terça-feira, 10 de janeiro de 2012

A consequência de não dizeres que me amas


Diz que me amas. Não digas baixinho, entre os dentes, a mastigar as palavras. Parece que não me amas. Diz que me amas. Não me digas ao ouvido que eu conheço os teus estratagemas: se me distraio a meio da frase já me estás a morder o lóbulo da orelha, uma mão no peito e eu todo arrepiado, sem me conseguir concentrar. Se não abro os olhos já me estás a enganar com as tuas manhas de mulher. Acabas por não me dizer coisa alguma e eu fico sem saber de nada. Fico aqui sem dormir, sem comer. A minha mãe no outro dia

-Estás mais magro

De sobrolho em riste à procura de uma pista. As mães são todas iguais, sabem sempre de tudo. E quando não sabem metem-se a olhar para nós de sobrolho em riste como que a explorar as nossas entranhas à procura das pequenas omissões que vamos escondendo delas. Ou a farejar a roupa, numa luta incansável com o tecido, em busca das sobras de um perfume alheio qualquer. Sedentas de um conhecimento que lhes vamos negando; imaginando-nos numa terra do nunca onde os meninos são meninos para sempre.  De mãos na cabeça

-Não te tens alimentado como deve ser. Estás mais magro.

Enquanto nos impingem o cachecol porque está frio. Ou nos seguem pela casa porque temos o colarinho da camisa desalinhado. A mendigar por novidades enquanto nos compõem a roupa, nos empurram a comida pela goela abaixo, ou nos mimam com beijos intermináveis. As mães são todas iguais.
Há uns dias sonhei que te apresentava à minha mãe. Não me olhes assim, não sejas parva. Eu não sou maluco: não lhe disse nada. Quando me lembro do sobrolho em riste, a olhar para ti com vontades homicidas. A dizer entre os dentes

-Vai roubar-me o meu menino

(Um sorriso de plástico a disfarçar)

A mastigar as palavras como tu, que ainda não disseste que me amas. Vais-me enganando com suspiros, com abraços, com beijos e sucede-se que eu hoje não quero suspiros, nem abraços, nem beijos. Quero que digas que me amas. Sem mastigares as palavras, sem te engasgares a meio. Estou aqui pele e osso, ouve o que te digo: pele e osso. Eu já nem como, já nem durmo. Qualquer dia a minha mãe liga-me e eu conto-lhe tudo. Ela a passar-me a mão pelo cabelo, do outro lado do telefone, a empurrar-me um prato de sopa, enquanto que, deste lado, tu me olhas de sobrolho em riste. Já te disse que me fazes lembrar a minha mãe? Não me olhes dessa forma, não é vergonha nenhuma. A minha mãe também me ama. A minha mãe também é bonita como tu. Não comeces com essas coisas. Não me olhes com esses olhos de predadora. Guardaste a noite nos teus olhos, guardaste o negro da noite nos teus olhos. Quando me mostras a noite nos teus olhos eu derreto. Juro que derreto. Não me olhes assim que derreto. Pára de me beijar o pescoço. Já chega de beijos e de carícias. Já te disse que estou farto. Continuas com o olhar de predadora. Se me distraio já os teus dotes de mulher me estão a enganar novamente. Se a minha mãe soubesse que me enganas

-Ai o meu menino

Vinha até aqui e metia-te na linha. Acredita que metia. Continua a armar-te ao pingarelho. Continua a enganar-me com esses suspiros. Se ela sonha

-Estás mais magro

(De sobrolho em riste a procurar-te nas minhas entranhas)

Vem até aqui e mete-te na linha. De forma que o melhor é dizeres que me amas, antes que o telefone toque e a minha mãe comece o interrogatório habitual. Deixa-te de rendilhados que, se não dizes que me amas entretanto, mando-te à fava em menos de um fósforo. Troco-te por um prato de sopa, que estou cada vez mais magro e a minha mãe, do outro lado, já começa a desconfiar.

PedRodrigues


(Crónica da edição de Janeiro da revista Algarve Mais)

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Poema número trinta e três

A menina da esquina

Um assobio vadio
Numa esquina por perto
Ao longe uma menina
De passado menos certo
Maquilhagem esborratada
Num olhar quase deserto
Um decote promissor
De um futuro inquieto
Ninguém sabe quem é
Nem lhe pergunta porquê
Ninguém a consegue ver
Nem mesmo quando a vê
Triste fado o dela
Que queria ser artista
Na esquina onde parou
Hoje é trapezista
Às vezes tanto balança
Que acaba por cair
Numa estranha esperança
Continua a sorrir
Sorri entre os dentes
Para ninguém ver
Enquanto ninguém olha
Ela tenta-se esconder
Não sei de onde veio
Nem para onde vai
Não lhe conheço a mãe
Nunca lhe vi o pai
E os carros vão parando
Só para a observar
Perdendo-se nas pernas
Que ela teima em mostrar
Aos homens que passam
Ela não nega o amor
Que tem guardado na algibeira
Para dar por favor
Ao longe vou olhando
E tentando entender
O estranho trapézio
Em que ela se foi meter
Então olho para ela
E começo a cogitar:
Se um dia cair
Também me posso aleijar
E vou assobiando
De nota na mão
Se cairmos os dois
Não passamos do chão.

PedRodrigues

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

O que os meus olhos vêem quando olho para ti

Lembro-me da Sofia na varanda a pintar o sol numa tela. Conseguia captar-lhe a alma, como se falasse com ele, como se soubesse que o nome do sol não é Sol, como se soubesse todos os seus segredos. Sempre a conheci assim. Sempre teve uma capacidade inexplicável de ler as pessoas, de sentir as coisas, de falar com o abstracto, uma habilidade incrível de me despir, de me desarmar, de me amar de olhos fechados. Ao passo que eu sempre me senti miudinho ao pé dela. Dava-lhe a mão à espera de sentir o que ela sentia, de amar o que ela amava. Olhava para ela e tentava ver-me na luz dos olhos dela, tentava ver as coisas com os olhos dela. Por vezes, ensinava-me a amá-la, à socapa, sem eu entender. Dizia-me

-Vês?

Baixinho, ao ouvido. Não via. Fingia uma e outra vez e acabava por errar novamente. Enquanto ela continuava com a lição, repetia a matéria, ensinava-me: sinais atrás de sinais. Então, um sorriso. Novamente

-Vês?

(-Agora vejo)

Numa calma tão leve como o ar, numa luz tão quente como a luz do sol. Dançava com as horas, dançava com os ponteiros do relógio ao sabor das horas. Até que um dia deixou de dançar. Encostou-se a um canto da casa, dobrada sobre si mesma. As janelas fecharam-se, as portas fecharam-se, as luzes fecharam-se, ela fechou-se. Desapareceu. Ficou tão pequena que desapareceu. A minha mão na mão dela e ela não crescia. Os olhos dela deixaram de ser olhos, um poço de lágrimas que desciam em cascata pelo pescoço, gemidos e gritos entre gritos e gemidos. Ela dobrada sobre si mesma a baloiçar. Onde estava o vento que a fazia baloiçar? Fitava o chão à procura do cotão perdido pelo soalho, a ver as migalhas nas alcatifas. Será que ela via as migalhas nas alcatifas? Uma dose de anti-depressivos e ela adormecia. Encaracolada na cama até começar a espernear com os pesadelos. A boca descolorada, branca dos depósitos de saliva das palavras que pronunciava baixinho. Será que me dizia

-Vês?

Eu via, mas era como se não visse. Nunca consegui partilhar da habilidade dela. Não via. Ela baloiçava e eu não via, ela pedia a morte e eu não ouvia, ela chorava e eu perguntava-me de onde vinham as lágrimas, até que o Natal chegou e eu saí de casa em busca de respostas, ou de algo que trouxesse a luz de volta. Vagueei pelas ruas entre mendigos e pescadores de ilusões. Vi a capacidade de amar que as pessoas desenvolvem nesta altura. No Natal amamos de uma forma desumana, gastamos todas as calorias que vamos recolhendo ao longo do ano. O nosso coração deixa de funcionar a trinta por cento e amamos: amamos com o coração, com os pulmões, com o estômago. Encontramos uma luz em nós que se apaga em todos os outros dias, o sol que brilha com essa luz reflecte-se numa ténue vidraça que nos separa do nosso próprio cinismo. Se fossemos verdadeiramente formatados para amar de uma maneira incondicional, essa luz nunca se apagaria. No entanto, sofremos em silêncio, num vazio que nos consome, numa escuridão imensa - como a escuridão nos olhos da Sofia - à procura de uma luz que só se acende uma vez por ano. Vamos amando por obrigação. Porque se não amarmos, não somos amados, se não formos amados estaremos condenados a partilhar o nosso vazio connosco mesmos, e a escuridão parece mais pequena quando é partilhada com alguém. Tocamos uns nos outros à procura de uma mão que nos guie. Se essa mão não chega: paramos. Somos estátuas de pedra numa fonte onde o sol não brilha, à espera de uma esmola que nos liberte da solidão. E então, o que faremos quando o pouco se tornar insuficiente? O que faremos quando o pouco se extinguir? O que nos fará continuar? Pergunto-me se a Sofia não esperará pela minha esmola. Nunca a soube ler como ela a mim. Ainda a vejo no escuro a olhar-me de soslaio

-Vês?

(-Afinal o que queres que veja? Penso para mim)

Custa-me ser maior que tu. Juro que me custa ser maior que tu. Tenho saudades de quando era eu a sentar-me no escuro a baloiçar com o vazio da casa, de ouvir a leveza das tuas palavras de papel vegetal, pelo menos tu sabias ler-me como um livro. Sempre soubeste ler-me como um livro. Se eu te dissesse

-Vês?

Tu, sem rendilhados e mentiras

-Sim, vejo

(-Amo-te)

E o sol, na vidraça, a brilhar.

PedRodrigues