sexta-feira, 6 de julho de 2012

Crónica de um amor absurdo


-Há coisas que tu não sabes e há coisas que eu não te digo.

Apertava-a com toda a força do mundo e toda a força do mundo não lhe chegava. Sentia-a na pele do pescoço a misturar-se de respiração em cada milímetro. Beijava-lhe os ombros seminus enquanto fechava os olhos e pensava que realmente existiam coisas que não eram ditas, coisas que ficavam caladas pelos cantos: mudas, estranhas, trágicas. Como calar as coisas que nos magoam? Pensava ele enquanto a tentava esmagar no seu peito. O coração dela batia em uníssono com o dele e o mundo completava-se no seu abraço.

-Há coisas que não sabes

Gritava ele na sua cabeça. Delirava de febres extremas vindas sabe-se lá de onde. Gritava de garganta em riste, amaldiçoando o mundo

-Não sabes e eu não te digo

Berrava naquele abraço e naquele abraço continuava-se de horizonte até ao infinito. Passava-lhe a mão pelos cabelos. E que cachoeira de linho seria aquela que lhe caía pelas costas? Que mulher era aquela feita de girassóis e flores do campo? Que cheiro era aquele que desdenhoso se misturava no ar e incrustava-se nas suas narinas? Há coisas que não devem ser estragadas por aquilo que sabemos e assim sendo devemos sorrir de ignorância e viver de ignorância e vivendo assim: ignorantes mas felizes, caminhamos pelo mundo com uma facilidade imensurável. Dando o nosso melhor caminhamos. Tropeçando no pior caminhamos. Seguimos até deixarmos de ser vistos. Há coisas que merecem ficar por aí perdidas. Neste mundo só se transforma o que nos pertence. Só nos pertence o que não nos foge pelos dedos. E mesmo o que nos foge pode ser nosso até um dia.

-Há coisas que nos fazem felizes

E que coisas são essas? E que pessoas são essas? E que momentos são esses? Perguntava-se ele perdido de razões naquela eternidade, naquela pequena eternidade. O sangue misturava-se, o ar misturava-se, os corpos misturavam-se, eles misturavam-se. Tudo se misturava numa simbiose perfeita de amor quase eterno. Olhavam-se nos olhos um do outro e viam-se nos olhos um do outro. Existem coisas que não sabemos. Existem coisas que merecem ficar guardadas. Merecem existir em silêncio e enquanto forem silêncio não existem. Somos felizes nessa mudez. Somos felizes.

-Há coisas, sabes?

Na paz daquele abraço nem ela nem ele eram mais ou menos reais que essas coisas. Na paz daquele abraço: nada. Ali, ao longe, para lá do infinito dos corpos deles, existia o mundo. Ali, naquele momento não existia nada a não ser eles. Eram o sol, e a lua, e o mundo, e as estrelas. Brilhavam. Brilhavam muito.

-Há coisas que nos fartam.

-Porquê?

-Porque existem.

E ali ficaram enraizados enquanto, infinitos, olhavam um para o outro.

PedRodrigues

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Entre o estar e o não estar

Conto as pedras da calçada e tu não vens. Conto os carros a passar e tu não vens. Conto os dias que passam e tu teimas em não vir. Deixo-me ficar por aqui: feito de pedra, feito de ossos, feito de carne, feito de ar, feito de ausência. Conto-te na minha pele e tu não vens. Pergunto-me uma vez

-Onde estás?

Pergunto novamente

-Quando vens?

Conto as dores que me fazem: tu não vens. Tu nunca vens. Procuro-te pelo deserto, aponto-te o dedo

-És tu?

Nunca és. Tenho saudades tuas. Tenho sempre saudades tuas. Ainda estás comigo e eu já tenho saudades tuas. Tornas-te neste vazio e eu por aqui fico a contar-te pelos cantos. Janto a pensar em ti. Ligo a televisão a pensar em ti. Tomo banho a pensar em ti. No outro dia contei três cabelos teus no ralo da banheira. Tu não estavas.

-Onde estás?

Depois chorei em conjunto com o chuveiro. A água corria e eu pensava em ti. Juro que pensava em ti. Contava os pingos e tu não vinhas. Tu não vieste.

-Quando vens?

Arrepio-me de febre e tu não vens. Se morrer tu não vens. Se viver tu não vens. Tenho tantas saudades tuas. Tenho insónias feitas de saudades tuas. Tenho textos escritos de saudades tuas. Vejo-te nas paredes e nos vidros dos carros e nos anúncios perdidos pelos candeeiros. O mundo é feito de ti. O meu mundo é feito de ti, mas tu não estás. Sinto-me parado. Sinto o meu coração parado quando não estás. Aponto-te o dedo

-És tu?

Não. Não és tu. Nunca és tu. O tempo continua parado e está sol lá fora. Vou-me deixando ficar a contar-te por aí. Um dia acabarás por voltar. Todos acabamos por voltar, um dia. Vou ficando por aqui a contar: um, dois, três; um, dois, três; um, dois, três. E nesta espera demorada entre o dia em que partiste e o dia em que voltarás, vou contando o teu vazio pela cama. Nesta urgência que tenho de te abraçar vou contando os segundos que me separam de ti. Entre o estar e o não estar só restas tu. Tudo o resto é feito de nada.

-És tu?

-Onde estás?

-Quando vens?

PedRodrigues


quarta-feira, 20 de junho de 2012

Ensino Superior: habitat dos vampiros das bolsas de investigação


Já faltou mais para que um dia destes tenha de passar de espectador atento desta realidade, a interveniente inconformado com o rumo dela. Aliás acho que essa hora acabou de chegar, visto que atingi o limite - que penso ser o natural - para lidar com a imbecilidade.
Lembro-me de algumas histórias que ouvia da boca de estudantes mais velhos no ano em que entrei para a faculdade. Uma delas sempre me intrigou: “há professores que mandam os exames ao ar: os que ficarem em cima da cama passam, os que caírem no chão chumbam.” Naquela altura nada disto fazia sentido. Vinha de um mundo totalmente diferente, em que os professores nos avaliavam pelo nosso verdadeiro valor e mérito, nos acompanhavam todos os dias, sabiam o nosso nome e distinguiam-nos no meio de uma multidão. Vinha de um mundo justo, onde tudo funcionava na devida proporção: os alunos sentavam-se para aprender, os professores esforçavam-se para ensinar. E vindo deste paraíso pedagógico, custava-me acreditar em todas aquelas histórias que ouvia pelo menos uma vez por mês da boca dos mais velhos. Anos passados, dou por mim a boiar, como um cadáver, neste rio de merda a que damos o paradoxal nome de Ensino Superior. Hoje é a minha vez de posar como aluno mais velho e contar aos mais novos, e a todos os outros, as fantásticas histórias dos vampiros das bolsas de investigação a quem também chamamos paradoxalmente de professores. É triste constatar que despendemos milhares de euros para nos sujeitarmos a um tratamento de segunda como se não fossemos dignos de algo mais e ainda, ao mostrarmos a nossa indignação, ouvirmos da boca de um desses senhores: “se querem ser bem tratados paguem propinas mais elevadas”. O que demonstra da sua parte não só falta de tacto, como também um egoísmo desmedido. No entanto é este o mote de tantos outros que se passeiam pelos corredores desta faculdade, entrando nas salas sem vontade alguma de ensinar, arrastando-se por obrigação. Na altura em que o tratado de Bolonha entrou em vigor todos os problemas pareciam resolvidos. A ideia era a de um ensino presencial em que os alunos teriam o papel mais importante: dinamizar o processo de estudo e aprendizagem. Para os professores tornou-se num alívio, tinha começado a era do “chame-me se tiver dúvidas”. O grande problema é que não há dúvidas se não houver estudo e para haver estudo é necessário alguém que ensine. Assim sendo, o papel do professor seria não só procurar as dúvidas, mas fomentá-las. Não deveria caber ao aluno ser autodidata quando há alguém que é pago para ensinar. Da mesma forma que não deveria haver um tratamento especial aos alunos apenas porque vão às aulas e aos gabinetes. A função do pedagogo será sempre ensinar e avaliar, mas avaliar de forma objectiva: merece passar: passa; não merece passar: não passa. Enquanto situações como esta acontecerem

“Você tem exame para doze, mas os seus trabalhos não estão grande coisa. Estão positivos, mas podia ter tido uma nota como aqui a do seu colega, olhe aqui os trabalhos dele. Venha cá para o ano que você tira uma boa nota a isto. Este ano dou-lhe o nove, mas para o ano você vai tirar uma grande nota e agradece-me”

em que o professor me reprova com exame para doze, a injustiça continuará a reinar. Enquanto um professor passar cinquenta por cento dos alunos inscritos a exame e reprovar os outros cinquenta sem sequer se dignar a meter as notas na pauta, a injustiça continuará a reinar. Mais: enquanto nós alunos soubermos que temos condições para ser aprovados a uma disciplina, ao passo que outros declaradamente não têm e mesmo assim esses mesmos alunos que não tinham condições para ser aprovados o são, enquanto os outros que estudaram sabem o que fizeram e têm todas as condições para ter pelo menos um dez reprovarem, a injustiça continuará a reinar. Enquanto nos obrigarem a rastejar por aquilo que merecemos, a injustiça continuará a reinar. Enquanto optarmos pelo silêncio, a injustiça continuará a reinar. Enquanto nos chuparem o sangue e o dinheiro sem nada recebermos em troca, continuaremos a ser o país dos iletrados com canudo. Mas duma coisa podem ter a certeza: depois do dia de hoje há mais uma voz que não se cala. Estou farto desta merda até aos ossos.

PedRodrigues