quinta-feira, 1 de março de 2012

Feliz aniversário, Pedro


Vamos crescendo em silêncio, na esperança vã que o tempo não nos ouça. Vamos dando tempo aos nossos passos para que sejam cada vez maiores. À medida que vão crescendo, nós vamos crescendo com eles: sempre a olhar para trás, a contar as migalhas. De repente chegamos aonde nos esperam. Somos feitos do tempo que demoramos a lá chegar. Somos feitos das montanhas que subimos, dos mares que atravessamos, da areia que pisamos, do ar que respiramos. Somos feitos do mundo - e o mundo é feito de nós. Somos feitos das mãos dos que partilham esta jornada connosco. Crescemos com a relva, em silêncio. Crescemos com as árvores, em silêncio. Crescemos de mãos dadas, em silêncio. Não queremos que o tempo nos ouça, mas vivemos num desespero constante para que não nos esqueça. E então procuramos nos nossos dedos outros dedos. Vamos apalpando até não nos sentirmos sozinhos. Nesse momento somos felizes. Nesse momento somos feitos das memórias: das nossas e das dos outros. Sentimo-nos especiais. Sentimo-nos parte do tempo que passa por nós. Existimos nas vidas uns dos outros, numa corrente de amor que por vezes não entendemos. Precisamos uns dos outros para que essa corrente não deixe de existir. Existimos enquanto plural. Partilhamos as mesmas águas onde todos nos banhamos: num rio de ternura abstracta, quase escondida, que não damos conta. Seremos sempre um produto inacabado aos nossos olhos: morreremos sem ter feito tudo aquilo que nos propusemos a fazer. Mas, pelo menos, seremos lembrados pelo pouco fizemos e nunca pelo muito que deixámos por fazer. Crescemos com medo que o tempo se lembre de nós. Crescemos mudos. No entanto, não queremos ser esquecidos. Vivemos numa procura constante para o amor que trazemos guardado. Se realmente formos dignos, daremos esse amor sem pedir nada em troca. Então as nossas mãos não se fecharão sozinhas. Seremos sempre lembrados por quem nos ama. Faremos parte do tempo deles, e seremos esse mesmo tempo. Hoje dou por mim numa luta incansável contra o esquecimento. Um dia não estarei cá para lutar. Nesse dia, sei que serei mais que uma simples fotografia na estante da sala. Sei que quem me ama, não me esquece – não me esquecerá. De modo que vou crescendo em silêncio, com medo que o tempo me ouça, e sem que ele veja vou dando as mãos por aí, na esperança vã(?) que um dia o mundo inteiro se lembre que existo.

Parabéns a mim.

PedRodrigues

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Ao meu pai, o marinheiro


Sinto que sentes que não falo o suficiente de ti. Como poderias sentir-te de forma diferente? Como poderia eu falar mais que aquilo que falo? Na verdade, não poderia. És a figura menos presente na minha vida. Mas, a par da mãe, és a mais importante. Segundo ela, somos feitos da mesma matéria – seja ela qual for. Segundo ela

-Ele é todo pai

Somos gémeos siameses presos num nó cego de semelhanças. Sempre que ela diz isto, lembro-me da tua fotografia no móvel da sala da avó Alice, tinhas dez anos. Sempre que ela diz isto lembro-me da fotografia na estante do hall de entrada de nossa casa, tinha eu dez anos. A certa altura das nossas vidas fomos gémeos – apenas um desnível temporal e uma paleta de cores a separar-nos. De certa forma, vamos caminhando pela vida tirados a papel químico um do outro.
Sei que a vida que escolheste sempre deixou espaço a longas ausências. Não te condeno. Nunca senti falta do teu amor durante o tempo em que não estavas. Nunca me abracei às tuas fotografias em busca do amor perdido. Uma vez, quando era pequeno, lembro-me de estar a pensar para mim “como é a cara do pai?” e corri pela casa à procura da tua imagem, num pânico imenso, natural da idade. Desde esse dia que nunca mais me esqueci da tua cara, ou do timbre da tua voz, ou da tua altura. Para ser sincero, desde esse dia que deixaste de partir. Para mim estás sempre aqui, ao meu lado. Aprendi a guardar-te comigo como se guarda quem se ama de verdade. E falando em amor: tu e a mãe partilham o amor mais bonito que conheço: não há mar que o afogue, nem distância que o apague. A verdade é que guardamos calorias de amor nos nossos corpos enquanto estamos juntos e, de vez em quando, lá vamos hibernando uns dos outros sem que essas calorias se esgotem. Não sei se alguma vez reparaste: a melhor mãe do mundo veste trapos de gata borralheira em corpo de princesa. E a melhor esposa do mundo veste uma face de certezas, num estômago de incertezas. Apesar de todo este ziguezaguear de que a nossa vida é feita, a mãe nunca deixou de te esperar e tu nunca deixaste de chegar. Desde miúdo que esta vossa relação em interruptor tem sido o meu mantra para a vida. Vejo a forma como se olham há mais de duas décadas – quase três – sempre com ternura, com carinho, com um amor inesgotável. Toda a disfuncionalidade de que a nossa família é feita ajudou-me a compreender que os grandes amores, os amores que têm contos impressos na história, são feitos de ausências. De maneira que fui aprendendo aos poucos a não deixar de amar aqueles que não estão todos os dias comigo. Foi assim que aprendi a falar com a avó Lucinda na orquestra de silêncio de que a noite é feita. Foi assim que aprendi a montar maquetas da casa da avó Alice na minha cabeça – com todos os jarros, as chávenas, as fotografias, as plantas... É assim que vou esperando por ti, ao lado da mãe, do avô e da avó. Sentados no sofá na expectativa de um bater na porta, ou um rodar na fechadura, com um sorriso atrás do olhar - que não há mar que afogue, nem distância que apague.

(E a mãe vestida com os trajes de uma princesa)

-O teu filho é todo pai.

PedRodrigues

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Menu Amor


Amo-te.
Não te amo de uma forma qualquer, ao tropeção, sem medida, ou ao acaso. Não te amo cada dia mais porque as coisas não funcionam assim. O amor não evolui de amor. Será sempre amor, ou então outra coisa qualquer. Vou-te amando como se ama na vida real: com todos os teus defeitos e os meus à mistura, com todas as conversas em cadeia: as nossas, as dos nossos amigos, as dos amigos dos nossos amigos, as dos amigos dos amigos dos nossos amigos e assim sucessivamente, até ao extremo em que eventualmente nos deixaremos de amar. Vou-te amando em cada palavra dessa cadeia e em cada palavra que te escrevo. Se disser o contrário estarei a mentir, visto que quer queira quer não, sempre que escrevo penso em ti, e cada vez que penso em ti não me consigo excluir. Sinto-me misturado em ti e sinto-te misturada em mim. Não te sei explicar como, nem porquê, mas sinto-nos presos numa camisa-de-forças. E é esta a forma ideal de explicar como nos amamos: amamo-nos numa camisa-de-forças: quanto mais esperneamos, mais nos enrolamos um no outro. Amo-te em todos os detalhes que te fazem mulher: o jeito rebelde do teu cabelo, o comprimento do teu sorriso, todos os teus sinais e marcas, o teu aroma a kiwi e coco. Amo quando me tratas bem e não deixo de te amar quando me tratas mal. Amo-te da forma mais difícil de amar: com o coração e as tripas de fora. Não te amo de uma forma infantil, juvenil, ou pré-adulta. Não sou dado a romances de telenovela das seis da tarde, nem aos grandes amores do cinema. O amor não é feito de infinitas utopias. É visceral e acutilante. Se for suficientemente forte, reformulo: se for verdadeiramente real, dará dores de barriga, náuseas, apertos no peito e tremores nas mãos. O amor, o verdadeiro amor, é uma faca de dois gumes. É uma pistola carregada com todas as dores do mundo. Mas só o amor, aquele que é digno das nossas cólicas, vale a pena. Se for para amar, que se ame com um peito de ferro: sem medo. Eu amo-te assim. Sabendo dessa forma que tu também me amas a mim.
Como te disse, hoje não te amo mais que ontem, ou que vou amar amanhã. Não sei quanto tempo ficaremos juntos, mas espero envelhecer ao teu lado. Não te vou jurar amor eterno. Sabes bem que não acredito na eternidade. Juro-te apenas amor. Juro amar-te na mesma quantidade todos os dias. Juro ser a metade que completa o teu sorriso em quarto crescente na minha almofada. Juro-te beijos, carícias, textos… Juro amar-te como se ama na vida real: com tudo o que somos à mistura, presos numa camisa-de-forças.

Amor
Hoje,
Até um dia
Amor

PedRodrigues