-Agora vejo)

Numa calma tão leve como o ar, numa luz tão quente como a luz do sol. Dançava com as horas, dançava com os ponteiros do relógio ao sabor das horas. Até que um dia deixou de dançar. Encostou-se a um canto da casa, dobrada sobre si mesma. As janelas fecharam-se, as portas fecharam-se, as luzes fecharam-se, ela fechou-se. Desapareceu. Ficou tão pequena que desapareceu. A minha mão na mão dela e ela não crescia. Os olhos dela deixaram de ser olhos, um poço de lágrimas que desciam em cascata pelo pescoço, gemidos e gritos entre gritos e gemidos. Ela dobrada sobre si mesma a baloiçar. Onde estava o vento que a fazia baloiçar? Fitava o chão à procura do cotão perdido pelo soalho, a ver as migalhas nas alcatifas. Será que ela via as migalhas nas alcatifas? Uma dose de anti-depressivos e ela adormecia. Encaracolada na cama até começar a espernear com os pesadelos. A boca descolorada, branca dos depósitos de saliva das palavras que pronunciava baixinho. Será que me dizia

-Vês?

Eu via, mas era como se não visse. Nunca consegui partilhar da habilidade dela. Não via. Ela baloiçava e eu não via, ela pedia a morte e eu não ouvia, ela chorava e eu perguntava-me de onde vinham as lágrimas, até que o Natal chegou e eu saí de casa em busca de respostas, ou de algo que trouxesse a luz de volta. Vagueei pelas ruas entre mendigos e pescadores de ilusões. Vi a capacidade de amar que as pessoas desenvolvem nesta altura. No Natal amamos de uma forma desumana, gastamos todas as calorias que vamos recolhendo ao longo do ano. O nosso coração deixa de funcionar a trinta por cento e amamos: amamos com o coração, com os pulmões, com o estômago. Encontramos uma luz em nós que se apaga em todos os outros dias, o sol que brilha com essa luz reflecte-se numa ténue vidraça que nos separa do nosso próprio cinismo. Se fossemos verdadeiramente formatados para amar de uma maneira incondicional, essa luz nunca se apagaria. No entanto, sofremos em silêncio, num vazio que nos consome, numa escuridão imensa - como a escuridão nos olhos da Sofia - à procura de uma luz que só se acende uma vez por ano. Vamos amando por obrigação. Porque se não amarmos, não somos amados, se não formos amados estaremos condenados a partilhar o nosso vazio connosco mesmos, e a escuridão parece mais pequena quando é partilhada com alguém. Tocamos uns nos outros à procura de uma mão que nos guie. Se essa mão não chega: paramos. Somos estátuas de pedra numa fonte onde o sol não brilha, à espera de uma esmola que nos liberte da solidão. E então, o que faremos quando o pouco se tornar insuficiente? O que faremos quando o pouco se extinguir? O que nos fará continuar? Pergunto-me se a Sofia não esperará pela minha esmola. Nunca a soube ler como ela a mim. Ainda a vejo no escuro a olhar-me de soslaio

-Vês?

(-Afinal o que queres que veja? Penso para mim)

Custa-me ser maior que tu. Juro que me custa ser maior que tu. Tenho saudades de quando era eu a sentar-me no escuro a baloiçar com o vazio da casa, de ouvir a leveza das tuas palavras de papel vegetal, pelo menos tu sabias ler-me como um livro. Sempre soubeste ler-me como um livro. Se eu te dissesse

-Vês?

Tu, sem rendilhados e mentiras

-Sim, vejo

(-Amo-te)

E o sol, na vidraça, a brilhar.

PedRodrigues

domingo, 18 de dezembro de 2011

Cinco minutos

Se há coisa que me assusta é a morte. Não a minha. Assusta-me a morte daqueles que amo. São poucos. Se quisesse, aposto que os conseguiria contar pelos dedos. Estes mesmos dedos que tremem de cada vez que penso nisso: folhas outonais a tremelicar com o vento. Enquanto vou escrevendo esta crónica, o meu avô vai dormindo no sofá ao lado. É por ele que os meus dedos vão tremendo – cada vez mais. A morte da minha avó deixou em todos nós um enorme vazio. Deixou o meu avô a viver pela metade. Todos os dias ele vai morrendo mais um bocadinho. E todos os dias eu vou pedindo que a morte me dê mais cinco minutos com ele.
Acredito que as pessoas não vejam, que digam que ele está com o aspecto de um jovem, mas eu sei que ele vai morrendo por dentro, todos os dias. De cada vez que acabo um abraço, já sinto saudades dele. De cada vez que acaba um aperto de mão, já sinto saudades dele. De cada vez que lhe digo até amanhã, a saudade mata-me um bocadinho. Um ácido em forma de adeus, com vontade que seja um até já. Sempre foi um até já. Nem sempre será um até já. Um dia os cinco minutos acabarão e o meu corpo irá congelar novamente. Ainda me lembro do dia em que a avó morreu. Todos nos lembramos do dia em que a avó morreu. Há metades que não partem, memórias que nos vão prendendo as metades ao mundo. A metade da avó continua viva. Uma chama miudinha no nosso corpo a arder num vazio que um dia será só mais um vazio. Quem ama, ama com o coração de fora. Deixa esse vazio no peito para guardar as metades de quem ama. É assim que se ama. E é assim que eu amo o meu avô. Apesar da teimosia crescente com a demência da idade, do feitio vincado por uma vida de sacrifício, da mentalidade estagnada no tempo: amo-o de uma forma incondicional e inexplicável. Guardo cada momento numa eternidade que sei não nos pertencer. Guardo-o num sítio onde o tempo não é tempo. Onde nada é para sempre, mas vai sendo. Guardo-o no mesmo sítio onde guardo a avó. Olho-o sempre com a mesma atenção: à lupa. Decoro cada ruga, cada calosidade, cada pêlo, cada fio de cabelo. Se fechar os olhos nesse instante vejo-o da mesma forma. Abraço-o sempre da mesma forma, com toda intensidade: até que a minha pele já não é a minha pele: uma ponte que nos liga. Sinto na minha espinha os arrepios dele. Sinto nos meus dedos as chagas de uma vida. Sinto nos meus olhos as lágrimas que ele chorou no dia em que a avó partiu. Então choro com ele. A minha pele na pele dele e eu choro. As minhas mãos nas mãos dele e eu choro. O meu coração a bater por ele e eu choro.
Sei que hoje, enquanto dorme no sofá, ele é um avô orgulhoso. Quero dar-lhe uma última alegria. Só uma última alegria. Um dia ele partirá e eu ficarei a viver pela metade. A morrer todos os dias mais um bocadinho - um bocadinho maior todos os dias. Até que um dia vão olhar para mim e vou ser apenas um farrapo – com bom aspecto - a ser levado pelo vento. Enquanto ele me olha do sofá, eu vou sentindo saudades dele. Uma lágrima desdenhosa vai-me caindo dos olhos. Enquanto a limpo vou pedindo que a morte me dê só mais cinco minutos com as pessoas que amo.

PedRodrigues