quarta-feira, 6 de junho de 2012

A ti, mãe


Mãe.
És a mão que me guia. Quando olho o horizonte, onde começa e onde acaba, olho para ti. Procurar-me será sempre sinónimo de encontrar-te, e encontrando-te encontro-me a mim. Trago-te vestida no corpo. És parte das minhas mãos, dos meus pés, dos meus olhos, dos meus cabelos, dos meus sinais, do meu coração, daquilo que sou e daquilo que sonho um dia vir a ser. Procuro o teu orgulho no mínimo que faço e sofro de dores insuportáveis quando falho nessa tarefa. Para mim serás sempre feita de estrelas. De mil e um sóis, de mil e uma galáxias. Brilhas como mais ninguém brilha e por isso és especial. Não só por isso és especial. A nossa vida tem sido feita de altos e baixos - como todas as vidas. Temos chorado juntos e rido juntos. Não fugimos quando as coisas não correm de feição, nem desatamos a correr desenfreados na direção um do outro quando tudo está bem. Estamos juntos, ligados um ao outro: compactos e inquebráveis. Nada neste mundo é tão forte como nós. Acredito que, se a eternidade existisse, nós seríamos eternos. Mas não somos. Um dia todos partiremos, e tudo o que restará serão as nossas memórias. Este texto continuará a ser um texto, mesmo depois da nossa partida. Será a prova mais real que um dia existimos e um dia nos amámos. É a melhor prenda que te posso dar. Mais que um ramo de rosas, uma camisa, um relógio ou um fio, este texto - assim como todos os outros - é a melhor prenda que tenho para te dar. Viverás enquanto eu viver e continuarás a viver nas páginas que escrevo. Nelas serás sempre o bater do meu coração. Sempre. Sempre. Viverás como vive a tua mãe e minha avó. Essa que nos foi roubada cedo demais. Se procurares bem em cada texto verás que ela anda por lá. Passeia-se pelas frases, como passeava aqui por casa. Tenho saudades dela. Tantas, tantas. Recordo-a em ti: quando estás a fazer a sopa ao Domingo, ou quando te deitas no sofá a dormir ao serão. Vejo-a em cada ruga do teu rosto. Era boa a avó. E tu também és. Amar é um verbo curto para explicar aquilo que te dedico. É o único que sei, mas é curto. Ninguém conseguirá descrever esse sentimento que trazemos no peito enquanto filhos. Poderemos tentar, mas não acredito que o consigamos descrever na sua plenitude. As estrelas no céu não existem para serem contadas. Tu és feita das estrelas do céu. És infinita no meu peito e duras até eu te perder de vista, mãe. Duras sempre. Para sempre. Não te herdei a cor dos olhos, nem o jeito do cabelo, mas outras coisas acabaram por ficar. Vão ficando por aqui. Vão crescendo comigo e vivendo através de mim. Não te deixarei partir, nunca. A vida continuará a seguir o seu rumo, o mar continuará a deitar-se na areia, o sol continuará a brilhar, a chuva continuará a cair e nós continuaremos a seguir o nosso rumo como todas as coisas. Foste filha, és mãe, um dia serás avó e assim sucessivamente até que o mundo esqueça que um dia cá estiveste. Não esquecerá. No que de mim depender, nunca esquecerá. Há coisas na vida que não merecem ser esquecidas. Pessoas que deviam durar como monumentos. E tu és uma delas. E tu viverás escrita no coração das minhas palavras.
Amo-te.

PedRodrigues

(Crónica da edição de Junho da revista Algarve Mais)

domingo, 27 de maio de 2012

Pequena autobiografia


Sou da opinião de António Lobo Antunes quando diz que as biografias “contam factos, acumulam testemunhos, relatam acontecimentos mas é tudo por fora”. E assim sendo, é-me penoso, quase antinatural, escrever o que quer que seja sobre mim num contexto autobiográfico. Estaria a enganar-me e a enganar quem me lê, se o tentasse fazer. Far-me-ia mais alto, mais bonito, mais interessante. Faria de mim um personagem, enquanto eu, Pedro Miguel Pimentel Rodrigues, ficaria sentado na cama a ver-me como gostaria de ser visto. Claro que há factos irrefutáveis: nasci a um de Março de oitenta e sete na Cova-Gala, Figueira da Foz, frequentei o Jardim Escola João de Deus, fiz o meu ensino primário na Escola da Gala, passei pela EB 2/3 Dr. João de Barros, bem como pela Escola Secundária Dr. Joaquim de Carvalho e, neste momento, encontro-me a concluir o Mestrado em Engenharia Civil na Faculdade de Ciências e Tecnologias da Universidade de Coimbra, mas tudo isto é sintético, factual, sem nada dizer sobre mim. E acabo com a noção de que quem lê esta sequência pouco saberá sobre quem sou. O meu gosto pela escrita vem de longe: começou na primária, continuou no ciclo, onde entrei em alguns concursos de poesia, e entretanto foi adormecido pelo desejo súbito de me tornar num homem das ciências, mais que num homem das letras. Continuei a escrever, mas a faísca de escritor que havia em mim esmoreceu. Passaram-se dias, passaram-se meses, passaram-se anos e tudo o que escrevia era muito pouco: um poema, ou uma carta de vez em quando. Ouvia muito, falava pouco e guardava em mim cada conversa, cada discussão, cada súplica, cada grito de revolta. Fui vivendo com o corpo atulhado de vozes que, quero crer, a minha juventude e ingenuidade calaram. Reprimi o que havia para reprimir até ao dia em que a minha avó morreu. Nesse dia, nesse fatídico dia, o meu corpo tornou-se pequeno para a vida que havia em mim. Escrevi. Escrevi páginas inteiras tingidas de lágrimas. Dei de mim ao papel tudo o que tinha cá dentro. Nesse dia percebi que não mais conseguiria calar as vozes, não mais as calaria. Passaram quatro anos desde a morte da minha avó até ao dia em que criei Os Filhos do Mondego, em Novembro de dois mil e dez. Quatro anos em que escrevi para mim, ou melhor, para as minhas gavetas. Hoje, graças ao meu primo Luís Filipe, escrevo para dar vida às minhas palavras. Escrevo para dar vida às vozes que trago cá dentro. Escrevo para o mundo, se o mundo me quiser ler. Desde o dia em que publiquei pela primeira vez algo no blogue que me sinto a evoluir diariamente enquanto escritor – perdoem-me a presunção. A prova está nos convites que têm surgido, entre os quais o da Algarve Mais, revista para a qual escrevo mensalmente desde Janeiro deste ano, e nas críticas tão positivas de quem lê os meus textos. Hoje ainda sou um projeto do Pedro Rodrigues que gostaria de biografar um dia. Hoje, sem rendilhados, sou apenas mais um rapaz com faísca e meia dúzia de textos editados. Espero que um dia essa faísca dê lugar a um incêndio e o seu clarão se veja a quilómetros e quilómetros de distância.

PedRodrigues

quinta-feira, 24 de maio de 2012

A vida dói


-É a vida

Realmente, é verdade: é a vida. Às vezes muda sem nos pedir licença, sem nos avisar. Às vezes, aquilo que tinha tudo para correr bem, acaba por correr mal. Fazem-se escolhas. Vivem-se essas escolhas e depois

-É a vida

Ficamos admirados a contemplar a vida a atropelar-nos. Acabamos abraçados às paredes de queixo partido, de dentes partidos, de pernas partidas, de braços partidos, de coração partido. Acabamos. Desfeitos. Acabamos. E é nos finais que sentimos a vida no corpo. A despenhar-se na nossa direção a duzentos quilómetros por hora. É nessa hora, nesse preciso momento, que a sentimos nos ossos e nos músculos e nas veias. A vida dói. Vai passando por nós sem pedir licença. Levando o que amamos consigo.

-Vai.

Matando-nos devagarinho: centímetro a centímetro.

-Não queres que fique?

(Um olhar no vazio.)

-É por querer tanto que fiques, que te peço que vás.

O relógio da estação a teimar em parar o tempo. Cada segundo mais longo que o outro. Até o ar parecia parar, teimando em não entrar nas narinas, em não chegar aos pulmões.

-Mas eu quero ficar. Quero ficar contigo. Como é suposto ser feliz sozinha?

Ao ouvi-la os meus ossos a racharem lentamente. Cada palavra um murro no estômago. As pessoas a desviarem-se, ágeis,  ignorando o meu sofrimento. Os comboios chegavam e partiam sem que nada os fizesse parar: nem o relógio, nem as lágrimas, nem o meu corpo quase desfeito em pó de giz. Nada os fazia parar. Nada fazia parar a vida. E enquanto ela seguia o seu rumo atropelava-me uma e outra vez. Inconsciente do meu sofrimento, ou do sofrimento da Luísa. Ignorava-nos. Ignorava as lágrimas dela

-Nunca serei feliz sem ti

Ignorava as minhas dores.

-Então sê feliz por mim. Peço-te: sê feliz. Faz isso por mim.

-Esperas?

A mão dela tremia na minha. Sentia-a a apertar-me com as forças que lhe restavam. Os nossos dedos abraçavam-se eternamente. Sentia as unhas dela na minha carne. A marcarem-me uma última vez. Queria guardar na pele uma chaga que fosse que me lembrasse dela. Não queria encarar aquele momento como um final, ou um adeus. Queria que fosse só mais um entretanto. Que é aquilo que realmente somos: entretantos. Olhei-a nos olhos e limpei-lhe suavemente as lágrimas do rosto. A cara dela brilhava de tristeza e isso matava o que ainda restava de mim. A mão dela teimava em não largar a minha, com medo da falsa eternidade que sabia unir-nos. Engoli um trago de saliva e lágrimas. Olhei-a nos olhos, como se olha quem se ama, e respondi-lhe

-Por ti? Uma vida. E se existir outra continuarei a esperar.

Ainda me lembro daquele último sorriso de papel vegetal: leve, frágil, transparente. Sorri com ela e ajudei-a a subir para o comboio. Beijámo-nos ao som do sinal de partida e nesse momento senti-me como se fosse feito de pó, a espalhar-me pelo mundo: um braço aqui, um pulmão ali, o coração acolá. Sentia-me mutilado, partido, incompleto. O meu amor, o meu grande amor de oito anos, acabara de desaparecer atrás de uma vidraça, à velocidade de um alfa pendular. E eu corri para não a perder de vista. Corri sem condições de a alcançar.

(-É a vida)

Espero que realize todos os seus sonhos e um dia volte para me completar.

PedRodrigues